Publicidade Publicidade (pág. 9)
Jornal de Espiritismo nº 23 · Julho 2007Página 97 min
Crónica PUBLICIDADE PUBLICIDADE tude e dificuldade que um viciado enfrenta quando deseja largar o vício... Não só tem de vencer a vontade própria, como conse- guir fazer ouvidos moucos a todos esses companheiros que tentam a todo o custo impeli-lo no sentido oposto à libertação. Mas, para nosso aprendizado, não só um vício evidente nos liga a Espíritos, rodean- do-nos de obsessores. O pensamento é o maior vício que nos acompanha ao longo dos milénios, traduzindo o nosso conheci- mento, a nossa vibração e energia pessoal.
Esse pensamento, mais físico do que muitos julgam, plasma em nosso redor imagens que nos servem de portfolio, e nos colocam numa determinada onda energética. Desse modo, conforme seja a nossa vibração, vamos atrair, por sintonia, Espíritos que partilhem da mesma onda. assim nos rode- amos daqueles que, pensando e sentindo como nós, fortalecem ainda mais o nosso modo de ser e agir, dando-nos indicações e sugestões que prolonguem esse compor- tamento.
Se os nossos pensamentos são maiorita- riamente para o bem (dizemos maiorita- riamente pois reconhecemos que no grau evolutivo que estamos é-nos ainda difícil estar algum tempo ligados ao lado bom, quanto mais a maioria do tempo), então vão estar connosco Espíritos que sentem do mesmo modo tendência para ideias positivas, orientando-nos nesse sentido. E como somos “pessoas de bem”, as entida- des perversas não nos acompanham pois somos “chatos”.
Do mesmo modo, se os nossos pensamen- tos tendem ao mal, as nossas companhias diárias e nocturnas serão Espíritos também nessa vibração, que com as suas sugestões, nos impulsionam a prevalecer na onda negativa. E os amigos espirituais superiores, mesmo tentando nos sugerir outros cami- nhos para o nosso bem, não sendo ouvidos acabam por se afastar, até que compreen- damos por nós mesmos as nossas escolhas. Assim, amigos, acabamos por compreender que nenhum de nós está livre da obsessão, não de uma entidade (como muitas vezes ouvidos dizer na gíria popular, referindo-se a um “encosto”), mas de toda uma série de Espíritos ainda imperfeitos, como nós.
E quanto ao sentido da obsessão? Temos falado em situações de Espíritos que acompanham e influenciam encarnados, mas a obsessão pode assumir outros ma- tizes. Na verdade, uma obsessão pode ter quatro sentidos diferentes: Desencarnado para Encarnado; Desencarnado para Desen- carnado; - Encarnado para Desencarnado; eEncarnado para Encarnado. Claramente, os exemplos referidos até agora encaixam no primeiro grupo: desen- carnado para encarnado.
Contudo, polulam também na literatura espírita os exemplos em que todos os envolvidos na obsessão estão desencarnados. Se pensarmos bem, a morte nada significa além da passagem de um mundo material para um mundo espiritual. Nada na personalidade da pessoa muda, e muito menos na sua história como Espírito. Assim sendo, os inimigos acumula- dos com o tempo são os mesmos. Os senti- mentos sobrevivem ao tempo e à morte. E desse modo, torna-se fácil compreender a continuidade que se verifica além vida física entre Espíritos que têm problemas a resol- ver entre si.
Encontram-se e debatem-se, até que compreendam a situação pessoal e trabalhem pela reconciliação. Mas a obsessão entre desencarnados não se fica por aqui. Nem sempre o obsessor conhece o obsediado. Vemos o exemplo relatado por Camilo Castelo Branco, no clássico Memórias de Um Suicida, quando descreve a paisagem denominada Vale dos Suicidas. Lá, onde os Espíritos que sucum- biram pelas próprias mãos encontram a dor da realidade e da consciência, entidades imperfeitas comprazem-se no mal, tortu- rando e perseguindo aqueles que sofrem, sendo assim seus obsessores.
E este é somente um exemplo entre muitos, como também nos demonstra André Luíz, em toda a sua obra fantástica. Os casos de obsessão de encarnado para desencarnado são já mais delicados. Na sua maioria, devem-se essencialmente à falta de conhecimento, e não à maldade intencional. Não raro, são situações em que pretendemos ajudar, e acabamos por prejudicar. Tenhamos como exemplo um dos casos mais comuns para nós: a morte de um ente querido.
Quando há desconhecimento, sobretudo no que diz respeito à espiritua- lidade e à morte, sentimos no desencarne de uma pessoa querida um golpe terrível, chorando pela pessoa que não tornaremos a ver. É claro que é normal ficarmos tristes com a morte de alguém, e é saudável chorarmos essa situação, não porque não veremos mais a pessoa (o que sabemos que não é verdade), mas pela saudade que nos provoca a ideia de não sabermos quanto tempo será até o próximo encontro.
