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Jornal de Espiritismo nº 18 · Setembro 2006Página 94 min

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Crónica PUBLICIDADE PUBLICIDADE Rivail, Kardec e os espíritas O professor Rivail nasceu há duzentos anos. O seu nome completo: Hippolyte Leon Denizard Rivail, mas era chamado simplesmente de professor Rivail. Trabalhou incansavelmente pela educação da infância e da juventude da França, seu país. Escreveu obras sobre educação e fez propostas públicas sobre métodos de educação. Aos 50 anos de idade a convite de um amigo, inicia um estudo novo em sua vida: investiga fenómenos envolvendo a mani- festação de Espíritos, através de veículos humanos, a que deu, posteriormente, o nome de médiuns.

Constatada cientificamente a evidência de tais fenómenos, por métodos de observa- ção, experimentação e controlo, apresenta o resultado dessas actividades, publicando, em 1857, a obra intitulada O Livro dos Espíritos, seguido de mais quatro livros de imenso valor filosófico, científico e de consequência moral. A partir de 1857, o professor Rivail, adopta o pseudónimo de Allan Kardec. Inicia, então, um grande movimento cultural de libertação espiritual, pelo conhecimento da realidade do Espírito.

O movimento cresce rapidamente eonúmero de simpatizantes e participantes, em todo o planeta, é incalculável. Somente no Brasil, na actualidade existem mais de 12 mil instituições espíritas, sendo estimado (não pelo censo oficial) o número de 35 milhões de simpatizantes e adeptos. Dissemos que Kardec utilizou o método científico para realizar o seu trabalho, o que equivale dizer, agiu sempre com o crivo da razão e da lógica.

A razãoealógica foram instrumentos para a experimentação, observação e conclusão desse trabalho. O objectivo das investiga- ções de Kardec: os espíritos, seres inteligen- tes e independentes, que se comunicam em reuniões especialmente organizadas para essa finalidade. Os espíritos, ao se comunicarem, teste- munharam, através da mediunidade, três realidades: imortalidade, reencarnação e comunicabilidade com os “vivos”.

Kardec manteve sempre o senso crítico para dialogar com os Espíritos. Em mo- mento algum, a emoção substituiu a razão. Perguntou, ouviu, questionou, analisou, constatou e dissertou a respeito dos temas propostos. Allan Kardec adoptou o pensamento e a postura dos filósofos que trabalharam com a razão, como Sócrates (com sua Maiêutica); Platão (com a Dialéctica); Aristóteles (com o senso científico); Rosseau (filosofia da Edu- cação); Pestalozzi (teoria na prática educa- cional) e Descartes (raciocínio metódico).

Seguindo a linha do Racionalismo, Kardec colocou o espiritismo no caminho das ciên- cias, inaugurando uma adaptação dos mé- todos de investigações científicas comuns à análise das comunicações dos Espíritos com os homens: a) a experimentação séria, rigorosamente isenta de qualquer ânimo, inclusive, ideias preconcebidas; b) a obser- vação meticulosa, com controlo, anotações e registros; c) novas experimentações a partir dos resultados obtidos; d) formulação de hipóteses; e) novas experimentações e observações; f ) conclusão e enunciado dos resultados.

Após o desencarne de Kardec, em 1869, as actividades espíritas da França e dos demais países, sofreram com o impacto da ausên- cia de seu ponto humano de referência. Os Espíritos continuaram, apesar da partida do mestre, a realizar o trabalho de comuni- cação, em grande escala, em diversas partes da Terra. Devido aos conflitos e guerras da Europa, as actividades espíritas floresceram nas Américas, principalmente no Brasil, sob a influência do catolicismo.

Facilitada pelo fértil aculturamento re- ligioso, a actividade espírita recebeu o fenómeno do sincretismo com as práti- cas da umbanda da África e com as do catolicismo, de onde nasceu o continuum mediúnico afastado do estudo e da ciência de observação. Mesclada pelo misticismo religioso da Igreja e das práticas do mediunismo primitivo das tribos dos Bantus, no Brasil, a doutrina se desenvolveu muito mais no campo das emoções evangélicas, do que propriamente pelo estudo sistemático e pela pesquisa de carácter científico.

Desde os tempos da corte imperial no Rio de Janeiro, a partir de 1870, os católicos descendentes ou originários de Portugal, ao assimilarem os ensinos do espiritismo, toldaram-no com as tintas do misticismo religioso, criando, na prática, um sentido evangélico nas práticas espíritas. E foi formado no Brasil, o evangelismo es- pírita, totalmente contrário ao movimento iniciado por Allan Kardec. Três são as vertentes das actividades espíri- tas no Brasil, e que começam a ser exporta- das para outros países: do racionalismo; do misticismo e do evangelismo.

A primeira vertente o racionalismo segue as linhas claras e seguras do codificador, a segunda vertente (misticismo) segue as correntes do pensamento esotérico, conduzidas mais pela emoção do que pela razão, no simbolismo das ideias teóricas e práticas: a terceira vertente (evangelismo) segue as influências das correntes evangéli- cas, promovendo a ideia de “um só rebanho para um só pastor”, voltando-se não para o Jesus histórico, mas para o Jesus lendário do catolicismo.

Os espíritas conscientes e convictos procuram, entretanto, fazer com que o movimento espírita retome as origens do pensamento social de Kardec. A única maneira de fazer frente ao movi- mento dos espíritas místicos e ou evangéli- cos é despertar a consciência de todos para a importância do trabalho de Allan Kardec. A razão deve estar à frente do movimento espírita, pois a emoção desperta a paixãoea paixão cega à razão, como dizia o codifi- cador.

Nota: Milton Felipeli participa da ADE-SP (Associação de Divulgadores do Espiritismo de São Paulo), membro da equipa dos programas “Ação 2000 e Diálogos Espíritas”, pela Rede Boa Nova de Rádio (São Paulo). É autor das obras “Análise Espírita” (Vital Editora) e “As Forças Positivas do Homem” (Solidum Editora). Texto: Milton Felipeli miltonfelipeli@ig.com.