Entrevista José Raul Teixeira: a Física e o Espiritismo Depois de visi
Jornal de Espiritismo nº 25 · Novembro 2007Página 96 min
Entrevista José Raul Teixeira: a Física e o Espiritismo Depois de visitar mais de quarenta países, Portugal mereceu, mais uma vez, a presença de Raul Teixei- ra, físico e médium brasileiro que, através das suas palestras, adorna a mente humana com os avanços científicos entrelaçados nas verdades confirmadas pelo conhecimento espírita. Como surge esta sua visita a Portugal? Raul Teixeira – Visito Portugal desde 1989, sempre a convite da Federação Espírita Portuguesa.
Depois de sete anos, estou de regresso. Este interregno deve-se às minhas actividades profissionais, no Brasil, mas fui convidado para participar no Congresso Nacional de Espiritismo, levado a cabo em Lisboa, nos dias um a três de Novembro e cheguei antes para poder visitar algumas cidades e rever os corações amigos desta família espírita portuguesa. Ao longo do tempo, nas suas diversas vi- sitas, como vê a evolução do movimento espírita português?
RT – Desde a primeira vez em que aqui esti- ve, tenho acompanhado o crescimento gra- dativo do movimento, tanto em número de pessoas, como em qualidade de trabalho, desde aqueles que gerem, coordenam os movimentos locais ou mesmo regionais, até à Federação. Para mim, pessoalmente, é de muita alegria e de muito gáudio perceber que este país irmão é a primeira expressão em Espiritismo em toda a Europa. Na sua opinião, o que é mais importante: trabalhar numa associação espírita ou num órgão especialmente vocacionado na gestão do movimento, como a Fede- ração?
RT – O importante é saber que os órgãos de gestão do movimento espírita existem para coordenar as casas espíritas, que sãoacélula básica do movimento. Todos os dirigentes e coordenadores das instituições gestoras devem frequentar centros espíri- tas, senão tornam-se pessoas teóricas, sem nenhuma experiência prática e começam a ditar para o movimento aquilo que elas não sabem fazer. Por isso é que todo o movi- mento de união regional, distrital ou de federação deve ser composto por elemen- tos dos centros espíritas.
Funcionalmente, o centro espírita surge mais como escola ou como hospital? RT – Mesmo que o centro espírita seja visto como hospital, oficina de trabalho, templo, ou seja lá como for, a sua dimensão mais especial é a de escola. Senão, vejamos: quando o consideramos como um hospital, é nesse hospital que aprendemos a curar a própria saúde ou a mantê-la. Então, é uma escola onde aprendemos. Quando usamos o centro espírita como templo, quando aprendemos a dirigir-nos a Deus, aos bons espíritos, às potestades, estamos a aprender a fazer isto.
Continua a ser uma escola. Quando aprendemos a trabalhar pelo próximo, a fazer serviços pequenos ou grandes em prol do semelhante, estamos a aprender. O centro espírita continua a en- sinar-nos. Em qualquer actividade em que esteja envolvido, este terá por finalidade maior a de “educandário básico da mente popular”, como ensina o venerando espírito Bezerra de Menezes. Em qualquer grupo humano há dificulda- des de relacionamento.
Numa associação espírita também isso pode acontecer. Como lidar com o problema de forma a manter a paz? RT – Sempre pautados no ensino da doutri- na espírita. Uma vez que pregamos para os outros, deveremos assimilar primeiramente para nósea proposta de Allan Kardec para este caso é o trabalho, a solidariedade e a tolerância. Se não trabalharmos, se não formos solidários, não tivermos tolerância uns para com os outros, não conseguire- mos chegar a lugar algum.
O cuidado que devemos ter é que essa tolerância não se transforme em conivência com o erro. Tolerância no sentido de nos colocarmos no lugar do outro e verificarmos se ele tem ou não razão face às questões que põe em causa. Por isso mesmo, vale a pena estar- mos sempre prontos a conversar com os colaboradores, a ouvir as suas queixas ou as suas propostas e verificar de que lado está a razão. O que diz a alguém que afirme que uma doutrina surgida em meados do século XIX tem de estar desactualizada?
