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Opinião Cercados por verdejantes campos de café e cana-de-açúcar, dorm

Jornal de Espiritismo nº 28 · Maio 2008Página 106 min

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Opinião Cercados por verdejantes campos de café e cana-de-açúcar, dormíamos, em nossa modesta casa, ao som apaziguador dos milhares de grilos que, assim como nós, humildes lavradores, faziam daquelas terras férteis e ricas a sua morada. Pesadelos: traumas de vidas passadas? Silenciavam e descansavam durante o dia; enquanto os nossos pais laboravam duramente, de sol a sol, para garantir o parco sustento. Depois do sol se pôr, Deus lançava sobre aquelas terras a bênção da noite para o merecido descanso dos trabalhadores, vinham eles, os grilos, aos milhares, com a sua doce sinfonia, embalar- nos num sono profundo e restaurador.

Eu era menino, deveria ter 5 ou 6 anos, e dormia como uma pedra. Mas não todas as noites! Muitas, e digo muitas mesmo, foram as madrugadas em que erámos arrebatados pelos gritos aterrorizadores do meu irmão menor, à epoca com 2 ou 3 anos de idade, que dormia no quarto comigo. Em questão de segundos minha mãe já o tinha ao colo. Tentava acalmá-lo, mas sem sucesso. Ele esperneava, arranhava-a, e continuava aos berros. Os seus olhos permaneciam cerrados, a sua expressão era de terror.

Era como se estivesse num pesadelo do qual não conseguia despertar. Não faz muito tempo, perguntei-lhe se se recordava daquelas noites, daqueles sonhos terríveis. E ele me disse que sim. Perguntei o que o aterrorizava tanto que o despertava daquela maneira. Ele disse que via duas rodas enormes a virem na sua direcção, aproximando-se cada vez mais, e quando estavam a esmagá-lo, começava a gritar. E era sempre o mesmo sonho, as mesmas rodas, o mesmo horrível episódio.

Esta ocorrência é denominada “terror noturno”, um distúrbio do sono caracterizado, como erámos testemunhas, por gritos acompanhado do semblante de terror como se a pessoa estivesse vendo algo terrível, como era o caso do meu irmão. Geralmente, o terror nocturno ocorre na infância e tende a diminuir a partir do início da adolescência. Convencionalmente, a medicina atribui as causas do terror noturno a eventos stressantes da vida, febre, privação do sono e medicamentos que afectam o sistema nervoso central.

No entanto, o meu irmão não tinha nada disso. Não padecia de stresse; excepto nas noites desses episódios, dormia muito bem; não tinha febre e tão-pouco estava a tomar medicamentos que afectassem o sistema nervoso central. Aliás, no meio do mato em que vivíamos e naqueles idos anos 1960, remédio era um artigo de luxo! Curávamos os nossos males à base de chás, simpatias e benzeduras. Poderia o meu irmão estar revivendo um trauma de vida passada, rememorando o momento de uma morte trágica em existência anterior?

No meu livro Morrer não é o fim, no capítulo Marcas de outras vidas, onde abordo defeitos congénitos e marcas de nascença em crianças que se recordavam de vidas passadas e cujas marcas e defeitos estavam associados aos traumas que causaram a sua morte, descrevo o caso de Cemil Fahrici, da Turquia. À medida que o pequeno Cemil Fahrici concatenava melhor as palavras, falava da sua vida passada como Cemil Hayik, um primo distante de seu pai.

Cemil Hayik havia sido preso pelo assassinato de dois homens que violaram a sua irmã. Fugiu da cadeia e passou a ser perseguido pela polícia. Dois anos mais tarde foi encontrado e cercado pelos polícias, que atearam fogo à casa onde se escondia. Para não se entregar, Cemil Hayik suicidou-se; colocando o cano de uma arma sob o queixo, disparou; a bala saiu pela nuca, do lado esquerdo. Além de Cemil Fahrici ter trazido as lembranças da vida de Cemil Hayik, trouxe também as marcas, sob o queixo, onde a bala entrou, e na nuca, onde saiu.

