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reportagem Crianças e espiritos A aula de infância espírita acabara de

Jornal de Espiritismo nº 3 · 2004Página 75 min

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A aula de infância espírita acabara de terminar há momentos. Ali entrado, não havia como deixar de reparar na alegria dos desenhos coloridos feitos pelas crianças.

Uns passos, aproximei-me. Pude ler: «Espíritos: como os imaginamos». E os desenhos expunhamse: uns revelando conceitos mais diáfanos, outros não.

Inquirida, a jovem e dinâmica monitora do grupo, Ana Isabel, explica: «Esta ideia surgiu logo nas primeiras reuniões, há cerca de um ano. Eu queria saber que noção tinham eles sobre a escola espírita. Pedi-lhes que representassem os espíritos conforme a ideia que tivessem deles. Queria também saber que bases tinham, fosse do que ouviam em casa ou não, se os pais frequentavam por hábito o centro espírita, ou se havia alguma ideia sobre um ou outro filme que tivessem visto...».

Explicado o motivo, percebe-se que o trabalho desdobrou-se naturalmente: noutra parede estão os desenhos dos espíritos-guias de cada uma das crianças, imaginados e gizados por elas próprias. Diz Ana: «Estes desenhos dos guias espirituais foi mais tarde. Depois de explicarmos o que eram os espíritos, que todos somos espíritos, as razões pelas quais não se justificavam nem medos nem confusões, dialogámos sobre isso e então os guiasespirituais vieram mais tarde, até para começarem a pensar um bocadinho em agradecerem em pensamento ao guia espiritual pelos cuidados despendidos».

As crianças que participaram nestas aulas contam entre sete e 14 anos, ou seja, há meninas e menininhas. Confrontámo-las com a obra feita. «Soubeste logo o que tinhas de desenhar?», perguntámos a Sara, de 11 anos: «Soube, porque nós Já tinhamos aprendido que todos somos espíritos e que eles eram parecidos connosco». E como explicas o nome Fernando Dias, que lhe deste? «Acho o nome bonito e simples e acho que o meu guia espiritual também deve ser simples», responde com prontidão. Na camisola lê-se Resina. Pergunto o que é: «Ê uma marca de roupa». Está explicado!

Joana tinha 13 anos quando desenhou o seu guia imaginado. E o porquê do nome Bartolomeu? «Foi à sorte», comentou adiantando que já tinha ideia do que era um espírito: «Vi um filme, O sexto sentido. A minha mãe disse que apareciam lá espíritos, que eram como as pessoas», diz referindo-se com certeza ao psí]clólogo desencarnado interpretado por Bruce Willis.

* Manta no chão, há que apreciar o trabalho de casa

Mais novinha, Tâniaseis anosnão destoou no desenho. Chamou ao guia João Ratão, mas já foi há tanto tempo que, encabulada, fica sem palavras: já não lembra a razão desse nome!

Sete anos, Catarina representa-se ela própria e o seu «anjo da guarda» no desenho. Chamou-lhe João Sabichão. Porquê? «Porque acho engraçado», diz em tom de resposta completamente óbvia!... Como é que eu não a sabia! Adianta: «João veio-me à cabeça. E(Ilembreífme da outra palavra por causa de uma cassete de um peixe que se chama Sabichão». Ficou explicado. Divaldo Pereira Franco, conhecido orador e médium da Bahia (Brasil) foi uma pessoa, entre outras, que aguardava em criança pelo compincha de brincar.

Era uma brincadeira com este espírito tão natural que para ele significava tanto como outro companheiro qualquer. Contou-nos o caso numoa entrevista.

Ele tinha uma pena, uma única pena na cabeça — explica com gestos onde estava a pena — e o tom da pele era diferente, e comecei a brincar. Perguntei como se chamava. Ele disse-me:

- Jaguaraçu. Di, tens um amigo, e brincou comigo. A partir daí brincávamos sempre os dois. Os meus pais ficavam preocupados, porque viamme a conversar sozinho como se estivesse acompanhado. Mas para mim era normal. E corria lá em casa, brincava com Jaguaraçu.

Ele era uma pessoa física, crescia. Quando completei 12 anos, disse-me:

- Olha, agora vou-te deixar porque vou reencarnar. E perguntei:

- Mas como é que vais nascer de novo? -Sou um espírito. A Divindade permitiu que ficasse a teu lado ãara brincar contigo, para evitar contactos perturba Oores e, à parlir de agora, vem outro espírito que vai ficar contigo durante a adolescência para te ajudar.

Muitos anos depois, em 1952, deixaram uma criança na lata do lixo na porta da Mansão do Caminho, a

| As reuniões de infância são um factor vitalizador

indispensável no centro espírita

obra social que fundámos. Tomei-a e, muito emocionado, lembrei-me: Jaguaraçu. Registei o bebé como meu filho e em homenagem àquele índio dei-lhe o nome de Jaguaraçu Pereira Franco. Se por um lado não é nada aconselhável que crianças se iniciem em sessões mediúnicas, participando ou até apenas assistindo, como Allan Kardec recomenda*, por outro as ocorrências espontâneas não parecem problemáticas. Longe das cores carregadas dos casos obsessivos, encarar o conceito de espírito desencarnado de forma natural e suave, explicando que são pessoas como nós próprios só que sem o corpo físico, resulta em instrução.

Falando com uma psicóloga inteirada deste assunto, deixou-nos declarações como estas: «Quando a criança forma a crença de que as pessoas “morrem” e ficam bem na mesma, que se tornam anjos e vão para sítios melhores, isso é positivo. Mesmo perante situações da sua vida em que depararão com a morte, esse acreditar pode ter muita influência: elas não a verão como algo tão negativo ou assustador; sabem que depois não desaparecem e quando morrer ãguóm da família conseguirão lidar melhor com isso.

«Já atendi vários alunos com problemas relacionados com este assunto. Adolescentes que perderam alguém de família e estavam com dificuldade em lidar com isso. Quando lhes falei acerca das pessoas continuarem vivas, irem para o “céu” e ficarem bem, sugeri que lhes "telefonassem" nas orações dizendo afectivamente o que sentiam com a sua falta. Deu bom resultado, ficaram com aquela sensação de que afinal nada tinha desaparecido totalmente. Isto são factos, é o que vejo nas consultas.

«Pegar nas crenças que eles têm de que existe algo além da vida, de que não termina tudo, isso conforta-os ao lidar com experiências de vida tão difíceis como a morte de um ente querido, por exemplo».

* O Livro dos Médiuns, Allan Kardec, CAPÍTULO XVIII, DOS INCONVENIENTES E PERIGOS DA MEDIUNIDADE

Texto e fotos: Jorge Gomesjorge.je&clix.pt

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