Mas sabemos de imensas situações em que a pessoa que fica passa a chorar a perda du- rante anos a fio, mantendo constantemente o seu pensamento ligado ao desencarnado, obrigando-o a uma sintonia constante. Desse modo, acaba por tornar-se obsessor do mesmo, carregando-o com sentimentos de tristeza e desânimo, dificultando-lhe a continuidade da sua vida na espiritualidade. Imaginemos como sentiríamos se, mesmo anos após a nossa morte, os nossos fami- liares e amigos continuassem infelizes e a chorar por nós...
Conseguiríamos ser felizes? Finalmente, vemos que podem haver também obsessões de encarnados para encarnados. E estas, ao contrario do que possamos pensar, acontecem com mais frequência do que deveriam, e geralmente, sem sequer nos darmos conta ou pensar- mos nisso. São aquelas situações de antipa- tia para com o outro, em que de cada vez que o vemos, os nossos pensamentos ne- gativos se lhe dirigem, podendo prejudicá- lo.
Em que os nossos olhos e a nossa língua desenrolam o nosso pensamento negativo na direcção de uma pessoa que pode até nem perceber sequer que estamos de mal com ela. Quando nos sentimos com inveja do nosso vizinho, que tem um carro novo, e até sentimos uma pontinha de felicidade quando ele faz a primeira amolgadela. E podemos mesmo transpor estas situações e pensamentos ao mundo ao nosso redor, a nossa casa, os familiares, os vizinhos, os ami- gos, os colegas de trabalho, ou até aquele desconhecido que vemos todos os dias de manhã no metro quando vamos para o emprego e com quem simplesmente não simpatizamos.
Como já vimos antes, o pen- samento tem uma força incalculável... E mais ainda, lembremos que, do mesmo modo que podemos estar a ser obsessores de alguém, outros podem estar a ser os nossos... Necessário se faz aprendermos a olhar o próprio umbigo, em vez de nos pre- ocuparmos tanto com o que o outro tem. Podem ainda surgir situações onde estas direcções se misturam, afectando todo um conjunto de pessoas. Darei aqui um exemplo pessoal.
Neste momento, e de há quatro meses para cá, tenho sido vítima de algo semelhante. Um anónimo tem dedi- cado o seu tempo a criar na Internet toda uma série de páginas, blogs, anúncios, per- fis, etc., com os meus dados pessoais, foto e identificação quanto ao centro espírita onde colaboro, associando-me e ofere- cendo-me para situações de cariz sexual, e decorando as referidas páginas com fotos de teor lamentável. Assim, a minha família começou a ser importunada com telefo- nemas de desconhecidos à minha procura, bem como e-mails com fotos pessoais que eram “pedidas por mim”.
Do mesmo modo, cuida de publicitar via e-mail as mesmas páginas, na tentativa triste de denegrir a mi- nha imagem pessoal junto do meio espírita, não olhando a meios para atingir um fim despropositado. Analisando a situação do ponto de vista do tema deste artigo, podemos perceber claramente que o dito anónimo sofre neste momento de uma obsessão evidente, con- tra a qual certamente não está a ter força para lutar. Simultaneamente, percebemos aqui também um outro alvo dos obsesso- res, eu, atacando-se assim também a casa espírita onde colaboro.
E assim chegamos a um exemplo claro de situação semelhante, descrita no livro «Aconteceu na Casa Espí- rita», em que um centro espírita é atacado por entidades inferiores que, obviamente, desejam destruir o ponto de luz, e para tal atacam pessoas em torno dos trabalhado- res do centro. Pretendemos com este exemplo ilustrar a profundidade a que pode chegar uma obsessão quando nenhuma resistência lhe oferecemos, levando-nos mesmo a agir de forma desrespeitosa para com o outro, gratuitamente, sem mesmo compreender- mos que apenas acumulamos débitos para nós mesmos.
Necessário se faz, amigos, cuidarmos de nossas acções e pensamentos, percebendo até que ponto estamos a remar no sentido correcto ou não. Quanto ao exemplo pesso- al dado, resta-nos somente pedir uma coisa a todos os que lêem este artigo: orações pela pessoa presa nas teias de obsessão tão perversa. Orações para que Deus lhe dê apoio e orientação, para que encontre um novo caminho a percorrer, onde dedique o seu tempo a favor da causa.
Concluindo, colocamos nas nossas próprias mãos a responsabilidade do tipo de compa- nhias que nos seguem e influenciam, visto que seja pelo nosso passado ou pelo nosso pensamento, demos o primeiro passo para a obsessão. Mas do mesmo modo, amigos, se assim é, temos também nas nossas mãos a liberdade de nos livrarmos das influências nefastas. O passado não podemos apagar, mas podemos pedir perdão e perdoar, de coração, comprometendo-nos com o ver- dadeiro reatar de laços com quem ferimos e nos feriu.
E podemos mudar o nosso pensamento, como já nos dizia o querido Mestre: “Orai e vigiai”. Neste artigo, refe- rem-se somente alguns meros exemplos de situações que transparecem obsessão, não tendo de modo algum a pretensão de resumir o assunto a estas linhas simples. Recomenda-se o estudo e a pesquisa, para melhor aplicarmos os conhecimentos a nós mesmos, e sermos felizes.
