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Jornal de Espiritismo nº 30 · Setembro 2008Página 143 min
Opinião foto loucomotiv O esconderijo da chave Tenho um fascínio por construções de pedra, mais especificamente, granito. É de tal ordem a «queda» que, se não conhecesse a doutrina espírita, passaria, aos meus próprios olhos, por ser uma séria mania. Porém, e porque acredito na reencarnação, vou-me incluindo naqueles que, noutro tempo, tiveram determinado tipo de vivências que, hoje, lhes influenciam os gostos. No entanto, a regressão a vidas passadas não me seduz porque, em «O Livro dos Espíritos» se aprende a técnica do conhece- -te a ti mesmo e se abordam as tais tendências… que os distraídos poderão rotular então de (…) «manias.
» Um destes dias tive oportunidade de passar a pente fino uma dessas modestas construções e deparei, bem à mão de semear, do lado da fechadura e logo depois da ombreira da porta, um pequeno nicho de pedra aparelhada em arco. Uma lajezita, solta, tapava a entrada. Então o meu pai explicou que aquilo era, por tradição na terra, «o esconderijo da chave.» Curioso! Como é que é possível que, há mais de cem anos, fosse regra corrente, que ao construir uma casa, não se descurasse, como se de pormenor arquitectónico se tratasse, o tal «esconderijo da chave», em sítio bem visível e habitual, pelos vistos, aos outros habitantes do lugar.
Santa simplicidade!!!, dirão os leitores. Que lição, caramba!!!, pensei eu. É que, neste mundo em que vivemos, parece que temos que nos defender de tudo, afinal uns dos outros, com blindados e alarmes, muros e portões altos, armas de fogo e vigilância electrónica, passando pelas grades altas das prisões, esquecendo- -nos, pelo menos aparentemente, de que estamos em igualdade de circunstâncias, sem protecção que nos valha, outra que não seja a Mão do Criador.
Através das Leis Universais aprendemos qual a nossa condição no Mundo e percebemos o quão somos vulneráveis e transitórios, nesta e noutras passagens por este planeta. Não faz sentido que os homens tenham medo dos homens, se escondam, se martirizem enfim…, como se o valor da vida passasse por aíea felicidade também. Ao pensar na poesia daquele «esconderijo de chave», remetemos o nosso pensamento até àqueles que nos precederam na missão de transformar a Terra num mundo mais feliz e mais justo e também à lição que deixaram, com humildade, um pouco espalhada por esse mundo fora.
Almas que passaram anonimamente, fazendo parte da população espiritual do nosso planeta, que não sabiam de telemóveis nem de energias, mas que tinham a noção exacta da protecção divina. Nessa noite, porque o calor apertava, estive um bocado à janela. Nem um zumbido se ouvia; toda a aldeia estava envolta por um imenso manto estrelado, sem guardas ou outra coisa parecida, a não ser lá muito longe, na cidade, que se distinguia pela iluminação sobre a colina do castelo.
Mas também não era preciso… Eu acredito que, um dia, o nosso mundo há-de ser igual àquele pedacinho de terra, protegido por aquele pedacinho de céu. Porque foi isso que os Espíritos Superiores disseram. Não faz sentido que os homens tenham medo dos homens, se escondam, se martirizem enfim…, como se o valor da vida passasse por aíea felicidade também. Por isso, vale a pena pensar no «esconderijo da chave», na mensagem que ele contém, até porque a chave da felicidade está no mais belo esconderijo humano – o coração.
Quando os Homens pensarem com o coração, utilizando a chave do Amor, a vida deslizará serena, e a paz… estará por aí. Entretanto, alheemo-nos um pouco das lutas, injustiças, incompreensões que nos invadem as horas e, inundemos a nossa alma da ternura e força daqueles que construíram, com fé, como em apelo silencioso à fraternidade, o tal «esconderijo», que até parece coisa de criança, mas que pode ser bem mais abrangente e profundo de significado.
E, aí vai uma onda de esperança!
