Opinião O passe Os resultados do passe colectivo, tal como os do passe
Jornal de Espiritismo nº 17 · Maio 2006Página 137 min
individual, dependem apenas da nossa receptividade e das nossas necessidades. Todos os serespelo menos todos os seres vivosexalam energia; sendo assim, todos transferem energia, quanto mais não seja, para o meio ambiente que os rodeia. Contudo, aquilo a que chamamos passe dá-se quando há uma acção consciente de transmissão energética de um ser para outro; e, sendo uma acção consciente, quem a pode fazer é um ser dotado de consciência, isto é, um Espírito (encarnado ou desencarnado).
Tudo e todos (Espíritos encarnados ou desencarnados, animais, plantas, etc.) podem receber uma trans- fusão energética mas, quem pode aplicar um passe são apenas os seres já dotados de consciência. O que é energia? Temos em “A Génese” (Al- lan Kardec) que «o fluido cósmico universal é, como já foi demonstrado, a matéria elementar primitiva, cujas modificações e transformações constituem a inumerável variedade dos corpos da Natureza.
(…) Podemos estabelecer como princípio abso- luto que todas as substâncias, conhecidas e desconhecidas, por mais dissemelhantes que pareçam, quer do ponto de vista da constituição íntima, quer pelo prisma de suas acções recíprocas, são, de facto, apenas modos diversos sob que a ma- téria se apresenta; variedades em que se transformam sob a direcção das forças inumeráveis que a governam.» Estas forças (para além de Deus) nada mais são que os próprios Espíritos, cada um segundo as suas capacidades e sempre dentro das Leis Divinas.
E, como nos diz Zalmino Zimmermann, «a matéria é, afinal, uma forma, ou, se se quiser, um estado ou fase da energia», ideia esta cada dia mais vivificada pela ciência. Sendo assim, tudo aquilo que chamamos matéria, fluido, etc., nada mais são que diferentes estados ou fases de energia, ou seja, tudo é energia excepto Deus e o espírito – digo o espírito e não os Espíri- tos, pois estas individualidades em estado evolutivo algum se podem concebem sem um corpo (perispírito), que, seja qual for a sua subtileza não deixa de ser energia, isto é, não deixa de ser “material”, senão vejamos o que nos diz Allan Kardec em “o Livro dos Médiuns”: «qualquer que seja o grau em que se encontre, o Espírito está sempre revestido de um envoltório, ou perispírito, cuja natureza se eteriza, à medida que ele se depura (…) O perispírito faz, portanto, parte integrante do Espírito, como o corpo o faz do homem», «não deixa de ser maté- ria, embora até ao presente não tenhamos podido assenhorear-nos dela e submetê-la à análise».
Quanto maior a frequência vibratória da energia menos densa ela será; para en- tender isto basta comparar, por exemplo, o nosso corpo orgânico com o nosso corpo espiritual, ambos energia; ou os corpos espirituais de dois seres em estados evoluti- vos diferentes, também ambos energia. Então, repito mas é importante com- preender tudo isto para entender o mecanismo da acção do passe, à excepção de Deus e do espírito (ou princípio espiri- tual), já individualizado ou ainda não, tudo o resto (desde o nosso corpo mais gros- seiro até aos nossos pensamentos, todas as substâncias conhecidas e desconhecidas) é energia em diferentes estados de vibração.
E, como também já vimos, as forças que a governam são os próprios Espíritos. O ser humano terrestre, apesar do seu es- tado evolutivo, já é capaz, na generalidade, de manipular beneficamente, dentro de certos limites, alguns “géneros” de energia, que é o que acontece, por exemplo, no passe; isto dá-se sempre pela força da von- tade (mental). O passe, ou acção consciente de trans- missão energética, divide-se em três modalidades: humano, espiritual ou misto, ou, como disse Kardec, temos magnetismo humano, magnetismo espiritual e magne- tismo misto.
Tratando-se de magnetismo humano, as energias transmitidas provêm de um ser encarnado. Tratando-se de magnetismo espiritual, as energias transmitidas provêm do ser desen- carnado. Tratando-se de magnetismo misto, as energias transmitidas são uma combinação entre as do encarnado e as do desencar- nado. Contudo, podemos afirmar que o passe é quase sempre misto: mesmo quando se trate de um niilista magnetizador en- carnado, quer ele, quer o magnetizado, têm Espíritos desencarnados afins que lhe poderão secundar a acção, daí não ser aconselhável esta modalidade pois nunca se sabe quem são as companhias e também não sabe que tipo de energia (humana) nos será transmitida pelo mag- netizador, quem nos garante que ele é um tipo porreiro e saudável ou que está ali um benfeitor para nos guardar de algum efeito menos positivo?
Essa garantia só a encon- tramos na casa espírita (ou outra) que seja disciplinada em todos os sentidos. Embora Deus jamais permita nos aconteça algo que não deva acontecer, se nós nos expomos às situações com conhecimento de causa é natural que sejamos os únicos respon- sáveis pelo que dai advenha. Pelo outro lado, os Espíritos desencarnados, quando se propõem a aplicar passes em encarnados, por vezes precisam de energias próprias do mundo dos encarnados (que vão buscar a várias fontes e lhe imprimem as característi- cas necessárias a quem o vai receber) para que a assimilação ou até o efeito desejado seja possível.
