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Jornal de Espiritismo nº 20 · Janeiro 2007Página 125 min

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Crónica Imortalidade: tema que exorta o grande escritor PUBLICIDADE Falar de António Lobo Antunes, formado em medicina e especializado em psiquiatria e, sobretudo, escritor discreto face ao estrondoso sucesso que granjeou em Portugal e no estrangeiro, é tarefa audaz. Entretanto, a profundidade das palavras com que “brinca” e a prolixidade das belas imagens e metáforas a que recorre fascinam, grandemente, apelando a merecidas ho- menagens à sua maturidade literária e a respostas a algumas interrogações.

Nascido em Lisboa, António Lobo Antunes é pai de três filhas e o mais velho de seis irmãos. O idealismo infantil atraía-o para funções numa qualquer livraria, profissão a que o progenitor se impôs, exigindo uma formação académica condizente com a sua. Aceitou a medicina, tendo conhecido “pessoas maravilhosas” no hospital Miguel Bombarda e exerceu parte da sua experiên- cia clínica em Angola durante a Guerra Colonial, ao longo de dois anos.

Escrevendo e dedicando-se à Psiquiatria, si- multaneamente, Lobo Antunes, que lê mui- to, “roubou horas ao sono durante alguns anos”, como afirma, mas foi sensivelmente a partir da década de 80 que este “monstro” da literatura portuguesa se entregou, quase exclusivamente, à sublimidade da escrita, somando, em média, um livro por ano. Os traumas profundos daquela guerra, o re- gresso dos colonizadores à pátria primitiva são os temas com que inicialmente ganhou espessura e eficácia narrativa, traçando quadros exaustivos e sociologicamente per- tinentes do Portugal do século XX.

Os seus livros estão traduzidos nos mais diversos idiomas, o que faz deste escritor um dos portugueses de maior projecção internacional: “A vida tem sido generosa para mim com tantas traduções”, refere calmamente. Apesar disso, não proclama a sua pretensa genialidade. Pelo contrário, considera-se um escritor que trabalha muito – mais de dez horas por dia – pouco ligando ao mérito que, traduzido em inúmeros prémios nacionais e internacio- nais, o conjunto da sua obra tem merecido.

Mas o tempo foi passando e o homem que “viaja mais do que desejaria” e “gosta muito de ser português” foi trazendo cada vez mais para o palco dos seus enredos temas como a morte, a solidão, a vida, o amor ou a frustração de viver com o consequente dilema do não saber amar, para caracterizar a sociedade urbana da média burgue- sia, aquela que também caracterizou o seu próprio ambiente familiar. Também a ternura se posiciona cada vez mais nas temáticas que compõem o seu imaginário linguístico.

Sem reticências… A excelência da obra de António Lobo An- tunes merece os louros com que tem sido coroada, mas há uma qualidade a enfatizar, uma faceta que pressupõe maturidade humana e apurado arcaboiço ético-moral. É a sua humildade e honestidade. E, porque a dúvida é nele permanente e vive “num estado de espírito contraditório”, na crónica «Da morte e outras ninharias», publicada na revista Visão (05/02/2004), o escritor, que é canhoto de nascença, não se inibe de afirmar que nunca sentiu os livros como seus enquanto os escreve: “Talvez seja preferível não dizer que os escrevi: limitei- -me a traduzi-los eamão traduz melhor que eu”, assegura, vincando que cada vez menos os romances que se publicam com o seu nome têm seja o que for de delibe- radamente seu.

Segundo ele, “deveriam editar-se sem autor na capa”, pois desco- nhece quem é o verdadeiro autor: “Descon- fio que um anjo, porque se me meto neles, a qualidade da prosa é bastante inferior”, assevera. Mas, ainda mais comovente é a auten- ticidade com que evoca a dualidade de actuação das mãos. Ao começar a escrever, aos doze ou treze anos, até aos vinte e tal, “fazia-o sempre com a esquerda”, uma vez que, como acima se afirma é canhoto, e ficava imensamente insatisfeito com os resultados.

Em África, “um espírito qualquer segredou-me ao ouvido – experimenta a direita”, afiança o escritor. Lobo Antunes vai descrevendo que usou a direita, desenhan- do “as letras com dificuldade numa cali- grafia infantil”, mas que, para sua surpresa, o que lhe “saía da caneta era totalmente diferente”. Ao ousar falar neste assunto, este colosso da literatura trava ainda um paralelismo digno de realce: em cartas, formulários, re- ceitas e outros actos utiliza a mão esquerda, rápida e fluida.

Para os livros, temendo que “seja o que for que existe nela se gaste e acabe”, é a direita que alinha. Não satisfeito com estas confidências, na crónica «Um ter- rível, desesperado e feliz silêncio», publica- da na mesma revista (18/03/2004) e que se reporta ao romance iniciado em Junho de 2002, diz tê-lo escrito desencantado, com vontade constante de destruir o que ia fa- zendo, sem saber bem para onde se dirigia: “Limitando-me a seguir a minha mão, num estado próximo dos sonhos, e ao começar a revê-lo, surpreendido, pareceu-me compos- to”.

Desabafa ainda: “não composto, ditado por um anjo, por uma entidade misteriosa que me guiava a esferográfica”. Inquirido sobre o que “quis dizer com este romance”, replicou com a subtileza própria de quem desconhece a vaidade: “Não quis dizer nada porque me foi ditado”. E concluiu: “Isso terão de perguntá-lo a quem mo ditou”. Olhares cruzados De facto, vai sendo cada vez mais frequente a comunidade científica interrogar-se sobre o problema das relações humanas no plano das sintonias espirituais.

E as terras frontei- riças da Ciência e da Espiritualidade serem “visitadas” por investigadores experientes, de todas as camadas sociais. Ora, a cons- ciência da própria mortalidade pode ter levado Lobo Antunes a despertar, num revivescer do interesse pelos contornos da alma humana. Não é único, nem seráoúltimo. A lista de pesquisadores de fenóme- nos, ditos paranormais, vai-se avolumando. Todos partem de pequenas interrogações que, interiorizadas, conduzem a decisivo encorajamento de aprofundar investiga- ções.

Entre uma infinidade de nomes a enunciar, oriundos de diversos países e continentes, há médicos e outras personali- dades de diferentes áreas do conhecimen- to, portugueses, que dedicam a sua vida às causas “transcendentes” do viver sobre a Terra, cujos resultados transparecem através de testemunhos credíveis, conferências e livros publicados. Também à Ciência Espírita coube o inde- clinável dever de, através dos seus próprios métodos, penetrar os escaninhos das diversificadas redes temáticas da Ciência e da Tecnologia, ampliando os horizon- tes do pensamento humano no tocante às realidades do espírito.

Toda a obra, mas particularmente o capítulo IX (Livro Segundo) de «O Livro dos Espíritos», de Allan Kardec, é um manancial de princípios racionalmente testados sobre a interven- ção dos “habitantes do Além” no mundo corpóreo, substancialmente concludente que, interpretado por homens como Lobo Antunes, lhe ampliará o pensamento filosófico como corolário natural das suas convicções. Também os capítulos XV e XVI de «O Livro dos Médiuns», do mesmo autor francês, será plasma maleável no enten- dimento da comunhão mediúnica entre os Instrutores Celestes e a parte receptora da espessa estrutura psicológica do nosso romancista consagrado, que até já escreveu um «Tratado das Paixões da Alma».

Enquanto se aguarda o apaziguador despertar de avalizados conceitos espíri- tas, apenas diremos: «Ontem não te vi em Babilónia», Lobo Antunes.