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Saúde Apresentamos, neste espaço, estudos psiquiátricos e de saúde men

Jornal de Espiritismo nº 19 · Novembro 2006Página 47 min

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Saúde Apresentamos, neste espaço, estudos psiquiátricos e de saúde mental à luz do Espiritismo. Agora, faça sua(s) pergunta(s) Chaves: entender quem tem crise de pânico No dia 24 de Janeiro/2006 recebemos o seguinte mail de uma leitora do JORNAL DE ESPIRITISMO: “Senhor Doutor Iso Jorge Teixeira, gos- tava de saber a sua opinião a respeito de um amigo, estudante universitário, que de um momento para o outro começou a sentir uma onda de medo, sem qualquer motivo.

O coração disparou, teve dores no peito, dificuldade para respirar, suores frios, tremuras, etc. Disse-me que pensou que iria morrer. Desde aquele dia as crises de pânico sucedem-se, sem qualquer explicação. Agora tem medo de sair de casa, esconde-se de tudo e de todos. Evidente que anda em tratamento psiquiátrico. Qual a explicação da doutrina espírita e o que ela oferece para minimizar este sofrimento, que segundo dizem é bem penoso?

As estatísticas dizem ainda que a Síndroma de Pânico acontece na sua maioria na juventude (21 a 40 anos) e cada vez é mais frequente em nossa sociedade. Porquê?” A descriçãoea forma de início da Doença do Pânico, informadas pela Leitora, pare- cem bem típica do Transtorno. As crises de pânico surgem sem razão aparente, plausível, para o medo exagerado apresen- tado pelo paciente. Este aspecto de início da doença – sem razão aparente – é consi- derado importante para o seu diagnóstico; além, é claro, de todo o cortejo de sintomas psíquicos e neurovegetativos críticos: taqui- cardia, sensação de sufocação, sudorese fria em extremidades, tremores, cefaleia (dores de cabeça), sensação de morte iminente, e outros.

A partir de então, as crises passam a se repetir, periodicamente, daí porque a Doença do Pânico também é chamada ansiedade paroxística episódica. As crises de pânico podem ser acompa- nhadas, ou não, de agorafobia, isto é, medo de espaços abertos ou aspectos relacio- nados, como a presença de multidões e dificuldade de escape fácil para um lugar seguro. No caso do amigo da D. Maria de Lurdes Pereira, ele tem “medo de sair de casa”, o que também é típico dos casos de crise de pânico.

Como se costuma dizer: o paciente “tem medo de ter medo”, ou seja, entra em ansiedade aguda por medo de sofrer uma crise de ansiedade na rua, sem amparo de ninguém. Aliás, é frequente o paciente sujeito a crises de pânico só sair acompanhado, mesmo em companhia de pessoas que não lhe dariam qualquer segurança, como foi o caso, por exemplo, de uma paciente nossa, que ia às consultas sempre acompanhada de um filho de 3 anos, quando seria o caso de deixá-lo em casa aos cuidados da avó...

Explicações psicológicas e orgânicas No final do séc. XIX e início do séc. XX, a Doença do Pânico foi estudada com uma outra denominação por SIGMUND FREUD, o criador da Psicanálise – a chamada neurose de angústia. FREUD acreditou, inicialmente, que a causa da neurose de angústia estaria ligada, inconscientemente, a insatisfações sexuais actuais: coitus interruptus, ejaculação pre- coce (gerando angústia na mulher), angús- tia ligada à virgindade, etc.

Posteriormente, ele mudou de opinião e propôs a teoria de que a pessoa com angústia estaria fixada, inconscientemente, à infância, aos 3 anos aproximadamente, época em que ocorreria em todos nós o Complexo de Édipo, com a ultrapassagem do complexo de castração... A base dessas elucubrações teóricas freu- dianas foi o estudo das informações trazidas pelo pai do menino HANS, que apresentava uma zoofobia, uma fobia a cavalos; enfim, um quadro fóbico-ansioso.

Para FREUD, o temor inconsciente de ser castrado pelo pai, pelo desejo erótico in- consciente pela mãe, teria levado o menino HANS ao sintoma – medo de cavalo... Tal sintoma representaria o medo de que o cavalo mordesse o seu pénis, isto é, sim- bolicamente, o cavalo representaria a figura paterna, castradora. Essa visão de FREUD, por demais artificiosa, não será discutida aqui, devido à sua extensão e certa com- plexidade, mas gostaríamos de ressaltar, mais uma vez nesta coluna, que a visão freudiana é bem interessante, mas, a sua concepção de líbido, instância sexualizante que a tudo governa e permeia, acaba por nos conduzir ao materialismo, aliás, FREUD não fazia segredo de que era ateu, assim como seu discípulo, ainda que dissidente, CARL GUSTAV JUNG, tão admirado por alguns, equivocadamente...

Ultimamente, com o materialismo rei- nante, os factores orgânicos vêm sendo destacados, explicitamente, nos trabalhos científicos mundiais sobre a Doença do Pânico... Haveria disfunções nos receptores cerebrais de noradrenalina, de ácido gama- -amino-butírico (GABA) e de serotonina, nas terminações nervosas dos neurónios. Assim, o Sistema Nervoso Central (SNC) seria o primariamente comprometido e o Sistema Nervoso Autónomo (SNA), secundari- amente.

