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Jornal de Espiritismo nº 17 · Maio 2006Página 126 min

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Personalidade J. B. Vianney, o Cura d’Ars No capítulo VIII do Evangelho Segundo o Espiritismo1 - “Bem- -aventurados os que têm puro o coração” -, Allan Kardec in- sere, na secção final destinada às instruções dos Espíritos, uma comunicação recebida em Paris (França), no ano de 1863, e assinada pelo Espírito “J. B. Vianney, Cura d’Ars”. Em nota de rodapé, ele esclarece-nos que essa comunicação - “bem-aven- turados os que têm fechados os olhos” - “foi dada com relação a uma pessoa cega, a cujo favor se evocara o Espírito de J.

B. Vianney, Cura d’Ars”. No mesmo livro, no capítulo XVII – “Sede Perfeitos” -, igualmente na secção destinada às instruções dos Espíritos, o codificador inclui um texto – “A Virtude” - , recebido em Paris em 1863, assinado pelo Espírito François-Nicolas-Madeleine, onde, mais uma vez, é feita uma referência directa ao Cura d’Ars. Aí se pode ler: “A virtude, no mais alto grau, é o conjunto de todas as quali- dades essenciais que constituem o homem de bem.

Ser bom, caritativo, laborioso, sóbrio, modesto, são qualidades do homem virtuoso. Infelizmente, quase sempre são acompanhadas de pequenas enfermidades morais que as desornam e atenuam. Não é virtuoso aquele que faz ostentação da sua virtude, pois que lhe falta a qualidade principal: a modéstia, e tem o vício que mais se lhe opõe: o orgulho. A virtude, ver- dadeiramente digna desse nome, não gosta de se exibir. Adivinham-na; ela, porém, se oculta na obscuridade e foge à admiração das massas.

S. Vicente de Paulo era virtuoso; eram virtuosos, o digno cura d’Ars e muitos outros quase desconhecidos do mundo, mas conhecidos de Deus [destaque nosso]. Todos esses homens de bem ignoravam que fossem virtuosos; deixavam-se ir ao sa- bor de suas santas inspirações e praticavam o bem com desinteresse completo e inteiro esquecimento de si mesmos. (…)” Em O Céueo Inferno2, 2ª Parte, capítulo II – “Espíritos Felizes” -, Allan Kardec, numa nota prévia sobre o Espírito Doutor Demeure, médico espírita, “solícito propagador” (do Espiritismo), falecido em Albi (Tarn) a 25 de Janeiro de 1865, compara-o ao Cura d’Ars nos seguintes termos: “Era um distintíssimo médico homeopata.

O seu carácter, tanto quanto o seu saber, havia-lhe granjeado a estima e a veneração dos seus concidadãos. Eram-lhe inextinguíveis a bondade e a cari- dade, e, a despeito da idade avançada, não se lhe conheciam fadigas, em se tratando de socorrer doentes pobres. O preço das visitas era o que menos o preocupava, e de preferência sacrificava as suas comodidades ao pobre, dizendo que os ricos, em sua falta, bem podiam recorrer a outro médico.

E quantas e quantas vezes ao doente sem recursos provia do necessário às exigências materiais, no caso destas serem mais úteis do que o próprio medicamento. Dele pode dizer-se que era o Cura d’Ars da Medicina [destaque nosso]. (…)”. Face ao tempo decorrido e ao novo en- quadramento histórico em que vivemos, é lícito que nós, os actuais leitores da Codificação Espírita, nos interroguemos sobre quem foi João Maria Baptista Vianney (Jean-Marie Baptiste Vianney), o Cura d’Ars3, beatificado a 8 de Janeiro de 1905 pela Igreja Católica4, e porque é que Allan Kar- dec (sempre tão circunspecto e prudente) e os Espíritos o citam abertamente como um modelo de virtude, exemplo de homem de bem e de verdadeiro cristão?

João Maria, filho de Mateus Vianney e de Maria Beluse (nomes aportuguesados), nasceu a 8 de Maio de 1786, em Dardilly, pequena aldeia situada entre as montanhas, a 8 quilómetros a nordeste de Lião (França); e faleceu a 4 de Agosto de 1859 em Ars5, pequena aldeia situada a 35 quilómetros a norte de Lião. Foi, portanto, conterrâneo e contemporâneo de Allan Kardec (de seu nome Hippolyte Léon Denizard Rivail), nascido a 3 de Outubro de 1804 em Lião e falecido a 31 de Março de 1869 em Paris.

