Opinião A Experiência de Quase Morte (EQM) surge então como o derradei
Jornal de Espiritismo nº 17 · Maio 2006Página 119 min
Opinião A Experiência de Quase Morte (EQM) surge então como o derradeiro desafio à “senhora vestida de preto”, o escape inesperado e aparentemente inexplicável ao momento fatal do último suspiro. De acordo com Manuel Domingos (psicólogo especializado em Neuropsicologia e Neurociências e pesquisador da EQM em Portugal), a EQM “parece ser uma experiência transcenden- tal, usualmente multifacetada, gerada pela precipitação de um confronto com a morte (tal como as ciências biológicas, vigentes e actuais, a entendem)”.
Por todo o mundo, são imensos os relatos de pessoas que passaram por uma EQM, existindo já diversos estudos científicos realizados no sentido de desvendar esse fenómeno interessante e curioso. Nomes como Raymond Moody (o grande pioneiro), Kenneth King, Melvin Morse e Paul Perry passam a trilhar o caminho na direcção da verdade, caminho esse que ainda hoje representa muitos passos por dar. “Assistimos, assim, ao surgimento de um novo paradigma, que está a começar a questionar o velho modelo materialista das ideias acerca da natureza do homem e do universo”, dizia Hernâni Guimarães de Andrade De um modo geral, as EQM podem ser divi- didas de acordo com três grandes catego- rias: 1) As que acontecem com pessoas que foram julgadas, consideradas ou declaradas clinicamente mortas.
2) As que ocorrem com pessoas que durante um acidente, uma doença ou ferimento se aproximam da morte. 3) As que se passam com pes- soas que, no leito da morte, descrevem a experiência àqueles que estão ao seu lado. Analisando mais a detalhe as descrições das centenas de casos registados, tornou-se possível traçar uma espécie de “programa”, com certas características em comum: Sensação de estar morto; Paz, sensação agradável, tranquilidade; Percepção de ruídos, zumbidos, ou até música; Sensação de flutuação junto ao corpo físico (Ex- periência Fora do Corpo); Viagem através de um túnel escuro, com uma luz ao fundo; Contacto ou encontro com familiares e amigos já desencarnados; Encontro com um ser de luz (ou uma luz intensa), com a qual se estabelece uma comunicação men- tal, e que leva à meditação e reflexão de questões como: “Estás pronto para morrer?
” e “O que fizeste com a tua vida até agora?”; transmite um amor incondicional, sendo visto como um representante da sabedoria e da bondade; Visualização de uma espécie de “filme da vida”, podendo mesmo causar no seu protagonista as emoções vividas nos momentos retractados; Percepção de algo que parece representar uma fronteira, uma barreira para a verdadeira morte: uma extensão de água, uma névoa, uma porta, uma cerca, uma simples linha… Alguns manifestam medo, querendo regressar ao corpo, outros ficam indiferentes, e outros ainda (a maioria) mostram-se relutantes em regressar ao corpo; Grande lucidez relativa aos factos vividos e recordados depois; Perda de medo da morte em grande parte dos casos; Acompanhamento e descrição rigorosa e exacta de aspectos referentes ao ambiente circundante no momento da “morte”/EQM, tais como: conversas entre médicos e enfermeiros, processos de reani- mação, declaração do óbito, reacção dos familiares…; Transformação na personali- dade da pessoa que viveu a EQM, passando a valorizar a vida de um modo diferente, com um interesse menos material e mais espiritual/emocional.
O amor surge como a grande condicionante importante da vida. Geralmente, as pessoas não apresentam nos seus relatos todos estes aspectos, obrigatoriamente. Na verdade, a intensi- dade e profundidade da experiência vai depender da duração da mesma. Quanto mais tempo a pessoa se mantiver neste es- tado alterado da consciência, mais estágios ela irá vivenciar. E cada EQM é diferente da outra. Na grande maioria dos casos, a experiência caracteriza-se por ser agradável, mas pode acontecer que tal não se verifique.