Visão espiritual das Crises de Pânico Acreditamos em que o Princípio Espiritual sempre estará envolvido nas doenças, mesmo doenças essencialmente orgânicas, embora não aceitemos que o Espírito seja passível de adoecimento, até porque se o Espírito adoecesse, ele morreria e sabemos que o Espírito é imortal. Obviamente, o equilíbrio vital pode ser rompido por induções de espíritos malé- ficos (obsessões) ou como prova e expia- ção para o Espírito reencarnante e para a família.

No nosso modo de entender, a Doença do Pânico é dada ao Homem numa relação semelhante da chave com a fechadura, isto é, admitimos que a Providência Divina permite a adaptação, exacta, entre a chave e a fechadura, ou seja, há doenças que são o cadinho de sofrimento (chave), exacto, de que alguns de nós (fechaduras) necessita- mos para o aprimoramento espiritual. Também é importante que o médico, psiquiatra, conheça bem o passado de uma pessoa, mas o passado reencarnatório não é possível conhecer na maioria dos casos, até porque a Providência Divina nos dá a amnésia do passado reencarnatório para nossa maior liberdade, como disse a Espiri- tualidade Maior respondendo à questão 392 de “O Livro dos Espíritos” (OLE): “Par l’oubli du passé il est plus lui même” [Pelo esquecimento do passado, ele (o Homem) é mais ele-mesmo].

Doença da moda? Quanto às estatísticas referidas pela D. Maria de Lurdes Pereira, ao indicarem que a Síndroma do Pânico aconteça em sua maio- ria na juventude (21 a 40 anos), ou melhor, na idade adulta, não há uma explicação inquestionável, mas, sendo um quadro neurótico, são necessárias uma predis- posição e uma “preparação”, com distorções vivenciais durante a infância e parte da adolescência, que só eclodiriam na idade adulta; não obstante, há casos relatados na literatura psiquiátrica, com início na infân- cia, como foi o do menino HANS, embora não conheçamos, com rigor, a evolução do caso HANS...

Além disso, como as crises surgem “de um momento para outro”, sem desencadeante psicológico, parece sugerir a sua origem orgânica predominante, mas, ainda aqui, as explicações não são comple- tas. Entretanto, não nos parece que esteja havendo um aumento do número de casos na actual sociedade. O que há, hoje, é um maior conhecimento dos mecanismos da doença (não todos) e um certo modismo, inclusive entre alguns psiquiatras...

Sim, a Síndroma do Pânico é vista por alguns como “doença da moda” e por trás disto, certamente, está a poderosa indústria farmacêutica internacional. O paciente com Doença do Pânico precisa de medicamen- tos, sim, mas só isto não basta. Chaves para ajudar As pessoas com Doença do Pânico devem ser tratadas farmacologicamente por um psiquiatra e não por um psicólogo, porque esses pacientes necessitam de medica- çãoeo psicólogo não pode prescrevê-la, segundo a nossa legislação vigente.

No caso informado pela Leitora, isto já estaria sendo feito provavelmente, pois ele “anda em tratamento psiquiátrico”. Do ponto de vista estritamente espírita, são úteis os passes (“fluidoterapia”) em Centros Espíritas sérios, com médiuns que gozem de boa saúde física e mental. Devemos aceitar todos os credos, não devemos tentar fazer prosélitos para o Espiritismo, não obstante, não devemos deixar passar a oportunidade de mostrar ao paciente a realidade da vida depois da morte e a necessidade da transformação íntima para melhor, através da prática do bem – razão maior de estarmos encarnados na Terra.

Outro aspecto a destacar-se é o valor da prece, que dever ser realizada de maneira natural, sem rituais, segundo os critérios tão bem assinalados por ALLAN KARDEC na parte final do livro “O Evangelho segundo o Espiritismo”... Não é fácil o tratamento ideal, mas os modernos conhecimentos da Doença do Pânico permitem uma re- missão completa das crises ou uma grande melhora, com boa qualidade de vida dos pacientes. Disse ALLAN KARDEC no item XV da “In- trodução” de OLE, no § 4.

º, em meio ao 4.º parágrafo: “Ora, o verdadeiro espírita olha as coisas deste mundo de um ponto de vista tão elevado; elas lhes parecem tão pequenas, tão mesquinhas, em face do futuro, que o aguarda; a vida é para ele tão curta, tão fugitiva, que as tribulações não lhe parecem mais do que incidentes desagradáveis de uma viagem. Aquilo que para qualquer outro produziria violenta emoção, pouco o afecta, pois sabe que as amarguras da vida são provas para o seu adiantamento, desde que as sofra sem murmurar, porque será recompensado de acordo com a coragem ao suportá-las”.

Eis a mensagem que deixamos para o ami- go da leitora MARIA DE LURDES PEREIRA, assim como para todos aqueles que sofrem crises de pânico.