Crónica O que é ser Espírita Pergunta-se, afinal, pela definição de es
Jornal de Espiritismo nº 25 · Novembro 2007Página 168 min
Crónica O que é ser Espírita Pergunta-se, afinal, pela definição de espírita. Trata-se de saber quais são as características que fazem de alguém espírita e não outra coisa qualquer. Para isso, há que recorrer a aquilo que se designa de género mais próximo (as características que o conceito de espírita partilha com os outros da mesma “famí- lia”) e de diferença específica (as características próprias do espírita, que o distinguem dos outros “membros da família”).
Tentar-se-á avançar com uma definição explícita, isto é, referir expressamente as características necessárias e suficientes que integram o conceito de espírita. O termo “espírita” não é unívoco, tal como não o é o termo “Espiritismo”. Poder-se-á dizer que são termos polissémicos, ou seja, que possuem vários significados. Em termos gerais, a noção de espírita pode ser retirada da noção de Espiritismo em nós: é o modo como o Espiritismo em si é captado e vivido por aqueles que com ele têm contacto, do reflexo ou efeito que o Es- piritismo tem em nós.
Espírita é aquele que, de alguma maneira, reage positivamente ao estímulo fornecido pelo Espiritismo e se deixa envolver por ele e nele. Um espírita é, antes de mais, uma pessoa. E é uma pessoa orientada para uma certa actividade e para um determinado modo de estar no mundo e na vida. Adopta uma certa posição no “jogo” da vida, sendo, ele próprio, um participante de um outro “jogo”, o da vivência (subjectiva e objectiva) do Espiritismo.
Ser espírita é funcionar de um modo específico, por se ter uma função no mundo ligada ao Espiritismo em si. Há uma dinâmica ínsita ao facto de se ser espírita, pois há um fazer qualquer coisa, já que se trata de participação e de vivência, não de omissão ou inércia. Outros há que assu- mem a mesma atitude formal; porém, não o fazem por referência ao Espiritismo mas a algo diferente. Ser espírita é ser algo mais que se adiciona ao ser-se pessoa e ao ser-se a Maria, o Manuel ou um outro qualquer indivíduo: é ser em correspondência com o Espiritismo.
É de notar que o termo “Espiritismo” possui um sentido impróprio e um sentido pró- prio. O sentido impróprio de Espiritismo resulta de um uso incorrecto do termo, da prag- mática não ajustada à semântica, pois que consiste num conceito que, à partida, não deveria significar o referido termo. Esse conceito é o de manifestação ou comuni- cação mediúnica. Assim, há que conceber o espírita em sentido impróprio, que é aquele que capta e vivencia o Espiritis- mo em sentido impróprio.
Neste, há que distinguir o teórico do praticante. O teórico é aquele que estuda ou investiga (ou, num nível mais básico, simplesmente crê em) as manifestações dos espíritos desencarnados junto do plano corpóreo (enquanto tais, nessa condição). Allan Kardec e William Croockes são exemplos de teóricos espíritas em sentido impróprio. O praticante é aquele que participa nessa interacção entre desencarnados e encarnados, que é parte nessa relaçãoea integra na sua vida.
Aqui, por sua vez, há que operar a distinção entre praticante passivo e praticante activo. O praticante passivo limita-se a ser o canal de comunicação entre os dois planos referidos, a servir de meio ou instrumento da mani- festação mediúnica: é, por isso, médium. Fernando de Lacerda e Francisco Cândido Xavier são exemplos de praticantes passivos espíritas em sentido impróprio (médiuns). O médium pode sê-lo sem que provoque a dita comunicação, pois que esta pode surgir espontaneamente (do seu ponto de vista).
Se um espírito encarnado é parte nessa interacção com os espíritos desen- carnados, não como médium mas com um papel activo (é um dos elementos dessa relação ou comunicação que se estabelece entre os dois planos), então é um praticante activo. Tanto pode participar em manifesta- ções mediúnicas espontâneas como pode provocá-las (nisso que é a invocação ou evocação). É neste contexto que se fala em sessões mediúnicas ou, conforme a expres- são, usualmente, utilizada, sessões espíritas (em sentido impróprio, claro está).
E é neste tipo de espírita (em sentido impróprio) que a maioria das pessoas pensa quando se refere ao significado do termo “espírita”. O sentido próprio (ou correcto, por assim dizer) do termo “Espiritismo” consubstancia- -se no conceito de doutrina revelada pelo Espírito da Verdade (vulgo Espíritos) a Allan Kardec e por este testada e sistematizada, que, por sua vez, abrange os conceitos de Revelação Espírita e de Doutrina Espírita.
Deste modo, o espírita em sentido próprio é aquele que capta e vivencia o Espiritismo em sentido próprio. Também, aqui, há que distinguir o teórico espírita do praticante espírita, devendo acrescentar-se, entre eles, o valorador ou idealista espírita. Por outro lado, há mais dois sentidos para o termo “espírita” que é necessário identificar. É que uma coisa é alguém ser titulado de espírita ou captar/vivenciar o Espiritismo por força do contacto com a Revelação/Doutrina Espírita e outra é captar/vivenciar esse mesmo Espiritismo independentemente de um tal contacto e, consequentemente, sem que possa ostentar o “título” ou o estatuto de espírita.
Designar-se-á o primeiro de espírita em sentido formal e o segundo de espírita em sentido material. Duas notas: esta distinção também se aplica ao espírita em sentido impróprio, embora essa aplica- ção não vá ser feita aqui; os termos “forma” e “matéria” estão a ser usados num sentido técnico ou, o que é o mesmo, não corres- pondem ao sentido normalmente atribuído aos mesmos (não significa o primeiro mor- fologia ou figura nem o segundo substân- cia física ou corpo).