E o que é mais extraordinário ainda: quando Cemil Hayik nasceu, a ferida sob o queixo sangrava! Até aproximadamente aos 7 anos de idade, Cemil Fahrici tinha lembranças vívidas da sua vida como Cemil Hayik em vigília, durante o dia, e à noite, tinha pesadelos do momento da emboscada e do seu suicídio. Cemil Fahrici tinha trauma com sangue e odiava polícias! Outra curiosidade: quando o menino nasceu, os seus pais baptizaram-no com o nome Dahham Fahrici, e quando ele compreendeu que esse nome se referia a ele próprio, recusava-se a responder, dizendo chamar-se Cemil, e os pais tiveram de trocar o seu nome.

A Divisão de Estudos da Personalidade da Universidade de Virginia, departamento este fundado pelo Dr. Ian Stevenson (já desencarnado), o maior pesquisador científico da reencarnação, possui pelo menos 49 casos de terror nocturno com características de traumas de vidas passadas. A doutora Antonia Mills, antropóloga e pesquisadora de reencarnação da universidade de British Columbia, no Canadá, investigou casos de terror nocturno em três crianças norte- -americanas, instando por uma interpretação alternativa (traumas em vidas passadas) em lugar das clássicas e nem sempre fundamentadas interpretações convencionais, ou seja, eventos stressantes da vida, febre, privação do sono e medicamentos que afectam o sistema nervoso central.

Um dos casos mais dramáticos é o do garoto Gerald Jardin (pseudónimo) que, assim como o meu irmão, despertava toda a sua família com gritos na madrugada, desde antes de completar 1 ano de idade. Entre as idades de 2 e 8 anos, tinha os mesmos pesadelos pelo menos uma vez na semana, sempre entre meia-noite e as duas da manhã. A partir dos 8 anos a frequência foi diminuindo e após os 10 anos de idade, nunca mais teve. Gerald despertava com os seus próprios gritos.

Certa vez, num desses episódios em que a mãe tentava acalmá-lo, disse ela: “Tudo bem, filho, a mãe está aqui.” “Tu não és a minha mãe,” gritou o menino. Quando Gerald tinha 4 anos de idade, a sua família deu um passeio a Gettysburg, no estado da Pensilvânia, nos EUA, onde foram visitar o campo de batalha da guerra civil nos arredores daquela cidade, até hoje impecavelmente preservado e um dos marcos históricos mais visitados do país.

Esse local, o qual tive a oportunidade de visitar por duas vezes, entre 1 a 3 de Julho de 1863, foi palco do mais violento confronto entre os soldados abolicionistas da União e os sulistas confederados. Mais de 7 mil soldados de ambas as forças morreram no confronto e mais de 30 mil sairam feridos. Em determinado momento do passeio, Gerald separou-se dos pais, e depois voltou a correr para eles e apontou um lugar onde as tropas confederadas se tinham posicionado durante a batalha.

“Foi lá que eu morri,” disse ele com naturalidade. Os seus pais perguntaram-lhe o que é que ele queria dizer com isso, mas Gerald nada mais falou sobre o assunto. Assim como no caso do meu irmão, as causas do terror nocturno de Gerald nada tinham a ver com as explicações dadas pela medicina convencional. E casos de medos intensos e fobias, cujas causas a medicina convencional igualmente não consegue explicar, sobejam na literatura.

Vem-me à mente neste momento certa vez que perdi um objecto, e por mais que o procurasse, não conseguia encontrá-lo. Reclamei o facto com um tio que estava perto. “Claro que não o encontras, só o procuraste em lugares onde ele não está. Procure onde está e vais encontrá-lo”, respondeu-me. Havia sabedoria nas suas palavras. Sabedoria esta que pode muito bem ser aplicada a certos casos de terror nocturno, assim como a tantas fobias para as quais a medicina não encontra explicação em eventos da vida presente.

Não encontra explicação em eventos da vida presente porque não está aí a causa. Procure-a onde está – em outros tempos, em passadas existências – e a encontrá-la-á. Por Admir SerranoE-mail: admir@admirserrano.