Biografia O mistério da criação mozartiana No passado ano de 2006, por
Jornal de Espiritismo nº 20 · Janeiro 2007Página 135 min
todo o mundo se comemorou o 250.º aniversário do nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart, figura que mudou para sempre o rumo da História da Música. www.adeportugal.org curso básico de espiritismo on-line em Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal Neste artigo, cuja primeira parte vem à luz este mês de Janeiro em singela evo- cação da data — 27 de Janeiro de 1756 — em que nasceu, pretendemos, de forma despretensiosa, partilhar algumas reflexões sobre a questão da genialidade e a relação génio/ Deus em Mozart, sob o enfoque espírita e tendo por pressuposto a doutrina da reencarnação.
Os elementos biográficos que permitem configurar, no caso vertente, um exemplo clássico de genialidade são um património mais ou menos partilhado por todos. Dados biográficos Certamente já muitos ouviram falar daquela criança que, com apenas 5 anos de idade, começava a compor para cravo ou que, aos 7, compunha sonatas para violino e cravo e que se estreou na sinfonia contando somente 8 anos. Sobejamente conhecida é igualmente a sua capacidade de assimi- lação, de rápida posse e de original síntese das mais variadas tradições, técnicas e códigos musicais da época, capacidade rara que haveria de emergir com maior clareza nas chamadas obras de maturidade, que neste prodígio se pode situar por volta dos 18 anos.
No entanto, muito mais do que ‘precoce’, Mozart foi um dos poucos prodí- gios musicais cujo génio se desenvolveu com a maturidade. ‘De génio’ é também a Sinfonia Concertante para Violino, Viola e Orquestra K. 364, com- posição reveladora de que, para Mozart, mover-se por dentro dos géneros tradicio- nais não exigia revolucioná-los. Dotado do segredo da simplicidade, Mozart lograva uma série de novas potencialidades até então inauditas e insuspeitadas.
Quiçá al- gumas das maiores inovações mozartianas se situem num campo em que Haydn, um outro gigante da Música que tanto influen- ciou Mozart, não teve qualquer contributo: o concerto para piano. Mozart escreveu 21 concertos para piano e orquestra que lhe permitiram experimentar uma nova con- cepção dos papéis tanto do piano, como da orquestra, atingindo um ponto cimeiro e inigualável na história do género. Um outro campo que sofreu profundos contributos do génio austríaco foi a ópera que, sob o seu impulso, conheceu um fôlego revitalizador.
Nos últimos anos da sua vida, lutando contra uma saúde muito debilitada, Mozart, transformando o elenco original de um conto popular alemão, cria, em 1791, A Flauta Mágica, obra-prima que simboliza a vitória dos Guerreiros da Luz sobre o mundo caótico e obscuro. Começa a escrever o celebérrimo Requiem (K. 626), mas a doença não lhe permite terminar a obra. Morre a 5 de Dezembro de 1791, em Viena, contando somente 35 anos de idade.
Mestre sem par, legou à Humanidade mais de 600 composições, muitas das quais eternas obras-primas. O génio Depois desta breve e ingrata – pois que nesta figura nenhuma composição merece- ria ser esquecida – resenha biográfica, debrucemo-nos, então, sobre o fenómeno da genialidade. Sendo todos os homens iguais perante Deus, por que é que há uns que, pela sua excepcionalidade, se elevam a um plano de eleição? Responde o Espírito Superior: «Deus criou iguais todos os Espíri- tos, mas cada um destes vive há mais ou menos tempo, e, conseguintemente, tem feito maior ou menor soma de aquisições.
A diferença entre eles está na diversidade dos graus da experiência alcançada e da vontade com que obram, vontade que é o livre-arbítrio. Daí o se aperfeiçoarem uns mais rapidamente do que outros, o que lhes dá aptidões diversas.» Reflictamos, agora, sobre estas palavras: «As diferenças, manifestadas pelos diferentes graus evoluti- vos, são o resultado do tempo e do esforço. Assim, o selvagem é um espírito jovem, enquanto o ‘super-homem’ é um espírito velho, que, evidentemente, passou pela fase do selvagem.
[...] A aprendizagem de cada vida serve-lhe, como atrás dissemos, para as seguintes. E, uma após outra, en- grandece-se de tal forma que acaba por se manifestar em novas e superiores personali- dades a que chamamos génios. [...] Espíritos adiantados encarnam entre nós, em missão de progresso das artes e das ciências, do pensamento e da moral, para nos servir de exemplo e ajudar no plano evolutivo das esferas siderais.
» Mozart está, pois, no número dos espíritos adiantados que encarnaram para progresso artístico-estético da Humanidade pois é o Espírito a sua força motriz. Recordarão que, ao percorrermos a vida do prodígio, enfatizámos a sua espantosa capacidade de assimilação. É que o génio já traz consigo esses conhecimentos que foi adquirindo em anteriores existências corporais, pelo que tudo se resume a sublimar esse po- tencial em actualização na nova existência corporal.
A quem já traz cosmicamente assimiladas certas Leis do Universo, de nada servem os esquemas gastos e improfícuos de um mero e imperfeito planeta como a Terra. O mistério da genialidade de Mozart foi, ao encarnar, recordar-se da perfeição que deixara no seio do Pai, foi recordar-se de Deus. Perguntarão: «Por que não lhe foi permitido viver mais do que trinta e cinco anos? Cer- tamente porque o sentido da sua missão teria chegado ao termo.
Antes de encarnar, cada Espírito planeia a missão a realizar e, nomeadamente, quais as provas que deverá encontrar e superar na existência corporal seguinte. Voltemos a O Livro dos Espíritos. À questão 258 «Quando [...] tem o Espírito consciência e previsão do que lhe sucederá no curso da vida terrena?», responde o Espírito Superior: «Ele próprio escolhe o gênero de provas por que há de passar e nisso consiste o seu livre-arbítrio.
» Nada que ocorra está fora da vontade divina. Mas Deus dotou os homens de capacidade de escolha, pelo que aquilo que lhes aconteça se deve, quase sempre, à responsabilidade do próprio ser humano. Deus não é castigador, nem tão-pouco vingativo. São os homens que, de acordo com a Lei de Causa-Efeito, reclamam que certas provações recaiam sobre eles. Talvez já tivesse realizado tudo aquilo que, nas es- tâncias celestiais, se propusera concretizar...
Ou talvez estivesse vedado ao seu Espírito progredir mais naquela existência... (Continua no próximo número) Texto: Helena Queirós helenaqueiros@bragatel.
