Crónica Uma Era de Espiritualidade Na mesma altura em que saiu «O Livr
Jornal de Espiritismo nº 33 · Março 2009Página 152 min
Crónica Uma Era de Espiritualidade Na mesma altura em que saiu «O Livro dos Espíritos» também viram a luz do dia obras de tanto impacto como «O Capital», de Karl Marx, ou «A Origem das Espécies», de Charles Darwin. Hipólito Rivail assinou «O Livro dos Espíritos» com o pseudónimo de Allan Kardec. Não o fez para se “esconder”, e tanto assim que viria a assumir totalmente o seu compromisso com a Doutrina dos Espíritos, mas para que o seu nome, já consagrado, não tivesse influência na aceitação da obra.
«O Livro dos Espíritos» não logrou a aceitação global de outros tratados que efectivamente revolucionaram o pensamento humano. Não dizemos que tal não venha a suceder, mas por enquanto o Espiritismo está longe de ser conhecido e aceite pela maioria da Humanidade. Tivesse Kardec (ainda bem que não o fez) apresentado as ideias constantes de «O Livro dos Espíritos» como suas, e não dos Espíritos, e talvez o impacto tivesse sido maior e mais rápido...
Ao invés, nos círculos letrados, o Materialismo fez escola. Desde meados do século XIX que passámos a viver, de facto, numa era de materialismo exacerbado. O materialismo científico relegou a ideia de Deus e do Espírito para o campo da “crença pessoal”. O sentido de religiosidade passou a ser visto como uma fraqueza humana. Os avanços da Ciência deslumbraram e atiraram para a categoria das crendices sem valor tudo o que tenha a ver com Espiritualidade.
As narrativas bíblicas, tomadas à letra pelas religiões, escandalizam e acicatam a hostilidade aberta dos materialistas. “Sete dias da Criação? A Terra é o centro do Universo? Adão e Eva foram os primeiros seres humanos?”. Compreensivelmente, a Bíblia tomada à letra aproxima-se do ridículo, para não falarmos já das contradições permanentes, e das atrocidades da lei civil moisaica, que mandava por exemplo, apedrejar até à morte os filhos rebeldes...
No campo do chamado materialismo prático, a passagem das recompensas e dos castigos eternos para a categoria de fábulas deu livre curso à ânsia de “gozar a vida”. O capitalismo selvagem, seja ele de mercado ou de Estado, reduz os seres humanos à condição de máquinas produtivas, para enriquecerem elites fascinadas pelo dinheiro, como objectivo máximo da vida. Tivesse Kardec apresentado as ideias constantes de «O Livro dos Espíritos» como suas, e não dos Espíritos, e talvez o impacto tivesse sido maior e mais rápido...
O século XX conheceu períodos em que o culto do psicadelismo atingiu proporções impressionantes, com todo o cortejo de miséria física e moral associado. “Gozar a vida, aproveitar os curtos anos de que dispomos neste planeta, somos filhos de um acaso cósmico” - eis o raciocínio ainda prevalecente. À ditadura religiosa, que impunha jejuns e sacrifícios em nome da ameaça das chamas do Inferno, sucedeu o materialismo mais agreste.
A dialéctica de Marx convida-nos a esperar que a esta tese e antítese suceda uma síntese mais equilibrada. Para nós, espíritas, está aí à porta não o Fim do Mundo, mas o fim de um mundo. O fim de um mundo de extremos: de religiosidade cega e de materialismo egoísta. Não esperamos uma era de Espiritismo, mas uma era de Espiritualidade.
