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Jornal de Espiritismo nº 20 · Janeiro 2007Página 155 min

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Opinião Suicídio? Não, obrigado… PUBLICIDADE Quando alguns pensam que tudo iria acabar, tudo se complica. As informações são muitas, e seguras, só vai errar quem não quiser saber. Afinal, podemos até nem querer acreditar, mas depois da tempestade vem a bonança: vale a pena esperar por ela. Falava dois amigos da insignificância das nossas atitudes no serviço espírita. Ape- sar da dedicação semanal nas tarefas do centro, aquelas obras grandes de caridade, como a criação de instituições de apoio às crianças ou a velhinhos desvalidos, estavam a passar ao lado apesar de uma vintena de anos de abnegação.

Mas, dizia um, não temos uma ideia clara do apoio que se presta nessas pequenas tarefas de fraternidade sincera, seja a quem vive as experiências na Terra como espírito encarnado seja a desencarnados. E saca da memória um quadro decorrido na coordenação de um curso básico de espiritismo. O momento era de descontracção naquelas primeiras reuniões do curso. Convém ser as- sim, sobretudo para que o grupo de estudo se familiarize entre si.

A dada altura o monitor de serviço vira-se para uma das pessoas presentes e diz que- rendo sublinhar a necessidade de chamar os sentimentos felizes ao quotidiano: «Esta senhora está toda de preto, mas aquela gola amarela fica-lhe bem». A deixa estava lançada, num ambiente já de si próximo, que facilita interacção. E a pes- soa em causa faz ouvir o seu pensamento: «Olhe, não era para falar nisto, mas vou-lhe dizer. Se não fosse o que já aprendi aqui tudo se estava a encaminhar para que me suicidasse…».

Uma mãe que perdera um filho, julgava não ter mais razões para viver. Pouco a pouco foi percebendo que nesta vida terrena não se avista mais do que a ponta de um iceberg e que, por isso, o bojo oculto das razões dos efeitos que nos visitam no quotidiano mais não são do que o recorte lógico de um pas- sado que provoca respostas nas leis naturais e propõe que amadureçamos atitudes. Pseudo-fim Quem não conhece a doutrina espírita pen- sará que os adeptos do espiritismo serão propensos ao suicídio.

Porém, dá-se o con- trário. A vantagem de estudar esta doutrina surge de se poder aceder a inúmeros dados fornecedores de uma conclusão clara, em qualquer tempo: se temos de partir da vida terrena, a pior saída é sempre o suicídio. Não há outra mais penosa… Joana viu partir João, seu amor, sua luz, sua vida. Acreditava na vida espiritual mas não conhecia o espiritismo. Partiu por esse infeliz caminho e passou décadas no plano espiritual e mais uma vida sem ver João.

Arnaldo amava a mãe, que partiu de ve- lhice. Aniquilou o corpo a pensar reencon- trá-la, mas não a encontrou nem na pátria espiritual nem nas existências terrenas imediatas. Carlos perdeu a cabeça com o desemprego prolongado e as dívidas aos bancos, quis matar-se mas afinal transporta ainda dentro de si as aflições que tinha mais as dores que criou. De tempestade em copo de água passou para tempestade em pleno oceano.

Os espíritos descrevem casos nos quais, além de outros problemas, o suicídio imprime «feridas» no corpo espiritual, que só serão expurgadas através de doenças di- versas que acabam por repercutir no corpo físico numa nova vida terrena. Mecânica reencarnatória Que fazemos aqui? Através da mediunidade, ao longo do tem- po os espíritos sábios insistem em ensinar que o volume de experiências de vida que encontramos nesta passagem pela Terra, no corpo físico, existe para que consiga- mos sublimar-nos na evolução.

Aprender a ser mais felizes. Não como os miúdos que adoram bolos cujo céu será lambuzar-se à exaustão numa boa confeitaria, mas com maturidade, trabalho e alegria. Conhecimento e amor são as grandes asas que estamos a conquistar asas para cruzar as lindas atmosferas da sabedoria maior. Provas e expiações são avisos da natureza que criamos com as nossas opções de vida do presente e do passado, mas conseguire- mos a médio prazo sempre desenhar um futuro melhor.

Quando voltamos a nascer, sob a bên- ção do amor dos pais que nos acolhem, trazemos projectos de evolução. O corpo físico passa a ser moldado pelo influxo mental que gizamos na dinâmica do corpo espiritual. Há liames que interligam ambos os corpos — perispírito e corpo físico — e que estão programados para funcionarem por um tempo predeterminado. A intenção de romper esses laços, pelo suicídio, tal como o conhecemos ou através de sérios maus tratos ao corpo físico que acelerem a partida para o plano espiritual, é um problema com que o suicida não conta.

Mas estão lá. É assim: quando tocamos num objecto frio, por exemplo, a percepção do tacto passa pela estrutura no nosso sistema nervoso corporal, chegando ao cérebro. Para a ciên- cia subjugada pelo paradigma meramente materialista tudo acaba aí. Temos a percep- ção. Na óptica espírita, a chegada desses sinais ao cérebro não é suficiente para que ocorra a consciência da percepção, sendo sim necessário que ela passe do cérebro do corpo físico à estrutura sensível do corpo espiritual (perispírito) e depois ainda ao espírito — e só aqui há lugar à percepção, à sensação do frio e da textura do objecto tocado.

No suicídio, a dor subsequente prolonga- -se enquanto não se dissipam os laços que passam essas sensações do corpo físico passando pelo corpo espiritual e atingindo o espírito. Se eles, no caso, estão programa- dos para 70 anos, interrompê-los aos 40 pode dar décadas de sarilhos intransfe- ríveis… Que fazer? Nada foge ao imenso amor de Deus. Mas é possível alguém fechar-se ao mesmo, criando mal-estar dentro de si. Ajudar por fora é possível, mas não chega: o bem-estar a que se deseja trazer quem sofre, no plano espiritual, passa por sentir alguma abertura, pois não há pior doente que aquele que se recusa a tomar remédio.

Os desencarnados são sensíveis aos pensamentos dos que os amam. Por isso, todo o pensamento bom em torno deles lhes serve de estímulo a enfrentar erros e a desenhar com ânimo soluções para uma vida melhor. Continuando a vida no plano espiritual, a mudança daqui para lá não transforma nin- guém por dentro, já que o processo é mera- mente de continuidade, competindo a to- dos enfrentar-se cada um a si próprio para a imensa caminhada de aperfeiçoamento que a vida atira para diante.

Com renovados horizontes, vida após vida, aprendendo sempre, inclusive no espaço entre vidas, na erraticidade, no plano espiri- tual, o sol do porvir convida a que mante- nhamos a preocupação tranquila e sincera de melhorar as atitudes e de pensar bem no tecido dos actos do dia-a-dia para que as cores da esperança e da alegria tenham o traço da caridade, tal como a entendia Jesus. Texto: Jorge Gomes jorge.je@clix.