Editorial foto loucomotiv foto loucomotiv Dizia Joana a Manuel, depois
Jornal de Espiritismo nº 32 · Janeiro 2009Página 24 min
de uma de- claração apaixonada: «Não me conheces bem. Dizes isso só porque sou uma tela onde projectas as tuas melhores expec- tativas». Seria verdade? Projecções. O relacionamento humano, vida após vida, anda à baila com elas. Base de conflitos, de construções posi- tivas na área afectiva, alimenta-se cons- tantemente delas, num fluxo e refluxo contínuo, capaz de disparar as sinergias do ser rumo ao porvir.
Que seria de nós sem as projecções que fazemos sobre uns e outros? Expectativas positivas podem levar a decepções, ou não, mas se não fizesse parte da nature- za humana tê-las, a evolução seria mais acanhada e coxa. «Aquela criatura parecia tão bom ra- pazinho, e olha no que deu», diz Mário Beltrano sobre Fulano. Pensar mal dos outros não faz bem à saúde, seja ela física ou mental. O contacto interpessoal num grupo im- plica uma tomada de conhecimento de cada personalidade do grupo.
Ninguém conseguirá tomar de pronto a noção pormenorizada do contorno de cada individualidade. Por isso, na avaliação que vai fazendo, mesmo inconscientemente, agrupa dados considerados como adqui- ridos ou prováveis e, no resto, usa uma técnica própria das percepções imperfei- tas: une os pontos conhecidos com uma linha de continuidade para conseguir delinear uma visão de conjunto. No plano dos afectos, quando a previsão é medianamente acertada, consolida- -se uma amizade que pode perdurar no tempo.
Se houver dias obscuros nessa dimensão sê-lo-ão tanto mais quanto mais frequen- te for a convivência: nessa circunstância as arestas da personalidade chocarão num atrito desarmónico podendo gerar receio e afastamento. Esta técnica vai resultando no dia-a-dia, mas não é perfeita. Daí as decepções, resultado de um fraco conhecimento de outrem. Em todos os casos a esperança é capaz de lançar lastro ao trabalho, à amizade, como uma luz que insiste em brilhar sobre o breu do pessimismo e do desalento.
O início do novo ano é outro tipo de pro- jecção. Nos cenários exteriores ao ser, são inúmeras as projecções, em muitos casos pouco optimistas. Importa relembrar a ideia de que os ami- gos da Espiritualidade, que nos querem bem, se preocupam não tanto com as tribulações que assaltam o caminho evo- lutivo mas sim com a forma como lhes reagimos. Possa assim este novo ano ser cheio de realizações, para todos e para si, caríssimo(a) Leitor(a), na certeza de que além das nuvens que orquestram a tempestade o Sol continua a brilhar num imperturbável céu azul, aguardando ape- nas que o calendário climático se cumpra para voltar a animar a vida.
Por Jorge Gomes O alpinista Esta é a história de um alpinista que procurava superar sempre mais desa- fios. Ele resolveu, depois de muitos anos de preparação, escalar uma certa monta- nha especial. Mas queria a glória só para si, e resolveu escalar sozinho, sem nenhum companheiro, o que seria na- tural no caso de uma escalada de muita dificuldade. Ele começou a subir e foi ficando cada vez mais tarde; porém, ele não se tinha preparado para acampar.
Resolveu seguir a escalada, decidido a atingir o topo. Escureceu e a noite caiu como breu nas alturas da montanha e não era possível já enxergar um palmo à frente do nariz; não se via absolutamente nada. Não ha- via luar, e as estrelas estavam cobertas pelas nuvens. Subindo uma “parede” a apenas 100 metros do topo, ele escorregou e caiu. Caía a uma velocidade vertiginosa. Con- seguia apenas ver as manchas que pas- savam cada vez mais rápidas na mesma escuridão e sentia a terrível sensação de ser sugado pela força da gravidade.
Ele continuava a cair... nesses angus- tiantes momentos, passaram pela sua mente todos os momentos felizes e tris- tes que ele já tinha vivido na sua vida. De repente, sentiu um puxão forte que quase o partiu ao meio... Como todo o alpinista experiente, tinha cravado pitões de segurança com cos- turas a uma corda que fixou na cintura. Nesse momento de silêncio, suspenso pelos ares na completa escuridão, não lhe sobrou mais nada além de gritar: - Ó MEU DEUS!
AJUDA-ME! De repente uma voz grave e profunda vinda do céu respondeu: - QUE QUERES DE MIM, FILHO? - Salva-me meu Deus, por favor! - REALMENTE ACREDITAS QUE EU TE POSSO SALVAR? - Eu tenho a certeza, meu Deus! - ENTÃO CORTA A CORDA QUE TE MAN- TÉM PENDURADO... Houve um momento de silêncio e refle- xão. O homem agarrou-se mais ainda à corda e reflectiu: «se fizer isso morro»... Conta a equipa de resgate que, no ou- tro dia, encontrou um alpinista congela- do...
morto... agarrado com força... com as suas duas mãos a uma corda... A TÃO- -SOMENTE DOIS METROS DO CHÃO...
