Saúde Apresentamos, neste espaço, estudos psiquiátricos e de saúde men
Jornal de Espiritismo nº 17 · Maio 2006Página 48 min
Saúde Apresentamos, neste espaço, estudos psiquiátricos e de saúde mental à luz do Espiritismo. Agora, faça sua(s) pergunta(s) Fobia social e fobias específicas No dia 15 de Novembro/2005 recebemos a seguinte carta electrónica: “Leio sempre com o maior interesse os trabalhos que tem vindo a ser publicados no Jornal de Espiritismo da autoria do Dr. Iso Teixeira a quem saúdo pela excelência e profundidade dos conteúdos.
Aproveitan- do a sugestão relativa ao encaminhamento de perguntas gostaria, se possível, de saber se através dos conhecimentos inerentes à doutrina espírita será possível o tratamento de fobias, no meu caso concreto uma fobia social que me persegue desde os cerca de 15 anos de idade e que, agora com 62 anos, continua, em situações pontuais (caso concreto de assinatura ou preenchimento de documentos na presença de outras pessoas) a colocar-me numa situação de verdadeiro pânico.
Agradeço desde já e aguardo com muito interesse os comentários que este assunto possa merecer”. Respondemos, preliminarmente, ao Leitor, informando-o que escreveríamos um artigo usando pseudónimo dele (A.P.) para preser- var sua privacidade e dissemos, ainda, que não encontramos nada ESPECÍFICO sobre o assuntoFobia social, do ponto de vista da Doutrina dos Espíritos; não obstante, os princípios doutrinários se admitidos como CERTOS, sem dúvidas, em muito auxiliarão a pessoa a enfrentar a vida sem inseguranças, incertezasproblema central das pessoas com pânico e fobia social; além disso, há medicamentos que melhoram, e muito, a qualidade de vida, além da psicoterapia.
Os transtornos fóbico-ansiosos O que é fobia social? O que são fobias específicas? As fobias sociais incluem-se nos transtornos fóbico-ansiosos, que são assim subdivididos: Agorafobia, Fobias sociais e Fobias específicas (isoladas). Diz a classificação Internacional da Organização Mundial de Saúde, vigente, a CID-10, sobre os transtornos fóbico-ansiosos: “Neste grupo de transtornos, a ansiedade é evo- cada, apenas ou predominantemente, por certas situações ou objectos (externos ao indivíduo) bem definidos, os que não são correntemente perigosos.
(...)”. O termo agorafobia que, originariamente, designava medo de espaços abertos, hoje é utilizado para medos não só de espaços abertos, mas também de aspectos relacio- nados, como a presença de multidões e a dificuldade de um escape fácil e imediato para um local seguro (usualmente o lar). Já as FOBIAS SOCIAIS estão centralizadas em torno de um medo de se expor a outra pessoas ou grupos comparativamente pequenos em oposição às multidões (que ocorre na doença do pânico).
A nosso ver, cabe distinguir também as Fobias sociais – se é que elas existem autonomamente – do temperamento tímido, introvertido, em que as pessoas temem ficar ruborizadas (com a face vermelha) no contacto social (medo de enrubescimento) ou mesmo medo de assinar documentos em presença de outras pessoas (como é o caso do Leitor). Questionamos a existência de uma doença específica chamada Fobial social, porque, na realidade trata-se, em geral, de quadros neuróticos, conflitivos, da pessoa, magis- tralmente descritos e interpretados por SIGMUND FREUD, onde o protótipo foi o caso do menino HANS, que sofria de fobia a cavalos (uma zoofobia).
O Leitor diz apresentar uma “fobia social”, que o persegue há 47 anos... Parece-nos muito tempo de doença! Com o moderno tratamento medicamentosos e psicoterapêutico, o transtorno costuma ceder em tempo MENOR! É possível que o tratamento não esteja adequado ou não esteja sendo seguido correctamente, enfim, faltam-nos elementos para tentar explicar o porquê da cronificação do distúrbio. Fobial social e “Cãibra de escrivão” O Leitor informou-nos que sofre de uma fobia em situações “pontuais”, o que nos faz pensar não em fobia social, mas numa fobia específica (isolada), de acordo com a CID-10.
