Opinião Dor e livre-arbítrio O livre-arbítrio é uma dádiva dos céus
Jornal de Espiritismo nº 28 · Maio 2008Página 124 min
Opinião Dor e livre-arbítrio O livre-arbítrio é uma dádiva dos céus. Mas a utilização dessa liberdade carece de alicerces sustentados por decisões responsáveis, pois o sofrimento e a dor são partes de um mesmo todo. Os mecanismos da vida e as diversificadas experiências que esta faculta vão facilitando o crescimento do ser humano. As particularidades das ocorrências quotidianas convidam à reflexão e continuamente à coragem, valiosa intermediária entre resignação e atitudes perturbadoras da mente.
Em si mesma, a vida é fonte de motivação na prossecução de uma existência corporal sadia, liberta de circunstâncias febris de dor que, na maior parte dos casos, entroncam em conflitos pretéritos, ocorridos na juventude da alma, onde as resistências morais são mais frágeis. Está provado que as vivências passadas, decorrentes de reencarnações subaproveitadas trazem consigo receios que, mal entendidos, criam predisposição para acontecimentos “programados” pela lógica da lei de Causa e Efeito, um dos pilares filosóficos e fundamentais preconizados pela doutrina espírita, como explicação das contingências da vida humana.
Por sua vez, o sentimento de medo afecta o equilíbrio emocional, baixando as guardas das defesas que dão guarida ao bom uso do livre-arbítrio, que acompanha o ser pensante nos diversificados estágios da sua ascensão evolutiva. De acordo com a resposta dos espíritos superiores à questão nº. 844, de «O Livro dos Espíritos», de Allan Kardec, sabe-se que “há liberdade de agir, desde que haja liberdade de fazê-lo” e que “nas primeiras fases da vida, a liberdade é quase nula”, aprimorando-se e mudando de objecto “com o desenvolvimento das faculdades”.
Pelo menos, cada homem pode agir com independência no tocante à faixa de consciência de que já é portador e onde, por imaturidade, ainda tem medo de amar, acreditando que desta forma as suas raízes se fincam mais solidamente numa segurança “infantil” de falsa superioridade. O que o homem também não se esforça em saber é que o livre-arbítrio, a livre vontade do espírito, “exerce-se principalmente na hora das reencarnações”.
Ao escolher a família ou o meio social, ele sabe bem que provas o esperam, “mas compreende, igualmente, a necessidade destas provações para desenvolver as suas qualidades, curar os seus defeitos, despir os seus preconceitos e vícios”. Elas podem ainda ser uma “consequência de um passado nefasto, que é preciso reparar”, motivo porque as aceita “com resignação e confiança, porque sabe que os seus grandes irmãos do espaço não o abandonarão nas horas difíceis”, como assegura Léon Denis, no capítulo XXII do livro «O Problema do Ser, do Destino e da Dor».
Por isso, sofre. Aguarda-o o passar das existências… De facto, todos usufruímos de livre vontade para aprofundar conceitos, debater ideias, alterar sentimentos ou modelar emoções. Sóanós cabe a tarefa de construir ou quebrar as nossas próprias algemas, porque a vida não se circunscreve ao espaço temporal entre o berçoea tumba. Ela desenha perspectivas de imortalidade que constantemente testam triunfos ou decepções, produzindo alegrias ou desespero incontrolável.
Afinal, é o próprio espírito que na condição de autor dos seus actos produz os fenómenos que o alcançam, na proporção directa da observância ou não das leis divinas. No acto da criação, ele não possui a percepção do bem nem do mal. O instinto guia-lhe a sobrevivência, abrindo-lhe áreas condutoras aos diversos patamares do pensamento e do conhecimento. E a presença da dor vai funcionando como abençoada directriz na concretização do programa de aprendizagem consciente e inconsciente do roteiro de instrução acumulada.
O caminho a percorrer é longo. As experiências são únicas. Evitam-se e reduzem-se os factos que parecem “inadmissíveis”. Protela-se a busca de uma justificação plausível e racional dos mesmos e, mau grado, emergem erradamente as ancestrais crenças religiosas que afirmam estar no repouso absoluto dos céus a felicidade dos bem- -aventurados, ofuscando as ténues bases de uma força interior oscilatória entre a dúvida e a certeza da Doutrina dos Espíritos.
De novo a dor está em palco. O exercício individual do livre-arbítrio não respeitou a zona fronteiriça e os deslizes cometidos deixam “manchas” mais ou menos intensas no tecido espiritual, de acordo com a extensão ou gravidade do mal que o próprio criou, através de reacções profundamente desarmónicas e responsáveis por sofrimentos prolongados. Arrependimento, expiação e reparação serão, como nos afirma o codificador em «O Céueo Inferno», etapas obrigatórias de um percurso a vencer, onde desafios e esforços vão trabalhando o amadurecimento psicológico do ser.
O primeiro passo, o arrependimento, já significará um leve discernimento e uma vontade de fugir à dor… Algo se fez errado!!! A consciência está a despertar. Mas não é suficiente, porque a lei é rígida: é preciso resgatar. A expiação, segundo passo do processo, pode ser atenuada. Uma vez mais o uso do livre-arbítrio. A partilha do amor e da caridade vão revogando os registos do mal praticado por ignorância. Quanto ao terceiro passo, esse reporá o bem onde a imperfeição reinou.
Não será difícil entender que compete assim ao homem usar bem o livre-arbítrio, a fim de multiplicar conquistas, mesmo as derivadas do sofrimento e da dor porque são parte integrante do seu eu, arquivadas pormenorizadamente e catalogadas como elementos dinâmicos e enriquecedores da projecção de si mesmo. Como Francisco Cândido Xavier, o grande médium brasileiro, a cada um caberá assumir: “não aceito que ninguém me dirija … devo ser responsável pelas minhas escolhas e preferências.
” Além do mais, Deus, soberanamente justo e bom, promete não perder de vista um único acto exercido ou sofrido em nome da Verdade e do Amor, mesmo aquele que, sob o véu do esquecimento, parece desaparecer na memória do tempo.
