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Opinião Na rota de Allan Kardec Era manhã cedo quando o «Metro» de Par

Jornal de Espiritismo nº 28 · Maio 2008Página 135 min

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Opinião Na rota de Allan Kardec Era manhã cedo quando o «Metro» de Paris nos deixou junto aos muros do Pére Lachaise. Os portões abriam-se dando acesso a uma imensa paisagem de túmulos seculares, outros nem tanto, mas onde o granito é a rocha dominante e a sobriedade da arte também. Ruas largas, quarenta e três hectares que se elevam em colina suave. Levou algum tempo a encontrar o túmulo do Codificador. Alguém, mais ligeiro, descobriu o tesouro e chamou alto: - Mãe, é aqui!

Uma emoção profunda, um silêncio interior, foi o que senti ao avistar aquele dólmen. Li algures que Herculano Pires referiu um comentário de Francisco Cândido Xavier, quando chegou junto daquilo que eu tinha agora diante dos meus olhos cansados - «O túmulo de Allan Kardec é uma mensagem permanente de luz». E é, de facto. Destaca-se pelo significado da sua estrutura, pela frescura que rescende daquele tapete compacto de flores frescas e pelas vibrações que ali se respiram.

Sentimo--nos pequeninos pelo inusitado da situação e agradecemos a Deus poder viver aquele instante. Na coluna que suporta o busto de Kardec há uma inscrição que, confesso, não li na altura. Iam chegando outras pessoas, cujas línguas eu não conhecia e houve ali um momento mágico. Se por um lado vínhamos, quem sabe, dos quatro cantos do mundo, a verdade é que aquele era o centro do nosso sentir, e isso via-se nos olhos de todos.

Houve uma troca de olhares sentida, húmida pela emoção; um engolir em seco e uma alegria que transcende as satisfações da Terra. Olhares de cumplicidade e silêncio que diz tudo; tínhamos encontrado o sentido das nossas vidas com o Espiritismo e, por isso, éramos profundamente felizes. Foi magnífico! Deixámos o Pére Lachaise como se os pés não tocassem a calçado algo agreste, tal a leveza da manhã. Mas eu precisava viver a rota do Codificador, entendê-la, perceber-lhe os passos.

Por isso, desci a Rua dos Martyres e lá encontrei o número 8. A casa onde foi escrita grande parte de «O Livro dos Espíritos» esconde-se, em parte, dentro de um pátio interior, mas foi fácil olhar as paredes, as tais… onde Kardec se deparou com as pancadas que lhe chamavam a atenção (…). Lugar simples, onde apetecia ficar mais um pouco, paredes velhas que contam coisas. A rua Rochechouart, onde vivia a família das meninas Baudin, era passagem obrigatória para o lugar onde estávamos hospedados e, por isso, a subimos e descemos muitas vezes.

Mas o Codificador afastou-se um pouco de Montmartre e a Passage Sainte Anne era lugar a buscar em seguida. É preciso, pelo menos a mim deu-me jeito, respirar o modo como aquela cidade se movimenta, os padrões por que se rege, para nos impregnarmos do modo como Kardec orientou a sua vida. Fomos descendo a rua, partindo da Ópera, contando, com alguma ansiedade, os números de porta, em placas de esmalte azul. Chegámos. Será possível que, depois de tantos anos, aquele corredor guarde tanta história?

Foi um impacto incrível, como se um íman nos atraísse, e alguém nos dissesse: - Anda; atravessa! Foi quase automático; Aqui confesso que chorei… Lá estava a porta da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e última residência do mestre. Não vou falar de tudo o que girou na minha cabeça naquele momento, lugar único que encontra, na perpendicular, a Passage Choiseul, em galeria coberta de vidro, muito acolhedora, a residência dos Dellane; eram vizinhos.

Viviam todos protegidos por aquela cobertura de vidro em abóbada que deixava passar a luz do sol, já esbatida àquela hora. Que lindo! Finalmente, já a tarde caía, e sempre tentando seguir os passos de Kardec, entramos no Palais Royal. O espaço da Livraria Dentu, onde foi lançado «O Livro dos Espíritos», está agora parcialmente fechado, e a Galeria d´Orléans vai receber obras em breve. Mas as colunas lá estão, magníficas, suportando estruturas que contam sonhos, esperanças, madrugadas….

Crianças brincavam por ali e eu, em silêncio… tentava gerir tanta emoção. Kardec orientou a sua vida num único sentido e, do pátio da Rua dos Martyres ao corredor nobre da Passage Saint Anne, chegou ao Palais Royal, levando, com uma coragem soberba, as suas certezas ao mundo. Anoitecia e, do outro lado, quase em frente, lá estava o Palácio das Tulherias, onde, de vez em quando, Napoleão o chamava para trocarem ideias.

Era tempo de reflectir, tendo em conta o pouco que já li e aprendi, agora enriquecido com a vivência daqueles lugares. E comentei… “Uma emoção profunda, um silêncio interior, foi o que senti ao avistar aquele dólmen.” - Meu Deus, como estamos longe de perceber a grandeza do Espiritismo! Como é que se pode conceber que uma personalidade desta craveira tivesse como finalidade criar mais uma religião? A minha filha, que me acompanhara durante toda a jornada, olhou-me meio zangada, meio desiludida e desarmou- -me.

- Ó mãe, tu, por acaso, leste o que estava escrito na coluna lá do cemitério? Por acaso… não tinha lido. - Deixa que eu mostro-te na fotografia. «Fundador da Filosofia Espírita», dizia a tal coluna! Não sei quem escreveu aquilo, mas parece- me que devia ter o dom da premonição… Agora, basta abrir os olhos e, talvez dê resultado, juntar à simplicidade do coração um profundo afecto por Kardec, cujo rosto sereno continua a envolver-nos numa infindável paz.

Ao gesto anónimo de quem, há cento e quarenta anos, transforma aquele recanto de cemitério num jardim, juntam-se o gorjeio das aves que por ali abundam e os ramos das árvores a desabrochar, numa festa de verde, tocando a frase da pedra que encima o túmulo, são o hino perfeito à beleza da reencarnação. Paira por aqui, na minha mesa de trabalho, um agradecimento sincero a todos os que afinaram as cordas da minha alma, para que elas vibrassem com tanta intensidade ao ter o privilégio de poder percorrer aqueles lugares, mas isso…já acontece há muito tempo.

Por Amélia Reis foto loucomotiv Saiba como na Pág.