Nesta, o medo restringe-se a situa- ções muito específicas, tais como: zoofobia (medo de animais); vertigem fóbica; medo de escuridão em adultos (nictofopbia); medo de escrever em público – como é caso do Leitor, etc. No entanto, o Leitor não forneceu detalhes do seu medo de escrever em público e este tem de ser diferenciado e não deve ser confundido com um distúrbio ocupacional, chamado Cãibra do escrivão. Esta é uma disfunção neurológica, uma distonia, isto é, a contracção involuntária de um deter- minado grupo de músculos.
Uma distonia pode ocorrer durante um tipo específico de movimento como, por exemplo, ESCREVER, digitar ou tocar um instrumento musical. Nessa fase, as distonias são conhecidas como cãibras ocupacionais. A mais fre- quente é a cãibra do escrivão que ocorre apenas durante o acto de escrever e fica restrita ao membro que está a ser utilizado. Entretanto, com o tempo, os espasmos po- dem ocorrer durante a realização de outros movimentos ou mesmo durante o repouso.
Não se conhece a relação entre a utilização continuada de um grupo muscular e o aparecimento de distonia, porém, a causa da cãibra de escrivão parece estar relacio- nada com uma disfunção dos núcleos da base (isto é, grupo de estruturas nervosas situadas na base do encéfalo relacionadas com aspectos importantes do controlo mo- tor do corpo). Na CID-10 a “cãibra de escrivão” é classifi- cada como “Outros transtornos neuróticos especificados”, ou seja, cuja causa ainda é incerta.
Explicações questionáveis Como dissemos, não encontramos nada ESPECÍFICO sobre o assunto na Doutrina dos Espíritos, não obstante, alguns con- frades querem estabelecer relações entre o transtorno (fobia social) e acontecimentos em encarnações pretéritas da pessoa... Imaginemos, só para exemplificar a tese dos confrades, que uma pessoa em encarnação passada cometeu um acto grave, supo- nhamos: um juiz assinou uma sentença de morte de uma pessoa sabidamente inocente...
Assim, nesta encarnação sofreria a fobia específica de “assinar documentos”... Esse tipo de interpretação é comum em pessoas influenciadas pela Psicanálise e defensoras da técnica de TVPTerapia de Vidas (ou vivências) Passadas, das quais discordamos... E por que discordamos? Os casos relatados na literatura espírita ainda não foram sepa- rados das fantasias dos analisandos e o fac- to de uma pessoa conseguir saber a “causa” de um distúrbio, não é condição sine qua non para sua cura.
Este é um erro básico da tese freudiana e dos seus seguidores, assim como daqueles que advogam a técnica da TVP, pois o conhecimento vivenciado da causa de um problema emocional não dá à pessoa a garantia da cura – a prática demonstra isto. Não há impossibilidade de que o “medo de escrever em público” seja um compromisso reencarnatório, mas só o caso individual irá comprovar, ou não, essa assertiva; não se deve generalizar algo que é personalíssimo.
Epílogo No chamado “Quinto Evangelho” – o EVANGELHO DO APÓSTOLO TOMÉ –, um dos apócrifos da Bíblia, encontrado com outros manuscritos, em caracteres coptas, no cemitério de Nag Hammadi, no Egito, lemos no item 37: “Perguntaram os discípu- los a Jesus: Em que dia nos aparecerás? Em que dia te veremos? Respondeu Jesus: Se vos despojardes do vosso pudor; se, como crianças, tirardes os vossos vestidos e os colocardes sob os vossos pés, percebereis o filho do Vivo – e não conhecereis temor.
” Essas palavras, aparentemente incompreen- síveis, mostram segundo a interpretação espiritual, que a forma para “vermos Jesus” é nos despojarmos das influências, materiais, corporais, pois o corpo nos é dado para exercitarmos o Espírito ante os obstáculos, as resistências... “Sem resistência não há evolução”, já dizia o espiritualista HUBERTO RHODEN... Enfim, não devemos fugir ao contacto so- cial com o Outro, pois este Outro será sem- pre uma “resistência” para nosso Espírito, às vezes, um “obstáculo” para nossa evolução espiritual.
