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Jornal de Espiritismo nº 24 · Setembro 2007Página 125 min
Opinião PUBLICIDADE Aborto: E depois? O tema “aborto” tem feito correr muita tinta. Desde discussões parlamentares, referendo ao povo português, vitória do sim ao aborto, até aos objectores de consciência que se recusam a fazer abortos, já se falou de tudo um pouco. Sobre as consequên- cias morais é que falta fazer a abordagem. A doutrina espírita tem uma posição clara sobre isso. Quando Jesus de Nazaré referiu “a Deus o que é de Deus eaCésar o que é de César”, podemos ver aí uma abordagem das leis universais versus leis humanas.
As leis universais (ou leis de Deus) por serem universais, são imutáveis, perfeitas. As leis dos homens são locais, mutáveis e imperfeitas, sendo adaptadas à medida que a humanidade vai progredindo ao longo dos tempos. Dizem os Espíritos superiores que a Huma- nidade caminha rumo à felicidade, e que quando formos espíritos mais evoluídos e felizes, as leis então em vigor aproximar-se- -ão da lei divina, das leis universais.
Aí, o homem, tendo uma visão holística da vida, e liberto das amarras do egoísmo, do orgulho e da vaidade, agirá em con- sonância com as leis naturais, com as leis universais, com a lei divina. Elas estarão na sua consciência, farão parte de si, e todas as suas atitudes se pautarão pelo bem geral e não só pelos interesses pessoais, por vezes bem mesquinhos. Não sendo o homem senhor da vida, não lhe cabe o direito de cessar a vida de ninguém, seja pela eutanásia, aborto, ou qualquer tipo de homicídio.
Com o estudo do Doutrina dos Espíritos, eles vêm explicar a causa das deformações, das maleitas de nascença, das deficiências. Estas têm a sua causa em vidas passadas, onde o mesmo ser, agindo erradamente, criou forte complexo de culpa que lhe desestruturou os centros energéticos do seu corpo espiritual (perispírito), corpo este que servirá de modelo ao futuro corpo físico. Esse desequilíbrio energético do ser, em forte conflito interior, será a causa da deficiência do bebé em formação.
Extingui- -lo pelo facto de ser portador de deficiên- cia começa a afigurar-se como algo que repugna a nossa dignidade, tal como nos repugna modernamente, aceitar o holo- causto nazi. Se não podemos aceitar este tipo de atitu- de, muito menos ela será aceitável quando o aborto é provocado em virtude do bebé gerado não ter sido desejado. Dentro da Lei de Causalidade (ou Lei de Causa e Efeito), sabemos que todas as exis- tências (reencarnações) se interligam, como os elos de uma corrente, repercutindo umas nas outras.
Assim, as alegrias e triste- zas existenciais, quando não tendo causas nesta existência, têm-nas em existências passadas, sendo esta reencarnação uma oportunidade que o ser tem para reparar erros do passado que falam alto no seu imo. Aprendendo a valorizar aquilo que outrora desprezou, o ser evolui, reaprendendo e libertando-se do seu complexo de culpa. Voltando aos tempos actuais, vemos mé- dicos e enfermeiros corajosos, recusando Não sendo o homem senhor da vida, não lhe cabe o direito de cessar a vida de ninguém, seja pela eutanásia, aborto, ou qualquer tipo de homicídio serem instrumento de um crime infame como o aborto, recusando cumprir os desideratos do referendo nacional sobre o aborto.
Outros médicos, que fizeram o juramento de Hipócrates, estão a ser recrutados para efectuarem abortos nos hospitais onde os seus colegas de profissão alegaram objec- ção de consciência. O ser humano tem o livre-arbítrio, age como bem lhe aprouver, mas jamais se poderá eximir da sua consciência. Amanhã, quando pelo fenómeno natural da morte do corpo de carne, adentrar o mundo espiritual, os médicos e enfermeiros abortadores sentirão o peso da responsabi- lidade por tal acto infame, então julgado o supremo acto de liberdade, do seu livre-ar- bítrio, quase sempre decalcado no egoísmo e nos interesses pessoais.
Voltarão em futuras reencarnações com marcas na consciência, com dificuldades no campo da fecundidade ou noutros a nível orgânico, assim depurando-se mais ou menos rapidamente do seu processo de autoculpabilização. Não fazemos a apologia do medo, do castigo, do pecado, técnica ultrapassada, utilizada pelas religiões desde tempos ime- moriais, para fins muitas vezes obscuros. Fazemos sim, a apologia da verdade que liberta, que esclarece e consola, e, de mo- mento, esta é a nossa “verdade”, dentro do que é possível saber.
Não adianta dourar a “pílula”, conforme as conveniências. Não há decreto, nem passes magnéticos que nos ilibem das nossas atitudes. Quanto ao aborto, referem os Espíritos Superiores, ele é lícito nos casos do aborto terapêutico, em que a vida da mãe corre sério perigo, e onde é mais lógico sacrificar aquela vida que está a iniciar-se do que a que já vai a meio da existência. Apesar do tema incómodo, da abordagem não ser considerada “politicamente cor- recta”, não podemos continuar a sonegar à sociedade aquilo que já sabemos, sob pena de estarmos a colocar a luz debaixo do alqueire.
Texto: José Lucas jcmlucas@gmail.com “A reencarnação é como uma máscara. Por trás de um novo corpo físico está um ser imortal multi-secular” foto josélucas Passou pouco tempo. Uma tarde liga-nos a familiar em causa, a filha, um pouco assustada, para nos dizer que a mãe deveria morrer em bre- ve, fazendo a ligação ao nosso alerta e porque a mãe, nessa madrugada, quando a visitara no quarto, estava bem acordada e lhe dissera, em jeito de reprimenda: «Já estava à tua espera e demoravas a che- gar.
Queria perguntar-te porque permi- tiste que a tua tia (disse o nome) entrasse aqui, sem bater à porta e tu nem sequer apareceste para a cumprimentar». Contou então que ali estivera, longo tempo, sentada junto dela, em atitude de prece, uma cunhada que morrera há muito tempo. E foi dando pormenores: pareceu-lhe mais nova, muito serena e luminosa, curiosamente vestida de bran- co. Fora embora há pouco tempo, calma como entrara, e sem ninguém dar conta.
Mas o mais curioso nesta história é que a filha mal conhecera a tia que ali estivera, porém, sabia que ela, quando partiu des- te mundo, estava em grande sofrimento e tinha amputadas as duas pernas. E foi essa a questão que pôs à mãe: - «E as pernas, minha mãe?». - «Ah! As pernas... (!!!); ela tinha as pernas. Deslizava perfeitinha e ligeira nas suas vestes brancas». Passado tempo, eu acredito que as cunhadas se encontraram noutro lugar do Espaço.
Fiquei cá a pensar, depois daquela tarde de voluntariado que, se por um lado, ao ler Delanne ou Bozzano temos aces- so aos casos que pesquisaram e que aumentam o nosso conhecimento, por outro, a minha bata amarela, de algum modo a cor símbolo do voluntariado hu- mano, me dá acesso às mais inebriantes experiências da alma. Basta estar atento.
