Editorial A viagem foto loucomotiv Uma mentira repetida umas tantas ve
Jornal de Espiritismo nº 26 · Janeiro 2008Página 24 min
Editorial A viagem foto loucomotiv Uma mentira repetida umas tantas vezes, sobre quem tais ouvidos desconhecem, pode ascender a uma aparente verdade... Da altura dos seus cinco anitos de idade, deitou a sua voz doce de criança por ali abaixo, indignado: “Foi a Ludinhas!”. Naquela manhã, acabara de abrir a tor- neira mas a água não jorrou. Como tinha chegado uns minutos antes a senhora que ajudava a mãe, a repetida voz do irmão mais velho gravada na memória do petiz soou a sentença recorrente e falou por ele.
O moçoilo, por sua vez, à medida que en- grossou o timbre ao longo dos anos fazia-se ouvir na ausência da senhora que ajudava a mãe sempre que o dia semanal de arruma- ções se fazia sentir no lar: “Caramba, quem é que me arrumou a secretária?!”. Em jeito de alfarrabista militante, o rapazola constituía um caos organizado no seu metro e meio quadrado de tampo de secretária mais pejado de cábulas de jogos de computador do que de livros escolares.
E nem por isso deixava de ser excelente aluno... Mas soava aos ouvidos do petiz o nome da auxiliar semana a semana, como se os inconvenientes aparecidos no caminho tivessem uma só causa. Para quem se distancia e olha de fora, a patetice é evidente. Para os personagens da história verídica, a razão subjectiva acerta no ponto a 100 por cento. Isso deixa a suspeição de que cada um de nós pode incorrer com maior frequência do que a imaginada – por distracção claro!
– no disparate. Mudem-se as embalagens, pinte-se o cenário com outras cores, vire-se a página do calendário, e mais o que quiser. Mesmo assim, a história repete-se. Pensar mal de outrem dá ainda prazer a al- guém? Parece que sim. A identificação das Um certo homem saiu em viagem de trabalho. O transporte indicado era o avião. Temente a Deus, este senhor sabia que Deus o protegeria. Durante a viagem, quando sobrevoavam o mar, um dos motores falhou e o piloto teve de aterrar de emergência no próprio ocea- no.
Quase todos morreram, mas o homem conseguiu agarrar-se a alguma coisa que o conservasse acima da água. Ficou a flutuar à deriva durante muito tempo até que chegou a uma ilha não habitada. Ao chegar à praia, cansado, porém vivo, agradeceu a Deus por estar salvo da morte. Ele conseguiu alimentar-se de peixe e ervas. Conseguiu usar alguns ramos e com muito esforço conseguiu construir uma casinha. Não era bem uma casa, mas um abrigo tosco, com paus e folhas.
Mas significava protecção. O náufrago ficou satisfeito e mais uma vez agradeceu a Deus, porque agora podia dormir mais protegido de intempéries que se abatessem sobre a ilha. Um dia, ele estava a pescar e, quando ter- minou, viu que tinha conseguido apanhar muitos peixes. Assim com comida abun- dante, estava satisfeito com o resultado do seu trabalho. Porém, ao voltar-se na direcção da sua casa, qual tamanha não foi sua decepção, ao vê-la incendiada.
Sentou- -se numa pedra a chorar e disse em pranto: “Deus! Como é que deixaste que isto acontecesse comigo? Sabes que preciso muito desta casa para me abrigar. Não tens compaixão?”. Nesse momento uma mão pousou no seu ombro e ouviu uma voz dizer: “Vamos?”. Voltou-se para ver quem estava ali a falar- -lhe, e qual não foi a sua surpresa quando viu na sua frente um marinheiro de farda impecável a dizer: - Vamos, viemos buscar-te.
- Mas como é possível? Como é que me descobriram? - Ora, amigo! Vimos fumo e supusemos que estivesse aqui alguém naufragado. O capitão ordenou que o navio parasse e mandou-nos vir buscá-lo no bote que nos aguarda na praia. Assim o náufrago entrou no navio que o levou em segurança de volta aos seus entes queridos. Quantas vezes a nossa “casa se queima” e nós gritamos como aquele homem gritou? Numa epístola aos Romanos (8:28) lemos que todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam Deus.
Às vezes, é muito difícil aceitar isto, mas é assim mesmo. (Em circulação na internet, de autor não identificado) causas de um problema é um dispositivo com que amanhamos a realidade, minuto após minuto, tal como a vemos, no sentido de alcançar segurança e bem-estar. Nem sempre isso se passa com total clareza. O que fica são os andaimes, a estrutura de re- conduzir da mesma forma, por ali abaixo, a alvo recorrente, altura em que o ser sentirá o conforto de ter resolvido a questão.
E no entanto fica tudo em aberto. Num mundo em que muitos de nós faze- mos leituras do que nos rodeia com um cômputo de desagradabilidade, seria bom perguntar a nós próprios porquê. Talvez porque sejamos mestres a contar desvantagens, inspirados pela ganância do ego. A dada altura estamos tão perdidos que não sabemos responder com um sorri- so a um raio de sol vindo do azul do céu ou à pureza cristalina de uma gota de chuva.
O mesmo se passa em relação a quem nos rodeia. Não existem pessoas totalmente ruins nem totalmente boas. Estamos todos a caminho da perfeita bondade. Mas esta- mos no início. Conceder a outrem o direito de errar e mesmo assim dirigir-lhe incon- dicionalmente atitudes fraternas é uma obrigação, tanto mais quanto nós próprios precisamos dessa tolerância. Falar mal de alguém só por prazer doentio é um padrão que convém corrigir, porque a consciência mais cedo ou mais tarde… vai pesar.
Pensar e falar no bem reflectirá pertinho de cada um que assim procede as companhias espirituais correspondentes. Haverá ainda quem não saiba disto?
