Saúde Apresentamos, neste espaço, estudos psiquiátricos e de saúde men
Jornal de Espiritismo nº 20 · Janeiro 2007Página 45 min
Saúde Apresentamos, neste espaço, estudos psiquiátricos e de saúde mental à luz do Espiritismo. Espírito e regulação do corpo No dia 13 de Abril recebemos as seguintes indagações provenientes de Rosa Gonzalez, de Ponte Vedra, Espanha: “Caro Dr. Iso Jorge Teixeira, agradeço desde já a oportunidade que me dão para colocar perguntas que afectam directamente as mulheres e que gostaria que me respondesse à luz da doutrina espírita…Maria de Lurdes Pereira, Portimão PUBLICIDADE PUBLICIDADE Se é o espírito que comanda o corpo, sendo o responsável pelo estado emocio- nal, porque as hormonas influenciam tanto em nosso comportamento como o caso da tensão pré-mentrual (TPM)?
E na chamada depressão pós-parto? Dizem as estatísticas que as mulheres sofrem de depressão em maior número que os homens. O simples facto de um espírito estar encarnado numa veste feminina implica que esteja mais predisposta à depressão? Que explicação dá para estes três factos? “. Agradecemos as perguntas que elas demonstram o importante papel que o «Jornal de Espiritismo» começa a desem- penhar com a difusão do Espiritismo na Europa...
É a primeira vez que recebemos perguntas de leitor(a) espanhol(a)... Interdependência As três perguntas da leitora contêm gene- ralização que, a nosso ver, é injustificada e, talvez, por isso, as suas perguntas decorram de um sofisma, isto é, há um “part pris” não verdadeiro... Talvez, influenciada por ora- dores espíritas (provavelmente brasileiros) ou livros espíritas que distorcem a Doutrina dos Espíritos, diz ela que “o espírito coman- da o corpo” e que o Espírito seria “o respon- sável pelo estado emocional”...
A bem da verdade, há uma interdependên- cia entre o Espírito e o corpo, não obstante, há fenómenos no nosso corpo puramente materiais, isto é, são o resultado do fun- cionamento à base de automatismos orgânicos e herdados, que independem do princípio espiritual. Exemplos: o movimento automático dos braços ao caminharmos; a libertação de ácido clorídrico e de suco pancreático no fenómeno da digestão, ao iniciarmos uma refeição; a sudorese ante um dia de temperatura elevada; a diminu- ição dos batimentos cardíacos com a com- pressão dos globos oculares (a leitora pode fazer a experiência agora, mas não demore muito na compressão, senão o coração pode parar); a auto-regulação hormonal, enfim, pelas ligações neuro-endócrinas; as características anatómicas decorrentes do nosso património genético-constitucional, etc.
Na fisiologia do corpo humano há centenas e centenas de mecanismos funcionando de maneira auto-reguladora, que os norte- -americanos chamam mecanismo feed- -back. Hierarquia na vida emocional Assim, o nosso estado emocional pode ser determinado pelo nosso Espírito, sim, nas vivências eminentemente espirituais. A propósito, o célebre filósofo MAX SCHELER dividiu, didacticamente, a nossa vida emo- cional em camadas, na chamada estratifica- ção de sentimentos...
Haveria uma espécie de hierarquia, desde os sentimentos mais inferiores (sensoriais e corporais), passando pelos psíquicos, até os mais superiores – os espirituais. Eis o resumo da classificação de SCHELER (que não era espírita): 1 - Senti- mentos Espirituais; 2 - Sentimentos Aními- cos ou Psíquicos; 3 - Sentimentais Corporais ou Vitais; 4 - Sentimentos Sensoriais. Assim, os sentimentos espirituais são espe- cíficos do homem, os animais não o pos- suem na sua totalidade.
O estímulo das fi- bras nervosas de uma glândula de secreção interna (endócrina) leva à secreção de uma substância, que pode cair na circulação sanguínea, que irá produzir os seus efeitos à distância, inclusive emocionais. Que haveria nisto do ponto de vista espiritual? Pratica- mente, nada! Tensão pré-menstrual e depressão pós- parto Tal mecanismo, acima descrito resumi- damente, é o que ocorre no chamado fenómeno de auto-regulação, numa série complicada de liberação de hormonas para a produção do óvulo...
Quando este não é fecundado, há uma “descamação” da parede do útero, há sangramento eoóvulo é destruído; neste caso, dizem os ginecologis- tas em linguagem poética: “O útero chora lágrimas de sangue pela falta da fecunda- ção de um óvulo.” Quando há uma alteração na secreção de uma glândula (alteração endócrina) em determinada mulher – uma disendocrinia –, surge o transtorno denominado tensão pré- menstrual (TPM), que produz uma alteração psíquica (e não espiritual) de causa física, puramente orgânica.
Da mesma forma, mas através de outras hormonas, a depressão pós-parto é provo- cada por uma disendocrinia, isto é, por uma alteração na regulação hormonal, tanto assim é que, passada a condição puerperal e pós-puerperal (pós-parto), a mulher volta à normalidade psíquica, se não possuir pre- disposição genética importante para uma doença mental. Maior frequência de depressão na mulher Sem dúvida, a depressão na chamada doença Bipolar é três vezes mais frequente no sexo feminino do que no sexo masculi- no e isto ocorre, provavelmente, por razões genéticas, possivelmente, por alterações no cromossoma X.
No entanto, ainda não há uma razão indubitável do ponto de vista dos actuais conhecimentos científicos, mas não há dúvida de que existe uma razão genética, até porque trabalhos com gémeos univiteli- nos monozigóticos (com o mesmo mate- rial genético) e diziogóticos (com material genético semelhante), além de estudos com microscopia electrónica, demonstram o carácter predominantemente genético da doença Bipolar. Epílogo A predisposição da pessoa do sexo femi- nino a adoecer de TPM, depressão, etc.
não é do seu Espírito, e sim do corpo e, por isso, é importante lembrarmos que o Espírito não tem sexo, segundo a Doutrina dos Espíritos. Se o Espírito encarna num corpo com características genéticas femininas, ele terá a oportunidade de aprendizado ante “obstáculos” de natureza própria do sexo feminino: menstruação, gravidez, amamen- tação, etc. O grande problema de muitos confrades espíritas é que, apesar da doutrina ser clara na resposta da questão 200 de “O Livro dos Espíritos”, ao dizer que os Espíritos não têm sexo, pois “os sexos dependem da consti- tuição orgânica”, admitem, erroneamente, a bissexualidade anímica, baseando-se em conceitos questionáveis da psicanálise, especialmente da psicanálise de JUNG e, neste caso, ainda há a agravante de se misturar Espiritismo com doutrinas orien- tais, totalmente estranhas à Doutrina dos Espíritos codificada por ALLAN KARDEC, porque há um claro misticismo nas doutri- nas orientais que o Espiritismo verdadeiro rejeita.
A delicadeza, a sensibilidade, o estoicismo ao enfrentar a dor física, são algumas das características do Espírito da mulher, mas a rigor, não existe sexo nos Espíritos.
