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Jornal de Espiritismo nº 18 · Setembro 2006Página 124 min
Crónica A porta e a janela No primeiro ano em que leccionei a disciplina de Educação Visual recebi seis turmas do 5.º ano de escolaridade. Os alunos receberam uma disciplina novinha em folha um professor novinho em folha. PUBLICIDADE Alunos de 10 e 11 anos, generosos, com interesse genuíno pelas matérias. Apreciava muito a sua aplicação e esforço. Na Geo- metria, o compasso, que se deve segurar com dois dedos, dificilmente era domi- nado com as duas mãos.
Duas mãos que não chegavam para cartão, tesoura, cola, réguas e esquadros com que construíam as maquetas dos edifícios por eles concebidos. Davam o melhor, em imaginaçãoetécnica para conceberem magníficas pranchas de banda Desenhada. Mergulhavam com cora- gem na abstracção do estudo da Gramática Visual, desbravando a árdua linguagem dos pontos, das linhas, das superfícies, volumes, cores, sombras e texturas. No Desenho de Observação cedi à sugestão deles de trazerem os animais de companhia para a aula, para servirem de modelos – imagine- -se uma sala de aula cheia de cães, gatos, catatuas, periquitos, e até um camaleão e uma iguana!
Perante tais proezas, não podia recusar quando me pediam de vez em quando uma aula ao gosto deles: uma aula de “tema livre”, segundo a designação que criaram. Nessas aulas desenhavam e pintavam o que bem entendiam. Descomprimiam e divertiam-se. Mas havia um menino que nem nessas alturas mostrava alegria. Nunca sorria. O seu “tema livre” era sempre o mesmo: um cemitério, com uma caveira e duas tíbias cruzadas no muro.
Perguntei-lhe o porquê da insistência. Disse-me que era o cemitério da terra dele, “onde o pai estava”. Engasguei- -me, entristeci-me com ele. Tentei dar-lhe o conforto de que fui capaz. Mas sobretudo entristeci-me. E fiquei amuado com Deus, que leva os pais de alguns meninos sem lhes dar explicações. Pensei em falar-lhe do Céu, segundo a sua religião. Mas algo me disse que as ilustra- ções do Céu nos catecismos não o con- venceriam.
Além de que juntamente com as ilustrações do Céu, vêm também as do Purgatório e as do Inferno. Para não falar do Juízo Final, com as pessoas a erguerem-se dos túmulos. Imagem igualmente pouco verosímil e sobretudo difícil de relacionar com as anteriores. Continuei amuado com Deus até conhe- cer a doutrina espírita, e ficar a saber que nenhum sofrimento é sem razão nem proveito. Como diz uma amiga minha, Deus, quando fecha uma porta, abre uma janela.
Continuo a ser professor. Continuo a ter alunos a quem sucedeu o mesmo que ao Tiago. Quando ganham confiança em mim, costumam falar espontaneamente do assunto, quem sabe buscando algum conforto. Tenham a religião que tiverem, ou não tenham nenhuma, pergunto-lhes se posso dar a minha opinião. Com a sua permissão, digo-lhes que acredito em Deus, acredito que Deus é bom, e que se um pai parte, é porque Deus sabe o que é melhor para cada um de nós.
Que possivelmente a missão do pai estava terminada aqui na Terra e foi desempenhar uma outra. Mas não morreu. Apenas deixou o corpo físico. Continua vivo, continua ao nosso lado, e um dia chegará a oportunidade do reen- contro. Os mais pequenos complicam menos que os adultos, e por vezes entendem melhor que estes. Quero crer que os sorrisos que estas palavras produzem são de alívio e esperança. Que são uma janelinha que Deus abre quando uma porta se fechou tão dolorosamente.
Texto: Roberto António Tribunais: psicografia volta a marcar pontos Duas cartas psicografadas foram usadas como argumento de defesa no julgamento em que Lara Marques Barcelos, 63, foi considerada inocente, por 5 votos contra 2, da acusação de mandante de homicídio. Os textos são atribuídos à vítima do crime, ocorrido em Viamão, região metropolitana de Porto Alegre, Brasil. O advogado Lúcio de Constantino leu os documentos no tribunal, em 26 de Maio, para absolver a cliente da acusação de ordenar o assassinato do tabelião Ercy da Silva Cardoso.
Polémica no meio jurídico, já tinham sido aceites em julgamentos cartas psicografa- das, ajudando a absolver réus por homicí- dio. “O que mais me pesa no coração é ver a Lara acusada desse jeito, por mentes ardilosas como as dos meus algozes (...) Um abraço fraterno do Ercy”, leu o advogado, ouvido atentamente pelos sete jurados. A carta mediúnica seria apenas um elemento de Constantino em defesa da absolvição da sua cliente, acusada de homicídio, não fosse um detalhe: o Ercy que assina o documento é a própria vítima, morta em 2003.
O tabelião, 71 anos na época, morreu com dois tiros na cabeça em casa, em Julho de 2003. A acusação recaiu sobre Lara Barcelos porque o caseiro do tabelião, Leandro Ro- cha Almeida, 29, disse ter sido contratado por ela para dar um susto no patrão, que, segundo ele, mantinha um relacionamento afectivo com a ré. Em Julho, Almeida foi condenado a 15 anos e seis meses de re- clusão, apesar de ter voltado atrás em rela- ção ao depoimento e negado a execução do crime e a encomenda.
Não consta das cartas, psicografadas pelo médium Jorge José Santa Maria, da Socie- dade Beneficente Espírita Amor e Luz, a suposta real autoria do assassinato. O marido da ré, Alcides Chaves Barcelos, era amigo da vítima. A ele foi endereçada uma das cartas. A outra foi para a própria ré. Foi o marido quem buscou ajuda na sessão espírita. O advogado, que disse ter estudado a tese espírita para a defesa (ele não professa espiritismo), define as cartas como “ponto de desequilíbrio do julgamento”, atribuindo a elas valor fundamental para a absolvição.
Os jurados não fundamentam os seus votos, o que dificulta uma avaliação sobre a influência dos textos na absolvição. Os documentos foram aceites porque foram apresentados em tempo legal e a acusação não pediu a impugnação deles. Adaptado do original por Luís de Al- meida, do site: www.folha.uol.com.
