20 — índice de conteúdos

Crónica Quando o mundo parou De todas as pessoas que me acompanharam a

Jornal de Espiritismo nº 20 · Janeiro 2007Página 143 min

Partilhar
Idioma

Crónica Quando o mundo parou De todas as pessoas que me acompanharam ao longo da vida, a figura do meu pai é, sem dúvida, aquela que mais me marcou. Foi ele que me ensinou a ler, me levou à catequese, me acompanhou no meu primeiro dia de liceu, pequenita, de tranças cor de sol caídas nas costas, na ponta das quais esvoaçavam dois laçarotes de fita branca… Foi ele ainda que me levou à minha primeira escola, num dia claro mas meio frio de Outubro, por veredas, porque estrada não havia, e onde as estevas, vestidas de branco, nos roça- vam nas pernas.

Finalmente, foi ele que me acompa- nhou mais de perto, no dia em que entregámos ao túmulo o corpo do meu filho. Houve tempo em que nos distan- ciámos um pouco, porque vivíamos longe um do outro, porque éramos muitos irmãos… porque eu me isolei no meu casulo familiar. Perderam-se aqui muitas vivências, até que um dia… o meu pai dá comigo a defender o Espiritismo num programa de tele- visão. O mundo parou! E ele calou-se.

A minha mãe disse que o pai comen- tara que, se calhar (com a minha mania dos extremos), eu ia dar tudo quanto tinha e não tinha…aos espíritos. Bem pensado! Provavelmente era o que ele sabia, do que ouvia dizer de outras religiões… não sei. Ponderei o assunto – não valia a pena reagir, era preciso agir. Ele é de ideias fixas, um lutador, há muito que não vai à missa, porque…não o dei- xam falar. Depois de correr uma via-sacra de experiências religiosas acabou por desistir logo após um curso que fez e em que, pelos vistos, todos os outros viram fosse o que fosse, menos ele.

Resolveu dedicar-se à vida do dia-a-dia e ponto final no assunto, mas… a dúvida ficou. Por mim, e porque já disse que tinha de agir, passei a interessar-me com ele às uvas e às azeitonas, passando pelas ovelhas e pelo feno, sem esquecer as enxurradas e a seca das ribeiras, fazendo coisas que nunca fiz na vida, na tentativa de lhe fazer perceber que este mundo me interessa e luto por ele. Mas isto era de dia, porque de noite existem os serões… Uma noite em que ele comentava os preços das cerimónias religiosas, ataquei a matar: - Sabe pai, é isso que o Espiritismo defende, está no Evangelho – «Dai de graça o que de graça recebestes», e fomos conversando… No Dia do Pai ele teve «O Livro dos Espíri- tos».

Chegou o Inverno, a apanha da azeitona, os longos serões à lareira, e eu sempre in- jectando doutrina espírita. Até houve um dia (imaginem) em que o consegui con- vencer que a «ti Maria Duarte», médium já falecida lá da terra, e que ele considerara sempre meio destrambelhada, quando dizia que via os espíritos… os via mesmo. A alegria brilhava nos olhos dele, era como se um novo mundo se abrisse. Falei-lhe no nosso jornal; fui a casa e trouxe um que lá tinha.

Foi incrível. Gos- tou particularmente das histórias simples mas com moral a tirar. Quando já me ia embora, porque a hora era tardia, vi-o deitar o olho ao jornal que eu pegara e perguntei-lhe se o queria. Disse que sim. Maravilha! Passei a levar-lho sempre; recebia-o todo contente. Agora já não o aceita, não vê, prefere que eu lho leia. Mas o mais importante vai aqui: depois de muitos serões de troca de ideias, sempre tentando eu fazer-lhe perceber que cris- tianismo e catolicismo são coisas diferen- tes (para ele, este é o cerne da questão), ouvi-lhe este desabafo: - «Quer dizer, andei toda a vida enga- nado, para, só agora, me virem dizer estas coisas.

» Que gelo!!! - «Deixe lá pai, vossemecê sempre fez o que considerava certo.» Resposta dele: - «Pois é, mas não foste tu (em criança) que andaste por aí, muitas vezes até às quatro da tarde, em jejum e descalço à espera para te confessares.» Por questões de espaço, e antes que o editor do jornal me condene a duras provas (…), vou terminar aqui. Claro que houve e ainda hão-de acontecer outros serões. Mas naquela noite fui para casa.

Era uma noite fria; as pedras da calçada da rua deserta estavam gélidas, porém, na minha frente caminhava, quem sabe fruto da minha imaginação, um menino sofrido, descalço, órfão de pai aos quatro anos, faminto, à espera que chegasse o «todo-poderoso» a quem havia de confessar os seus pecados de criança. Triste esta história, mas confesso que é o puro da verdade, foi assim que se passou!