Foi, além disso, contemporâneo do nasci- mento do Espiritismo. Lembramos que foi em 1854 que o Sr. Rivail, professor emérito e autor pedagógico de renome, ouviu, pela primeira vez, falar das mesas girantes; que foi em Maio de 1855 que testemunhou o fenómeno das “mesas que corriam e salta- vam” e que tomou contacto com ensaios muito imperfeitos de escrita mediúnica, efectuados com o auxílio de uma cesta que se movia sobre uma ardósia; que foi no período de 1855 a 1856 que ele sistemati- zou e organizou, recorrendo a mais de dez médiuns, todas as comunicações recebidas dos Espíritos, de onde surgiu um corpo doutrinário que, para instrução geral, foi publicado em livro, a 18 de Abril de 1857, pela primeira vez, com o título O Livro dos Espíritos6.

João Maria Baptista Vianney foi também conhecido pela função que desempenhava: a de Cura d’Ars. A palavra “cura”7 provém do latim e quer dizer “cuidado”. Um “cura” é um sacerdote que tem a seu cargo uma aldeia ou pequena povoação. Por semelhança de sentido, designa um padre, um pároco ou um prior. J. B. Vianney foi, portanto, cura (padre, pároco ou prior) de uma pequena aldeia francesa chamada Ars. A sua extrema dedicação ao próximo, com o completo esquecimento de si mesmo, foi exemplar.

Viveu rodeado de fenómenos ex- traordinários como a leitura do pensamen- to, a visão à distância, o conhecimento do passado, a previsão do futuro. Em inúmeras ocasiões, realizaram-se, por sua intercessão, curas miraculosas, desafiando a simples lógica materialista e chamando a atenção para a realidade espiritual. Ainda em vida, foi considerado um santo, não tanto pelos fenómenos espectaculares, de que ficaram registados inúmeros teste- munhos, mas, sobretudo, pela conversão das almas a quem a sua palavra e o seu exemplo confortaram e transformaram.

Num tempo de ferozes perseguições à Igreja e aos sacerdotes, ele foi o teste- munho vivo da caridade em acção, do que é ser um verdadeiro cristão e um verdadeiro homem de bem. Contra a sua vontade, a sua fama projectou- -se por toda a França e transportou-se além fronteiras. Era, pois, natural que Allan Kardec e os Espíritos o referenciassem, pela sua envergadura espiritual, como um exemplo digno a seguir. Demonstrando que os Espíritos supe- riores não estão presos, como nós, aos preconceitos e às convenções do mundo material, ele voltou a manifestar-se do além-túmulo, com a mesma linguagem, com as inconfundíveis características que o individualizaram enquanto encarnado, para dar exemplo, na sua humildade, do grande amor que deve unir todos os Espíritos para a construção de uma humanidade mais feliz e mais perfeita.

Como muitas outras grandes referências morais e espirituais da Humanidade, nós, os espíritas, com profundo respeito, os toma- mos como “modelos de homem de bem”. Texto: Reinaldo NOTAS: 1. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Federação Espírita Brasileira. Tradução de Guillon Ribeiro. 112ª Ed., 1996. Pág. 157-159. 2. KARDEC, Allan. O Céueo Inferno. Federação Espírita Brasileira. Tradução de Manuel Justiniano Quintão.

40ª Edição, 1995. Página 201. 3. Encontramos em portu- guês as seguintes obras: GHÉON, Henri. O Cura d’Ars. Quadrante. Tradução de Antônio Maria d’Albuquerque. São Paulo, 1998. TROCHU, Francis. O Cura d’Ars. Edições Theologica. Tradução de José A. Marques. 1ª Edição, 1987. 4. É considerado pela Igreja Católica “padroeiro oficial dos párocos”. 5. Oficialmente, hoje chama-se Ars-sur-Formans. 6. Cf. KARDEC, Allan. Obras Póstu- mas.

Segunda parte, “a minha primeira iniciação no Espiritismo”. Federação Espírita Brasileira. Tradução de Guillon Ribeiro. 18ª Ed., 1981. 7. Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa. Volume I. Ed. Verbo. Braga, Fevereiro 2001.