Opinião Em vão o bem intencio- nado cliente lembrou à senhora que Jesu
Jornal de Espiritismo nº 24 · Setembro 2007Página 113 min
Opinião Em vão o bem intencio- nado cliente lembrou à senhora que Jesus apelou ao perdão. Tais palavras de Jesus, segun- do ela, estavam “ultrapas- sadas” Por toda a eternidade… Aguardava a minha vez de pagar, na loja de jornais, quando entrou de rompante uma perfeita sósia de Bianca Castafiore, a cantora de ópera das aventuras de Tintin. Figura avantajada, busto farto, nariz empinado, envolta em roupas pomposas e adornada de jóias pesadas, a vistosa senhora ultrapassou toda a gente sem cerimónias e fez ouvir bem alto a sua voz: Ó Amélia, deixei aqui o meu jornal?
Não, Senhora D. Fulana – esclareceu, solícita, a rapariga. - Ah! Então não há dúvida de que mo roubaram! E, perante a estupefacção geral, a senhora encetou uma descri- ção terrivelmente pormenorizada de todos os sofrimentos excruciantes que desejava ao ladrão do jornal. Um dos clientes não se conteve e exclamou: - Que horror, minha senhora!... - Acha um horror? Pois fique sabendo que muito pior vai ser o que o ladrão vai sofrer no Inferno por toda a Eterni- dade!
E repetia, pontuando as palavras com o bater da unha escarlate sobre o balcão: - Por toda a Eternidade! Por toda a Eternidade! Em vão o bem intencionado cliente lembrou à senhora que Jesus apelou ao perdão. Tais palavras de Jesus, segundo ela, estavam “ultrapassadas”. Preferia a doutrina das penas eternas, que na ocasião melhor lhe servia para descarregar a irritação. De facto, Jesus nunca pregou as penas eternas. As “trevas exteriores, onde há choro e ranger de dentes” já são suficientemente preocupantes para quem estude séria e racionalmente as palavras do Nazareno.
Ferver eternamente em caldeirões de azeite, picado por forquilhas empunhadas por diabretes impunes, foi papão que a imaginaçãoeoêxtase místi- co criaram. O Deus de Amor que Jesus deu a conhe- cer é incompatível com a monstruosidade de sofrimentos intermináveis, mas muito boa gente ainda acredita que nos espe- ram, em definitivo, o Céu, o Inferno ou o Purgatório. Por recusarem essas ideias ingénuas e injustas, outros não esperam nada após esta vida, ou quando muito esperam uma vaga absorção ao Todo Universal.
Três hipóteses que não satisfa- zem a razão nem a sensibilidade. Não tem base histórica nem científica. Jesus pregou uma “colheita” de felicidade após esta vida, proporcional à “semen- teira” de abnegação e amor ao próximo. Contudo, dois mil anos volvidos, a profun- didade dos seus ensinamentos continua a ser escamoteada. Jesus divulgou uma mensagem universal de amor a Deus e ao próximo, de Justiça e Caridade. Mas cada seita tende a afirmar- -se como “a mais fiel representante” de Jesus, dando dele a imagem de um chefe religioso, em nome do qual se impõe o cumprimento de preceitos e rituais.
De Jesus exalta-se sobretudo o sofrimento da cruz, e em nome dele transmite-se um sentimento de culpa para a Humanidade inteira. É desta imagem errada, de Jesus como chefe religioso sectário e divul- gador de um Deus austero, que muitas pessoas se afastam. Allan Kardec, chamado o codificador do Espiritismo por ter redigido as cinco obras básicas da doutrina dos Espíritos, chamou a uma delas “O Céueo Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritis- mo”.
A primeira parte desta obra é um estudo filosófico e histórico admirável, de ideias bem arrumadas e lógica cristalina. Aí vemos, por exemplo, que as religiões cristãs copiaram e exagera- ram o Céueo Inferno do paganismo. Na segunda parte, a vida após esta vida terrena aparece-nos despida de imagens simbólicas, narrada pelos seus protagonistas, os Espíritos. Mais felizes os que semearam bem. Menos felizes os que semearam mal.
Somos nós que nos enredamos nos infernos das nossas más acções e bai- xos sentimentos. Somos nós, também, que construimos o nosso “céu”, mercê do esforço no bem, no cumprimen- to das leis eternas. Mesmo os mais recalcitrantes acabarão por se redimir, e evoluir para estados mais felizes, pelo seu esforço. É esta a mensagem de Jesus, que o Espiritismo confirma e demonstra. Deus é infinitamente justo e bom!