Acerca de energia “espiritual” ou “material” temos ainda em “A Génese”: «não é rigoro- samente exacta a quantificação de fluidos espirituais, pois que, em definitivo, eles são sempre matéria mais ou menos quintes- senciada. De realmente espiritual, só a ama ou princípio inteligente. Dá-se-lhes essa denominação por comparação apenas (…). Tem consequências e importância capital e directa para os encarnados a acção dos Espíritos sobre os fluidos espirituais (…) pelo pensamento, eles imprimem àqueles fluidos tal ou qual direcção… mudam-lhe as propriedades…».
O magnetizador humano apenas é (ou pode ser) secundado pelos desencarna- dos, mas quando se trata de passe misto, o encarnado funciona sempre como médium (médium passista), isto é, como inter- mediário, mais ou menos activo entre o Espírito desencarnado e o beneficiário; é este (misto) o género de passes aplicado nos centros espíritas. A tarefa de passes no centro espírita é sempre supervisionada pelos benfeitores espirituais ali responsáveis.
São eles que trabalham as energias transmitidas (quer as provenientes dos encarnados, quer as do mundo espiritual) imprimindo-lhe as ca- racterísticas necessárias de acordo com as necessidades de quem vai receber. Apenas digo necessidade e não necessidade/me- recimento como se costuma dizer, porque se não merecemos determinada melhoria é porque ainda temos necessidade de continuar assim, então tudo depende das nossas necessidades (sujeitas, não só, mas também, ao nosso merecimento).
O passe é uma terapia de apoio a processos de curas orgânicas, mentais e espirituais: equilibrando e revitalizando corpo e mente, desbloqueando conflitos íntimos, estados depressivos, auxiliando no tratamento de todo o tipo de enfermidades (a este res- peito, não esqueçamos que o passe, apesar da valiosa contribuição, jamais substitui o médico, quando este se faz necessário). Como terapia tão abrangente que é, só pode agir primeiramente ao nível do peris- pírito (ou corpo espiritual).
O perispírito funciona como uma espécie de “canal de dupla via”, isto é, é o canal de comunicação entre o Espírito propriamente dito (alma) e o corpo orgânico e vice-versa. Ele está dividido em campos ou zonas, e é num dos seus campos que encontramos os centros de força (ou vitais). Estes pontos de concen- tração energética são as portas de acesso às energias transmitidas no passe, ou seja, a energia chega ao destinatário através deles.
O passe é um processo de comando mental, pelo que, a técnica utilizada para os aplicar, só por si, de nada vale; como diz Joanna de Ângelis, «ninguém se prenda, neste mistério, a fórmulas sacramentais ou a formas estereotipadas, que distraem a mente que se deve fixar no objectivo do bem e não na maneira de expressá- -lo». Então, para aplicar o passe, o médium passista não precisa, nem deve, resfolegar, gemer, estalar os dedos, “rezar”, etc.
, isto é totalmente desnecessário, incomodativo e até ridículo (quase tão ridículo como “dar passes incorporado”, infelizmente ainda se houve falar dessa “prática”). Também não se deve aplicar o passe e dar conselhos/ori- entações ao mesmo tempo: para aplicar o passe é necessário um certo recolhimento íntimo e para dar conselhos é necessário o raciocínio activo, o que nos desvia a mente do objectivo do passe para o problema a analisar.
Ainda a respeito de técnicas, diz-nos Manoel Philomeno de Miranda que, «nas actividades do passe, o suprimento de forças ao coronário pode ser o suficiente para que os demais centros vitais sejam revigorados». Sendo assim, a maneira mais prática e simples que temos para aplicar o passe é a imposição de mãos, até porque, são os benfeitores espirituais que condu- zem e distribuem as energias transmitidas, nunca nós. Foi este o exemplo que, na sua simplicidade, nos deixou Jesus.
O Coronário é o centro de força principal: é o “centro da sabedoria”; tem responsabili- dade directa sobre as funções psicológicas, cerebrais e espirituais; assimila os estímulos da espiritualidade; orienta a forma, estabili- dade e metabolismo orgânico; supervisiona os demais centros que lhe obedecem ao estímulo (procedente do Espírito) plas- mando no ser os efeitos agradáveis ou desagradáveis da sua conduta; percebe e capta as energias espirituais e subtiliza as energias a emitir; situa-se na parte superior da cabeça.
Seja qual for o tipo de enfermidade que queremos tratar (física, mental ou espiri- tual), não esqueçamos nunca que o passe é apenas uma terapia de apoio ao processo de cura, esta depende sempre da erradi- cação dos factores que a desencadearam, sejam eles recentes ou remotos, caso contrário as melhoras serão mais aparentes que reais e sobretudo passageiras.