RT – As pessoas não entendem que a doutrina espírita não tem esse carácter de envelhecimento. Por vezes, as que dizem isto apoiam o budismo, que é anterior ao Cristo, apoiam o cristianismo, que tem dois milénios, e o Espiritismo é que está desfa- sado, com cento e cinquenta anos… são pessoas que adoptam o hinduísmo, que tem milhões de anos. Elas não sabem bem o que estão a fazer. O que está por trás dis- so é uma proposta de preconceito contra a doutrina espírita, de um conhecimento de cento e cinquenta anos, que não está nem sequer assimilado pelas criaturas, muito menos envelhecido!
O que é que de mais importante traz a doutrina espírita à humanidade? RT – A capacidade de discernir o bem do mal e, a partir daí, optar pela busca do bem que é a presença de Deus em nós. Há quem não aceite a reencarnação di- zendo que ela dissipa a noção de família. Como comenta esta afirmação? RT – É sempre afirmação de quem igno- ra, porque as ideias trazidas pela tese da reencarnação reforçam os laços de família, mas sabendo que a minha família de hoje não é a família de sempre.
A nossa família consanguínea é um campo de experiências da alma; é um trabalho experimental do espírito. A grande proposta da divindade, ao colocar-nos no seio de uma família con- sanguínea, é trabalharmos para o encontro da nossa família universal. Aprendemos a desenvolver-nos com cinco, seis, dez pessoas no lar, para que um dia apren- damos a lidar com milhares e milhões de almas pelo mundo fora. Então, os laços da reencarnação ampliam a nossa vincula- ção mostrando que aquela pessoa que é nosso vizinho, nosso colega de trabalho, nosso companheiro da sociedade pode ter sido nosso familiar em algum tempo.
Ensina-nos, assim, a ter respeito por todas as pessoas e não somente por aquelas que, no momento, fazem parte do nosso circuito consanguíneo. A mediunidade pode demonstrar que a vida continua após a morte do corpo. Pas- sou-se consigo algum caso que evidencie esta circunstância? RT – Pessoalmente, vivi uma experiência muito bonita. Desde criança, eu via os seres espirituais que vinham dialogar com a minha mãe, que era médium, e via-os de uma forma muito interessante: era muito pequeno, muito miúdo e via-os a atravessar as paredes e a descer pelo telhado como se uma estrada houvesse, aberta até ao chão.
E isso era para mim um motivo de muito entusiasmo, porque não tinha medo e nem entendia por que é que aquilo estava a acontecer. Era muito criança. Depois que me tornei adulto e espírita, o meu pai, três meses depois de desencarnar, mandou-me uma comunicação através de um médium brasileiro que vivia num outro estado e não soube da sua morte. Essa mensagem veio plena de conhecimentos que só eu tinha das conversas com o meu pai, os conse- lhos que me dava e as perguntas que me fazia quando estava prestes a desencarnar.
Tudo isso ele transmitiu na mensagem. A seiscentos quilómetros distantes da minha casa. Não tive dúvidas de que se tratava do meu pai quando me foi narrada aquela comunicação mediúnica. Até porque ele era evangélico, e eu lia-lhe o «Evangelho segundo o Espiritismo» e as obras do IrmãoXe, nessa mensagem, através de um outro médium, ele mandava agradecer a leitura desses precisos livros, referindo que lhe tinham feito muito bem quando chegou ao mundo espiritual.
Ninguém sabia disto. Só eu e ele. Logo, foram episódios muito marcantes, mostrando-me que o meu pai continuava vivo na outra dimensão. Se eu não pudesse esclarecer a mais ninguém na minha vida, já estaria feliz porque consegui esclarecer o meu pai. Quer deixar uma mensagem aos leitores de «Jornal de Espiritismo»? RT – Gostaria de dizer a todos os que tiverem acesso a estas palavras que estejam muito atentos a este momento das nossas experiências, o momento da nossa lucidez, da nossa liberdade de acção, das possi- bilidades que temos de semear o bem à nossa volta e verificar que, se a nossa vida não está como gostaríamos, certamente é consequência do nosso pretérito.
E se somos escravos do nosso passado, somos, sem dúvida, arquitectos do nosso futuro. Ao detectarmos aquilo que não é bom hoje, trabalhemos de tal forma que melhore no futuro. Desejo a todos os leitores do «Jornal de Espiritismo» muitas felicidades no estudo e na vivência da doutrina espírita, na certeza de que Cristo não deseja que fiquemos perfeitos da noite para o dia, mas propõe-nos que nos tornemos homens e mulheres de bem, a partir de agora, do conhecimento que temos e da veneranda proposta do Espiritismo.
