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Jornal de Espiritismo nº 24 · Setembro 2007Página 95 min
Opinião PUBLICIDADE PUBLICIDADE Dizem os espíritos sábios que ninguém vai sobrecarregado por fardo maior do que o que consegue resolver O desafio da vida Que seria da vida sem degraus, sem metas, sem caminhos para vencer e lições para assimilar? Nesta viagem que é a vida terre- na andar sem leme nem norte não é boa opção. Tem visto como vão os seus passos? Na óptica espírita a vida terrena é como a ponta iluminada de um iceberg: o que está à vista hoje não é mais do que uma ínfi ma parte de um todo imenso, uno, coerente, que se oculta debaixo da linha de água.
As vidas passadas, as vivências da erraticida- de, no plano espiritual, os afectos milenares e as contas por ajustar vão no bojo imenso, subaquático, que não se descortina com clareza, mas que determinam as razões do que acontece hoje a cada um, no objectivo maior de aumentar capacidades intelectu- ais e afectivas. Parece simples, conciso e com pouco para dizer, mas a verdade é que este tema é um mundo. E toca a todos...
Companheiros de viagem A semente encerra o potencial de uma árvore grande, mas fi cou enterrada no breu da terra. Que desafi o: como romper a casca da semente? Como saber a direcção do sol? Mas o mapa funciona, está nas células minúsculas e, no tempo certo, a natureza sopra, e ajuda: lá vai a planta cumprir a história monumental da árvore secular. Perto de si, umas dezenas de ovos ínfi mos de algum insecto parecem postos por en- gano na janela de uma casa desabitada.
Ah! São de alguma borboleta nocturna. Quan- do as minúsculas lagartas eclodirem, que desafi o! Vão morrer de fome até chegarem a uma planta que as possa alimentar. Ou não? Eis que uma já está a comer a casca do ovo, seguida de outras. E agora? Com uma lupa, vê-se que larga um fi o de seda, vem a brisa e vai de parapente sob a bênção dos céus – muitas cairão perto da planta do alimento precioso... As crias das garças-vermelhas viram partir os seus pais em Agosto para o continente africano.
Só agora, um mês depois, enfren- tam, sozinhas, o desafi o de percorrerem o mesmo caminho migratório pela primeira vez. Conseguirão? Os ornitólogos dizem que sim, em larga margem, pelas anilhas que vêm e que vão nas suas patas compri- das. Desafios: motores evolutivos Viver sem desafi os, sem olharcada novo dia como a página em branco onde podere- mos escrever poemas mais lindos, equivale a encarar um suposto terreno celestial onde o descanso eterno estiolaria as faculdades mais nobres do ser humano.
Sem dramatizar, há que encarar os testes um por um. Dizem os espíritos sábios que ninguém vai sobrecarregado por fardo maior do que o que consegue resolver. Entramos nesta vida com múltiplas expec- tativas e receios: iremos soçobrar? Iremos vencer? Já não há ilusões: sabemos que tudo de- pende das pequenas atitudes do dia-a-dia. Agimos na companhia da paciência contu- maz? Vivemos habitualmente para além do circuito do próprio umbigo?
Até que ponto somos realmente generosos nas relações que entretecemos com outrem em casa, no trabalho, na via pública? Quantas vezes por semana abrimos o coração à ternura e dei- xamos que ela nos ilumine a mente quando pensamos em algo ou alguém? No fundo, como vai a relação de cada um de nós com a caridade, tal como a entendia Jesus? Ninguém precisa de se fustigar por não corresponder a estes fi gurinos a cem por cento.
Trata-se de algo normal. Trabalho que ainda está por fazer não aparece feito do dia para a noite. Muito menos quando são serviços... intransferíveis. Ninguém con- seguirá fazê-los por nós, se não formos nos próprios a fazê-los. Por muito que amemos os nosso fi lhos, quando eles não encaram bem os primei- ros dias de escola primária, não podemos deixá-los em casa e ocupar o lugar deles, pois não lhes facultaríamos a possibilidade de instrução.
O mesmo faz quem nos ama do outro lado da vida: apoia, ampara, mas não nos retira a possibilidade crescimento espiritual. Dificuldades são degraus As difi culdades que enfrentamos prendem- se a rotinas invariavelmente residentes no país do egoismo. Não fi ca alhures, fi ca na consciência de cada um. E quanto menos nos conhecemos interiormente menos percebemos que há outras formas (muito melhores) de sermos, de agirmos.
Alguns alegam: nunca atingiremos aquilo que ainda não conhecemos. Mas não é assim que a experiência dita: chegaremos tanto mais depressa ao que não conhe- cemos quanto mais acertadas forem as aproximações que vamos fazendo. Caminhamos para metas que ainda estamos longe de atingir, mas podemos confi gurar a nossa maneira de pensar e de agir por forma a aproximar-nos delas... Por isso, Jesus exortou: “Sede perfeitos”. Com estas duas palavras temos a dinâmica da elevação interior decomposta através do progresso espiritual assente na iluminação da inteligência e da afectividade.
Economizar recursos A ânsia de ser perfeito do dia para a noite é doença: chama-se angústia da perfeição. E não ajuda ninguém. Ao longo do tempo – e deixe cair tempo nisso – criámos uma série de dispositivos psicológicos que nos conferem maior adap- tabilidade ao meio de experiências entre pessoas. São eles que nos ajudam a econo- mizar recursos, poupar tempo e energia, dar uma resposta aparentemente mais efi caz à adversidade, no fi to da sobrevivência con- seguida dia a dia nos tempos primitivos.
Um exemplo disso são os múltiplos refor- ços que inculcámos no ser, herdados de vi- das anteriores e estimulados até na infância e idade adulta. Um, muito habitual e antigo, por exemplo, dita o seguinte axioma: se te agredirem, duplica a oferta na resposta. Gizado em tempos primitivos, ia resolven- do no imediato as relações violentas com tribos rivais, com as feras, e era também so- lução para mitigar a fome e o frio pela caça.
A repetição dos padrões verteu tantas vezes do consciente para o inconsciente profun- do que, hoje, ainda trazemos essa “verdade” prática a tamborilar no piloto-automático de muitas atitudes do dia-a-dia. Jesus veio contrariar a tendência e demons- tra a actualidade e a superioridade de se ser fraterno e indulgente. Assim caminhando, com grandes saldos no desconto do comportamento alheio, e muita compreensão também com o de si próprio, descortinando motivações e causas, conseguiremos aumentar a per- centagem de acerto no comportamento diário, progressivamente, fazendo com que o desafi o das conquistas a consolidar nesta vida corra bem, e as virtudes tão faladas desde a Antiguidade nos acompanhem mais assiduamente os passos, deixando as marcas inconfundíveis do exemplo, já que palavras, essas, leva-as também o vento...