Dentro do espírita em sentido formal, podemos distinguir entre o que possui uma espécie de título ou estatuto natural (é formalmente espírita em sentido restrito) e o que possui uma espé- cie de título ou estatuto convencionado (a que se dará o nome de espírita em sentido institucional ou convencional). O teórico espírita em sentido próprio é aquele que estuda ou investiga a Teoria ou Doutrina Espírita. Pode fazê-lo por via da Revelação Espírita (tem acesso à Codifica- ção Espírita – as obras literárias onde se encontra plasmada a Doutrina Espírita), pelo que a sua representação mental se apresenta na condição ou qualidade de conhecimento espírita, ou independen- temente de tal, ou seja, sem lhe conferir o estatuto ou o título de espírita, mesmo podendo saber que o conteúdo da sua representação mental é semelhante à Teoria Espírita (partindo da pressuposição que a verdade se encontra concretizada ou realizada nesta, é o que acontece sempre que alguém chega à verdade sem ser por via da Revelação Espírita).
No primeiro caso, temos o teórico espírita em sentido formal e, no segundo caso, temos o teórico espírita em sentido material. Conforme com o que foi avançado, há que autonomizar, ainda, o teórico espírita em sentido institucional (ou convencional): é aquele que possui a representação mental canónica ou para- digmática da Teoria Espírita, isto é, a que é tida como correcta e como referência no seio do meio espírita (ou das instituições espíritas).
O valorador ou idealista espírita é aquele que sente e defende os valores ou ideais propostos na Doutrina Espírita, tomando-os como normas da sua conduta. Se os sente e defende na condição ou qualidade de valo- res ou ideais espíritas (a esse título), por ter acesso aos mesmos por via da Revelação Espírita, então é-o em sentido formal. Se os sente e defende independentemente de serem valores ou ideais espíritas (nessa con- dição ou qualidade) e, como tal, indepen- dentemente do contacto com a Revelação Espírita, é-o em sentido material.
Se adere aos valores ou ideais vigentes na comuni- dade espírita, isto é, se segue a valoração canónica ou paradigmática e aceita como certo o que as instituições espíritas lhe comunicam que deve fazer, é-o em sentido institucional (ou convencional). O praticante espírita em sentido próprio é aquele que participa na concretização ou realização desses valores ou ideais. Também, aqui, há que distinguir a prática passiva da prática activa.
Em sentido formal, o praticante passivo espírita é aquele que é parte não activa na actividade que outros encetam no sentido de concretizar ou realizar os valores ou ideais espíritas nessa condição ou qualidade (por exemplo: ser objecto de uma acção que, para ele, será boa de acordo com a definição apresentada na Ética Espírita e por essa razão; ser ouvin- te de uma música que, para ele, será bela de acordo com a definição apresentada na Estética Espírita e por essa razão) e o prati- cante activo espírita é a própria pessoa que enceta uma actividade de concretização ou realização dos valores ou ideais que segue por força do seu contacto com a Revelação Espírita.
Em sentido material, o praticante passivo espírita é aquele que é parte não activa na actividade que outros encetam no sentido de concretizar ou realizar valores ou ideais que até são os mesmos que a Doutrina Espírita propõe mas que não os “vê” com esse estatuto ou a esse título, enquanto que o praticante activo espírita é a própria pessoa que enceta essa actividade (concretiza ou realiza os mesmos valores ou ideais que a Doutrina Espírita propõe, embora sem o fazer na condição ou qua- lidade de valores ou ideais espíritas).
Se a prática se consubstancia na frequência das instituições espíritas ou de eventos paradig- maticamente espíritas (centros/associações, federações, encontros, seminários, con- gressos, etc.) ou na participação não activa em manifestações culturais cuja fonte se encontre nessas instituições ou eventos (ouvir CD editados por centros/associações espíritas, por exemplo), então estamos perante o praticante passivo espírita em sentido institucional (ou convencional).
Se a prática consiste em trabalhar ou ocupar um qualquer lugar directivo, executivo ou administrativo nas instituições espíritas ou em eventos paradigmaticamente espíritas (ser dirigente, proferir palestras, ministrar o “passe”, coordenar cursos, servir como médium, etc.) ou em organizar ou desen- volver manifestações culturais que tenham por fonte essas instituições ou eventos (promover sessões de pintura mediúnica, por exemplo), então estamos perante o pra- ticante activo espírita em sentido institucio- nal (ou convencional).
As categorias de “teórico espírita”, “valora- dor/idealista espírita” e “praticante espírita” não se excluem, claro: é possível uma única pessoa constituir-se nos três tipos de espí- rita (em sentido próprio). E pode cumular estas três qualificações com a de espírita em sentido impróprio (quer teórico como praticante): alguns espíritas (que estudam a Doutrina Espírita, defendem os valores es- píritas e aplicam-nos) são médiuns e alguns médiuns são espíritas (estudam a Doutrina Espírita, defendem os valores espíritas e aplicam-nos), por exemplo.
Ser praticante espírita em sentido institucional também não é incompatível com ser praticante espírita em sentido formal ou em sentido material (a conduta de um dirigente de uma casa espírita pode estar em confor- midade com os parâmetros normativos avançados pela Doutrina Espírita, por exem- plo). E tanto se pode ser praticante passivo como praticante activo. Já os conceitos de espírita em sentido formal e de espírita em sentido material tendem a excluir-se (ou se é um, ou se é o outro), assim como os de teórico espírita em sentido institucional e teórico espírita em sentido material e os de valorador/idealista espírita em sentido institucional e valorador/idealista espírita em sentido material.
