Crónica Poetas, filósofos & espíritos «Ah!
Jornal de Espiritismo nº 34 · Maio 2009Página 143 min
Crónica Poetas, filósofos & espíritos «Ah! Então é verdade que existe na mansão do Hades uma alma e uma imagem que não tem, contudo, espírito algum! Toda a noite a alma do miserando Pátroclo esteve comigo, a gemer e a lamentar-se e a fazer-me recomendações! Maravilha é a parecença que tinha com o próprio!» foto arquivo Da passagem da I líada acima transcr ita há, cer tamente, quem sor r ia entre o irónico e o complacente; porém, é de todo conveniente abr ir-se às possibilidades ocultas nos mais que nove décimos de matér ia (energia) invisível, dita escura, a qual, nos seus diferentes estados de condensação e diversas frequências vibratór ias, pre visivelmente nos oferecerá uma enor me r iqueza de for mas de vida.
Senão existe qualquer er ro de tradução, o substantivo espír ito surge com uma acepção que não a de S er, porque uma alma com imagem é um espír ito. Talvez Homero, de quem, ao cer to, pouco se sabe, pretenda com espír ito significar tão -somente vida – e é sabido que tanto para os mater ialistas que nada crêem em para além da mor te quanto para os espir itualistas que crêem, em um futuro indeter minado, na ressur reição da car ne, vida é sinónimo de cor poralidade.
Daí, talvez, a per plexidade do poeta perante a vista de uma for ma incorpórea em tudo semelhante com a for ma cor pórea de alguém que havia mor r ido. Ignorando ou fazendose ignorante desse cor po espir itual – matér ia subtil – a estranheza de Homero já não se manifesta com a presença junto de si do tal Pátroclo a gemer e a lamentar-se e a fazer- lhe recomendações, o que pode indicar a usualidade das comunicações psicofónicas – e são célebres as pitonisas e o crédito que se lhes dava.
E tanto havia a tradição de uma continuidade do ser para além da mor te que o encontro visual com a refer ida alma ser viu para constatação como verdade do que se falava; continuidade essa consciente, porque se um ser sem apercepção pode gemer e lamentar-se, só quem tiver o sentimento da própr ia consciência pode fazer recomendações possíveis de serem aceites como tal, como é o caso. M itologia? Ou um saber claro transmitido com o velamento da poesia, tanto ao gosto dos présocráticos?
Pois que dizem, hodiernamente, a psicologia transpessoal, a regressão de memór ia, a transcomunicação instrumental…? S erão, pois, os poetas, uns grandes e eter nos fantasistas? Heidegger, o filósofo que perambulou obstinadamente em tor no do S er, amava intelec tualmente a poesia, percebendo -a como a por ta de acesso à verdade desse mesmo S er ; só não encontrou essa verdade porque não tinha o sentir do poeta. M as entendeu per feitamente que a prosa, par ticular mente a filosófica, apenas dá daquela intuição fundamental acerca do S ein um eco degradado.
(S e Heidegger, espír ito, já se tiver conver tido à fala or iginal, a poesia, também terá cer tamente aceite D eus e resolvido intimamente a angústia do Dasein.) Marco Aurélio escreveu um dia: Se alguém me conseguir mostrar e provar que estou errado no pensamento ou na acção, eu mudo de bom grado. S erão, também, os poetas uns fingidores? Na cor respondência com Adolfo Casais M onteiro, Fernando Pessoa é bem claro ao falar da or igem mediúnica dos poemas; no entanto, que alter nativa lhe resta senão ser um fingidor quando a intelligentsia reduz espír itos a heterónimos e a mediunidade a fantasias?
M arco Aurélio escre veu um dia: “S e alguém me conseguir mostrar e provar que estou er rado no pensamento ou na acção, eu mudo de bom grado. Eu procuro a verdade, o que ainda nunca magoou ninguém. S ó a persistência na autoilusão e na ignorância é que magoa.” Por A.