É o que acontece sobretudo nas situações de suicí- dio falhado, em que a pessoa se dá conta de que as suas dores não encontram um fim com a morte, apenas se agravam. No entanto, também outros casos podem ter uma experiência com sensações mais desa- gradáveis. Seja como for, é sempre com- plicado para aqueles que vivem uma EQM descrever por palavras humanas aquilo que sentiram bem forte no Espírito. A ocorrência da EQM nada tem a ver com aspectos como a idade, género, raça, credo, nível socioeconómico, cultura, escolari- dade… Os registos são das mais variadas fontes, sem que partilhem todos de uma característica específica entre eles, excepto o facto de estarem encarnados.
Na verdade, as nossas condições como ser vivo podem mesmo apresentar-se diferentes na vivência de uma EQM. A pessoa que tem o seu corpo físico mutilado é capaz de sentir-se inteira, assim como o cego descreve com exactidão todos os detalhes que viu. A EQM E AS CIÊNCIAS HUMANAS Dada a complexidade do fenómeno anali- sado, e conjuntamente com os estudos desenvolvidos para a sua compreensão e busca de uma explicação, também outras áreas da ciência tratam de procurar justificar a EQM.
As propostas são muitas, mas a con- clusão está ainda longe de ser atingida. Na área da neuropsicofisiologia, defende- -se que poderá tratar-se de uma alteração cerebral, provocada fundamentalmente pela interferência de certas substâncias orgânicas libertadas perante um perigo de vida eminente, e que ao invadirem os lobos temporais, têm no sujeito um efeito de carácter alucinatório e místico. Coloca-se ainda a hipótese da existência de anóxia cerebral, facto que não explica os casos de EQM em que ela não existe.
Explica Melvin Morse que, de facto, o lobo temporal direito se encontra associado à EQM, mas num sentido mais catalisador, junto com a glân- dula pineal. Não poderia tratar-se também de uma alucinação causada pela falta de oxigénio no cérebro, na medida em que a pessoa se apresenta consciente no decorrer da EQM, e grava no cérebro as informações vividas, vistas e sentidas. Já a Psicologia apresenta várias causas possíveis para a EQM.
Coloca-se a hipótese de o sujeito sofrer de uma crise de desper- sonalização, passando a sentir-se à-parte do seu próprio corpo, o que não poderia ser verdade, visto que a pessoa que vive a EQM está perfeitamente lúcida e ciente de si mesma nessa experiência; outra hipótese é a que diz que todo o indivíduo tem gravado no seu cérebro os elementos tradicionais da EQM, como representantes de uma boa forma de morrer, chegando assim à fantasia.
Embora se apresentem como tentativas sérias de explicação deste fenómeno, estas teorias não deixam de ser incompletas, confusas ou simplesmente pobres em ar- gumentação. Desse modo, permanece em aberto o caminho para a descoberta. EQM VS MORTE Diz-nos Moody que a morte é um estado do corpo do qual é impossível retornar à vida. “É óbvio que, por essa definição, nenhum dos meus casos seria incluído, pois todos eles supõem a ressurreição.
Mesmo nos casos em que o coração deixou de bater por longos períodos, os tecidos do corpo, particularmente do cérebro, devem ter sido, de algum modo, supridos de oxigé- nio e nutrientes.” Por isso, podemos dizer que a EQM é uma espécie de ensaio para a morte, em que um estado alterado da consciência leva à experiência vivida. Não acontece o des- ligamento do perispírito e do corpo com o objectivo de se dar a histogénese espiritual, nem o rompimento do “cordão de prata”.
Só assim se desencadearia o “programa” desencarnatório. CONCLUSÃO O Espiritismo vem apresentar-nos uma perspectiva da morte que a suaviza e trans- forma em algo totalmente novo. Não temos mais a preocupação de fazer com grande pressa tudo o que desejamos fazer antes de a vida “acabar”, e quase sem darmos por ela, o medo de morrer desvanece no nosso coração. É a confiança num futuro eterno e seguro, do qual somos os grandes projectistas e condutores.
