Crónica Podemos dizer que por detrás do vício de um encarnado, há semp
Jornal de Espiritismo nº 23 · Julho 2007Página 84 min
Crónica Podemos dizer que por detrás do vício de um encarnado, há sempre um desencarnado viciado também, aproveitando-se dos momentos de gozo em comum Dramas da obsessão foto loucomotiv No meio espírita, um dos temas mais abordados é a obsessão e, consequentemente, as suas personagens: os obsessores. Na literatura espírita, são imensos os livros onde o tema é abordado, desbravado, explanado e explicado, mas por muito que leia- mos, há sempre algo a aprender.
Nunca é demais, pelo nosso ponto de vista, abordar o tema no seu sentido geral, numa humilde tentativa de esclarecer e despertar o interesse na pesquisa mais aprofundada do tema. Antes de mais, é fundamental compreen- dermos o que se entende por Obsessão. Compreenda-se esse termo como uma ac- ção perniciosa de um Espírito sobre outro, independentemente do motivo por detrás dessa acção. Mas o que se esconde por detrás de tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexo processo?
Como base primeira, podemos colocar o nosso papel no Universo: a evolução. Sa- bemos que todos somos Espíritos, criados pelo mesmo artista, e seguindo no mesmo caminho de crescimento, com o mesmo objectivo de evoluir até à denominada perfeição. Sabemos também que cada Espírito, mesmo que tenha sido criado ao mesmo tempo que outro, cria o seu próprio caminho, avançando assim mais depressa ou mais devagar do que o “colega” que saiu da mesma “fornada”.
Cada um de nós aprende a seu tempo, e assim constrói uma narrativa diferente com vista ao mesmo final da história. Ora, ao longo das diversas peças de teatro que corporificamos, vamos gozando ampla- mente de nosso livre-arbítrio, tomando as decisões que nos parecem mais de acordo com as nossas tendências e necessidades. E não raro, aquilo que sentimos como sendo o melhor para nós terá um peso gigantesco sobre aqueles que nos rodeiam.
Seria simples se nada nos acontecesse perante um passo mal dado, mas onde estaria a justiça de Deus sem a mínima con- sequência às nossas acções? Somos então regidos pela Lei de Causa e Efeito, segundo a qual para todo efeito advém uma causa, ou seja, para cada escolha voluntária, vem uma consequência. Dada a nossa natureza ainda imperfeita, a tendência pende para as acções alimentadas por sentimentos como o egoísmo e o orgulho, o que obrigatoria- mente trará uma consequência que faça jus a essas acções.
Pensando na interacção que temos com os outros, é fácil compreender a facilida- de de ferirmos susceptibilidades alheias, e pensando na evolução de cada um, as respostas a esses ferimentos poderão ser diferentes. E assim, todos coleccionamos de algum modo obsessores do passado, Espíritos a quem, de algum modo, ferimos profundamente, e que levados pela ideia de vingança, nos procuram quando no corpo de carne, para desferirem o golpe de resposta.
Muitos são os casos dolorosos relatados em centenas de livros, onde o algoz encarnado, temporariamente anestesiado quanto às lembranças do passado, sofre então nas mãos daquele que magoou, podendo mes- mo essa influência chegar à influência no corpo físico, pelo surgimento de problemas de saúde. Fundamental se torna, nesses casos, plantarmos no coração a compreensão, reconhecendo, mesmo sem lembrar, que no passado o nosso grau evolutivo ainda inferior se manifestou contra outrem, e que necessário se faz desfazer os laços de dor para serem substituídos pelos laços do perdão mútuo.
Se pensarmos bem, de que nos vale rogar pragas, desafiar sentimentos negativos que decairão sobre nós mesmos, prolongando mais ainda o sofrimento? Nestes casos, uma prece pode operar um “milagre”, apelando ao perdão e bem-es- tar subsequente do obsessor que ferimos antes, rogando a Deus que auxilie o irmão infeliz (pois na verdade, sofre mais do que nós) a encontrar o caminho que lhe cabe percorrer para seu crescimento pessoal.
No entanto, outros cenários podem ilustrar uma obsessão. Por isso podemos estabele- cer como segunda base para a obsessão a sintonia vibratória. O «vampirismo», tipo de obsessão essen- cialmente ligado ao roubo e absorção de vibrações físicas pertencentes ao obsedia- do, é mais comum do que muitas vezes se julga. Tal como no caso dos débitos passa- dos abordados antes neste artigo, não são mais do que Espíritos carenciados de nosso apoio e compreensão, reagindo com base no seu grau evolutivo.
Podemos dizer que por detrás do vício de um encarnado, há sempre um desencarna- do viciado também, aproveitando-se dos momentos de gozo em comum. O exemplo mais simples poderá ser o de um fumador. Quando um fumador desencarna, mesmo livre do corpo físico, mantém no perispírito as sensações de carência do tabaco. Na im- possibilidade de se dirigir ao café e adquirir o costumeiro maço de cigarros, há uma necessidade intensa de resolver a carência e aliviar a “ressaca”.
Então, eis que se cruza com um encarnado em cujo bolso espreita um maço do fruto precioso. Depressa corre para junto dele, rogando sem parar que acenda um dos cigarros, passando a sorver junto com ele as energias proporcionadas pelo vício em causa. Assim, passa a fumar com ele, e o encarnado, por sua vez, ganha um novo companheiro de vício. Agora, multipliquem isto por uma boa dezena (ou mais!) de desencarnados fumadores, caren- tes de um cigarro...!
Quantas companhias passamos a ter junto de nós, impulsionan- do-nos a prevalecer no vício, para assim satisfazerem a sua própria necessidade. E pensando que qualquer comportamento nocivo em excesso se transforma em vício, a situação toma proporções ainda maiores. Obsessores...
