Pedagogia Ele está a rir agora Maria é uma menina de 7 anos alegre, si
Jornal de Espiritismo nº 34 · Maio 2009Página 155 min
Pedagogia Ele está a rir agora Maria é uma menina de 7 anos alegre, simpática, extrovertida. Sempre que passava num determinado lugar da sua casa, no cimo das escadas, ela ficava receosa de estar ali sozinha, chamava pelos pais. Um dia a mãe, espírita, percebeu a sua hesitação constante naquele preciso lugar. Ao acompanhá-la até ao seu quarto perguntou-lhe de que tinha medo. A Maria contou que em cima de um armário estava um homem com um rosto estranho.
foto loucomotiv A mãe de Maria explicou-lhe que não tivesse medo. Era um amigo dela, de quem ela já não se lembrava, e que apesar de não o ver, sabia muito bem que ele existia e apenas estava ali porque andava perdido. A Maria relatava: “ele está a rir agora”. A mãe continuou com calma a esclarecer a filha de que aquele “visitante” não lhe pretendia fazer mal e ao mesmo tempo foi esclarecendo o espírito de que encontraria conforto e palavras amigas num centro espírita que ela frequenta.
Ao fim de alguns minutos, Maria exclamou: “ele já desapareceu!”. Todos os dias chegam, aos centros espíritas, pais angustiados com relatos de crianças que vêm ou ouvem espíritos. Os pais sentem-se perdidos: “deverei acreditar no que o meu filho diz?”; “será que ele vê mesmo alguma coisa?”; “serão alucinações?”, “serão chamadas de atenção?”. As crianças, por sua vez, sentem-se inadaptadas, deprimidas e revoltadas, por não compreenderem o que se passa com elas.
Explica-nos Emmanuel, no livro o Consolador de Francisco Cândido Xavier que nos primeiros 6/7 anos de vida, o processo de reencarnação, para o espírito, ainda não está concluído ou encontra-se, em fase de adaptação para a nova existência que lhe compete no mundo. Nessa idade, ainda não existe uma integração perfeita entre ele e a matéria orgânica. As suas recordações do plano espiritual são, por isso, mais vivas, tornando-se mais susceptivel de renovar o carácter e estabelecer novo caminho, na consolidação dos princípios da responsabilidade… Em O Livro dos Espíritos é esclarecido que a perturbação que o acto da encarnação produz no espírito não cessa de súbito, por ocasião do nascimento.
Só gradualmente se dissipa, com o desenvolvimento dos órgãos.(p.380) É portanto um período de repouso do espírito. (p.382) Daqui se depreende que cada criança tem características próprias e a mediunidade manifesta-se de acordo com as suas condições individuais. Segundo o Drº Sérgio Filipe de Oliveira, a mediunidade da criança é diferente no adulto. É uma mediunidade anímica, é de saída. Ela sai do corpo e entra em contacto com o mundo espiritual.
Para este investigador, director da AMESP-Associação Médico-Espírita de São Paulo, a mediunidade é um atributo biológico e acontece pelo funcionamento da pineal que capta o campo electromagnético, através da qual a espiritualidade interfere. No pequeno estudo que fizemos parece existir um consenso de que na infância a mediunidade é espontanea e surge como efeito de uma transição natural. Talvez por isso, a mediunidade tem sido confundida em psicanálise com os amigos imaginários.
Estes surgem, como uma negação da solidão ou como simples chamada de atenção por parte da criança. Como saber distinguir o que é mediunidade da imaginação infantil? Observando o comportamento da criança, as suas reacções, os factos que narra, sem interferir, nem julgar de antemão se eles são ou não reais. Uma das questões frequentes é se “Haverá inconveniente em desenvolver-se a mediunidade nas crianças?” No Livro dos Médiuns de Allan Kardec temos a resposta: “Certamente, e sustento mesmo que é muito perigoso, pois que esses organismos débeis e delicados sofreriam por essa forma grandes abalos, e as respectivas imaginações excessiva sobreexcitação.
” É importante distinguirmos a mediunidade natural da provocada. Quando falamos em desenvolvimento da mediunidade na infância, ocorre-nos de imediato os perigos de brincadeiras como o “jogo do copo”, aparentemente inofensivo mas que pode ser o trampolim para graves desequilíbrios mentais e obsessivos. Desconhecendo a responsabilidade que envolve a comunicação com os espíritos, e não estando a criança preparada, nem protegida do assédio de espíritos menos esclarecidos e zombeteiros, é quase certo que estes se aproveitariam da sua fragilidade e inocência infantil.
O brincar de mediunidade, como afirma Martins Peralva, estimulado pela curiosidade natural das crianças, sem a protecção dos adultos, no seu entender, só traz aspectos negativos. Assim consideramos que é extremamente importante o acompanhamento, atento e responsável, dos pais e educadores em geral. Os pais devem evitar a negação do ocorrido porque ao desacreditar a criança incorre numa grande injustiça, contribuindo para a criação de conflitos interiores, e desequilíbrios emocionais que podem levar á perda da auto-estima, ao isolamento, à revolta, à fobia social; a valorização do fenómeno uma vez que o acontecimento tem explicação e é natural; demonstrar medo ou insegurança pois o exemplo que os pais dão, é aquele que fica, daí que a reacção do adulto deve ser segura, carinhosa e compreensiva; criar expectativas, relembrando o fenómeno vezes sem conta, pode criar na criança uma vontade de agradar ou repeti-lo mais vezes, o que pode levar a que não ocorrendo o fenómeno, ela seja levada a imaginá-lo.
O ideal é que os pais e familiares possam encorajar o diálogo sincero, para que a criança esteja aberta a comentar tudo o que vê, ouve e sente com naturalidade; promovam o estudo adequado à idade do Evangelho Segundo o Espiritismo e sobretudo que compreendam os efeitos benéficos da oração diária, como forma de elevar o pensamento e assim proteger-se da acção de espíritos ignorantes e brincalhões. A mediunidade não é, portanto, um dom, nem uma capacidade excepcional.
É um atributo do espírito, mais um sentido como afirma a Dr.ª Marlene Nobre. O espírito Odilon Fernandes compara a mediunidade á capacidade reprodutora do homem: todos temos essa capacidade, no entanto alguns não nascem férteis. Isto significa que a qualquer altura, seja em que idade for, a mediunidade pode surgir de forma ostensiva. Nas crianças ela é natural porque o espírito ainda se adapta ao corpo físico e tem uma maior percepção do mundo espiritual.
A mediunidade pode ressurgir mais tarde, na juventude ou em idade adulta, se esta vem como tarefa e missão a desenvolver. Daí que se for devidamente esclarecida na infância, mais tarde ela está preparada para esta responsabilidade. Muitos pais questionam-se do porquê de eclodir a mediunidade na infância, com que objectivo, se depois mais tarde ela tende a desaparecer. Ela surge, essencialmente como prova para os pais e restante família despertarem para a vida espiritual.
O que parece um “pesadelo” torna-se assim numa oportunidade divina de progresso. Por Regina Saião O brincar de mediunidade, ..., estimulado pela curiosidade natural das crianças, sem a protecção dos adultos, ..., só traz aspectos negativos.