E como nos diz Allan Kardec em «O Evangelho Segundo o Espiritismo», “A morte para os homens mais não é do que uma separação material de alguns instantes”. A EQM é uma das maiores provas da existência de algo além da matéria e so- brevivente à destruição desta: o Espírito. E todas as pesquisas e descobertas de agora vêm de encontro àquilo que Allan Kardec já nos havia explicado na Codificação, há quase 150 anos. “Estou convencido de que as pessoas que vivenciam uma EQM têm um vislumbrar do Além, realizam uma breve passagem por uma outra realidade”, diz Raymond Moody Jr.
E é por isso que, para a doutrina espírita, a EQM não é mais do que um desdobra- mento involuntário do perispírito, e que pode servir de lição não só para aquele que a vive, mas para aqueles que a ouvem. Ela não pode representar um escape à morte, na medida em que não temos poder ou capacidade para conseguir algo assim. Desse modo, ela poderá ser encarada como um aviso, uma chamada de atenção para aquilo que fazemos com o nosso tempo, uma paragem para obrigar à reflexão de cada um sobre o quanto está realmente a aproveitar a oportunidade de mais uma encarnação.
É o despertar para a vida… Tal como disse um amigo, “a vida parece ser um fenómeno que não pára quando o corpo físico de alguém morre; mais: dir-se- -ia que os «mortos» vivem”. Texto: Cátia Martins catiamartins@g3war.org UM EXEMPLO O Jason brincava com a sua bicicleta nova quando foi atropelado. Contou ele a Raymond Moody, médico: “Vi o meu corpo sob a bicicleta, e a minha perna estava partida e a sangrar. Lembro-me de olhar e de ver os meus olhos fechados.
Eu estava em cima. Flutuava, cerca de um metro e meio acima do meu corpo, e havia pessoas em volta. Um homem tentou ajudar-me. Uma ambulância chegou. Estranhei que as pessoas ficassem preocupa- das comigo, já que estava a sentir-me muito bem. Vi o meu corpo a ser colocado na ambulância e tentei dizer-lhes que estava bem, mas ninguém me ouviu. (…) Uma delas disse: “Ajude-o”. E outra: “Acho que ele está morto, mas vamos tentar salvá-lo”.
“A ambulância foi embora e eu tentei segui-la. (…) Depois, olhei em volta e vi que estava dentro de um túnel com uma luz brilhante no fim. Ele parecia subir e subir. Mas cheguei ao outro lado. Havia muita gente sob a luz, porém não reconheci ninguém. Contei-lhes sobre o acidente, e disseram-me que eu teria de voltar. Disseram que ainda não era chegada a minha hora de morrer e que eu tinha de voltar para junto do meu pai, da minha mãe e da minha irmã.
(…) Senti que todos ali me amavam. Que todos eram felizes. Senti que a luz era Deus. (…) E, quando cheguei lá, não queria mais voltar. Quase que esqueci o meu corpo. (…) Então, disseram-me que eu teria de voltar. Atravessei novamente, o túnel e fui parar ao hospital, onde dois médicos me socorriam. (…) Vi o meu corpo sobre a mesa e parecia azul. Sabia que ia voltar, porque foi isso que as pessoas sob a luz me disseram.
“Os médicos estavam preocupados, mas eu tentava dizer-lhes que estava tudo bem. Vi um deles colocar um aparelho sobre o meu peito e o meu corpo estremecer. Mais tarde, depois que acordei, disse ao médico que o vira fazer aquilo. Contei também para a minha mãe, mas nenhum deles me quis ouvir. (…) Para mim, eu quase morri. Vi o lugar para onde vamos, quando morremos. Não tenho medo de morrer. O que aprendi lá é que a coisa mais importante enquanto se está vivo é o amor.