Dancemos a vida com alegria, com os outros, exercitando o nosso Espírito e não o corpo... Se por acaso o Outro for um obstáculo, ele será sempre um factor para a nossa evolução. Como já o dissemos alhures: quando estamos doentes precisamos de médico e não de chazinhos sem nenhum efeito farmacológico; nem de TVP, pois se DEUS nos deu a amnesia de outras encarna- ções, por que forçar uma situação contra a Providência Divina?
Acrescente-se a isso que está provado que a lembrança do passado não leva necessariamente à cura; o axioma de FREUD não se confirmou na prática, dizia ele que a verdade – extraída do inconsciente – levaria à cura. Quando estamos doentes, também não precisamos de outros “tratamentos”, sem nenhuma base científica, como a Apometria, a Psicometria, etc. [jornal O SEMEADOR (órgão da FEESP), Julho/2002, págs. 8 e 9, Secção ESTUDOS].
A vida inautêntica, existencialmente falando, de um neurótico é que o leva ao sofrimento desnecessário. Não obstante, as fobias isoladas podem ser tratadas com êxito, através de antidepressivos e com terapia cognitivo-comportamental. Além disso, os PASSES espirituais também são úteis para coadjuvar o tratamento médico- psiquiátrico. Texto: Dr. Iso Jorge TeixeiraCREMERJ: Encaminhe sua pergunta para: E-mail: isojorge@globo.
com ou, se preferir para A Caixa Postal: Apartado 161 4711-910 BRAGA – PORTUGAL. Nota: Os artigos de opinião são isto: pontos de vista. Mais ou menos fundamentados. Não nos cabe fazer censura ou manipulação mas sim respeitar as diferenças de opinião. No caso presente, contudo, há dados que um serviço informativo não pode deixar cair. Referimo-nos ao enfoque sobre regressão de memória na vertente terapêutica aborda- da pelo psiquiatra Iso Teixeira, apreciado articulista regular deste jornal.
Ressalvadas to- das as indicações e contra-indicações constantes do estatuto desta terapia regressiva a vivências passadas (TRVP), designação mais conhecida, há numerosas experiências que demonstram os bons resultados desta terapia. Ignorá-los é tapar o sol com a peneira. Explica-se, nos cursos de formaçãoamédicos e psicólogos que queiram aprender a aplicar esta terapia, que lembrar situações traumáticas do passado só por si não resolve problemas, como até os pode agravar.
Por isso, por exemplo, na técnica Peres*, além da localização dos traumas, do respeito pelos bloqueios que ocorram por parte do pacien- te, entre outros elementos, há também um processo de redecisão que permite reeducar os comandos do inconsciente gerados pela rejeição de situações difíceis de ultrapassar no passado e que perturbam o presente. A bênção do esquecimento preconizado pela doutrina espírita em nada conflitua com isso.
Para não nos alongarmos nestas linhas, recorreremos a um exemplo que permite em termos populares entender o inexistente conflito filosófico entre o esquecimento- -lembrança com fins terapêuticos: no jornalismo, há quem use armários com gavetas onde guardam peças várias que vão entrando na medida do possível na imprensa. Em cada gaveta há pastas que encaixam nos eixos numa só posição. Quando uma pasta é mal metida na gaveta, a gaveta fecha mal.
O objectivo é fechar a gaveta: por isso, temos de a abrir de novo, encaixar bem a pasta, e a gaveta já vai fechar sem qualquer imper- feição. Lembranças traumáticas também são assim: estão demasiado «mal esquecidas», o que leva a ter de reajustá-las para que não perturbem o presente. Não é uma questão de opinião, são factos reconhecidos há algumas décadas por todo o mundo. Não é possível, hoje, ignorar isso. E é claro que a TRVP não serve para satisfazer curiosidade nem tem nada a ver com o Espiritismo.
* A Técnica Peres foi criada pela Dr.ª Maria Júlia Prieto Peres, de São Paulo, Brasil, no Instituo Nacional de Terapia Regressiva a Vivências Passadas (TRVP).
