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Jornal de Espiritismo nº 17 · Maio 2006Página 34 min
Correio do leitor PUBLICIDADE PUBLICIDADE Já não podemos dizer que não sabíamos As cartas e mensagens que recebemos vêm dos sítios mais diversos, desde Cuba a países euro- peus. Desta vez, o nosso destaque vai para um texto de uma leitora, Luísa Alcântara, de Aveiro. «O fim da vida (tal como a conhecemos) é um dos factos mais perturbadores com que o ser humano é confrontado. Muitos de nós, no entanto, admitindo ser impossível obter respostas credíveis para as questões situadas fora do paradigma físico matemático, optamos simplesmente por pôr de lado os assuntos relacionados com a morte ou com a vida para além da morte.
É compreensível, em certa medida, que assim aconteça. Não podemos, no entanto, fazê lo indefinidamente porque, mais cedo ou mais tarde, a realidade apanha nos desprevenidos, abalando as nossas estruturas mentais e emocionais. E isto não afecta apenas os cépticos. A verdade é que o conceito de morte continua relegado para tema tabu no qual a sociedade não investe de forma con- sistente. Poderíamos dizer que para isso existem as religiões.
Mas a forma como estas actuam, essencialmente baseada na fé, em dogmas, para não falar no medo e na culpa, corresponde cada vez menos aos anseios de um número crescente de pessoas. É certo que nas últimas décadas têm emer- gido inúmeros movimentos e ideias que investem em perspectivas alternativas. Mas se o panorama anterior era insatisfatório, pode não ter melhorado muito, pois tornou se difícil distinguir o trigo do joio.
Neste contexto, aproximações como as da Transcomunicação Instrumental (TCI) são acolhidas com enorme interesse por aqueles que procuram a “verdade” de uma forma descomprometida em relação a dogmas e tabus, tanto quanto possível livre de influências subjectivas. Mesmo sabendo que o caminho para essa verdade, em mol- des que se pretendem científicos, ainda mal começou, acredito estarmos num ponto de viragem. A comunicação com seres iden- tificados como já tendo pertencido a este mundo foi assegurada pelo registo con- trolado em aparelhos, foi criteriosamente analisada para afastar hipóteses de fraude e parece finalmente assegurar-nos que sim, que existe forte possibilidade de a Vida não acabar com a morte do corpo físico.
Serão imensas as consequências deste novo paradigma. Muitas delas, talvez a maior parte, não poderemos sequer ante- cipar. A mais imediata será o consolo e a esperança inestimáveis para aqueles que sofrem a perda de alguém querido. Para além disso, se o medo da morte é reflexo do medo do desconhecido, quanto maior for a informação mais apaziguados todos ficaremos e mais lúcida e tranquila poderá ser a transição para esse “mundo seguinte” de que nos dão conhecimento.
Outro tipo de consequência é o despertar de uma nova perspectiva sobre o sentido da vida e, logicamente, da morte. Assim, se muitas vezes consideramos injusta a morte de al- guém, agora o entendimento poderá ser di- verso. O que será pior – estar neste mundo ou no seguinte? Segundo mensagens que nos chegam, a resposta será “neste”. Deixo para último uma consequência a meu ver mais complexa. Será que a perspectiva de sobrevivência pode ou deve significar uma nova consciência de si e do mundo?
Penso que deve na medida em que todo o conhecimento implica maior responsabi- lidade no comportamento individual, nas relações interpessoais, nos actos e também nas omissões. Já não podemos dizer que não sabíamos... A partir do momento em que pomos a hipótese de a Vida ser muito mais do que até então estaria em jogo, deixa de ser coerente a lógica do “aproveitar enquanto dura”. Isto pressupondo que em algum contexto essa lógica seja aceitável.
Não sugiro que nos tornemos ascetas, que a consciência de uma verdade maior seja impeditiva de desfrutarmos plenamente da vida na Terra. Pelo contrário. Por outro lado, não sei se a perspectiva de sobrevivência pode desencadear uma nova consciência, uma mudança íntima coerente com a informação emergente. Verificamos, por exemplo, que no geral o ser humano só procura novas alternativas de ser e estar quando não tem outra opção.
Sendo este o caso, será que o cenário de acelerada destruição a que assistimos por todo o lado não indica que estamos já perigosa- mente perto de não haver sequer outra opção? Podemos comodamente descartar a responsabilidade pessoal alegando que têm de ser os grandes decisores a orientar e dar o exemplo. Tem alguma lógica. Mas também tem lógica pensar que, se não podemos mudar o mundo, podemos pelo menos tentar tornar os nossos princípios pessoais mais coerentes com as nossas opções.
E se esta atitude se multiplicar por milhares, milhões de exemplos, quem sabe onde será possível chegar? A grande dificuldade parece ser que as mo- tivações humanas pouco se modificaram nos últimos milénios: desejo de poder, sta- tus, aceitação e reconhecimento do grupo... A nossa imagem de sucesso continua a ser, em grande medida, incoerente com a reali- dade íntima e fixada em bases materialistas simplistas. Mesmo quando realmente desejada, a mu- dança exige o melhor dos nossos esforços, implica uma observação sincera dos me- canismos que sustentam as nossas atitudes e dos vícios de pensamento que, de tão comuns, se tornam quase imperceptíveis.
Muitas vezes consideramos que somos o que pensamos ser, mas verdadeiramente somos o que pensamos. Acredito que os nossos verdadeiros limites são as fronteiras mentais, mas acredito também na capaci- dade humana para desafiar essas fronteiras em busca de melhores soluções, baseadas no raciocínio aberto e honesto».
