Editorial Numacidadeceleste Quando Joaquim Pires desencarnou, crente s
Jornal de Espiritismo nº 35 · Julho 2009Página 26 min
Editorial Numacidadeceleste Quando Joaquim Pires desencarnou, crente sincero e praticante, procurou as portas do Céu. Combatera as próprias paixões, distri- buíra benefícios sem cogitar de recompen- sa, humilhara-se a favor dos outros, sempre que as circunstâncias lhe aconselhavam serenidade e renúncia. Em suma, Joaquim fora um homem bom. Todavia, como vivemos sobremaneira distanciados das criaturas perfeitas, andava preocupado com a ideia de repousar no Paraíso.
Não tivera ocasião de provar-se em testemunhos reconhecidamente difíceis e angustiosos. No entanto, acariciava o pro- pósito de anestesiar-se no “outro mundo”. Queria descansar, esquecer, embriagar-se no êxtase divino... “Morreu”, por isso, sem receio algum. Despediu-se, quase contente, dos familia- res. Parecia andorinha humana, no júbilo de buscar a primavera noutras paragens. E, com efeito, tantos méritos detinha consigo, que prodigioso fio de luz assinalava-lhe o caminho, desde o túmulo até às portas de uma cidade resplandecente.
Aí chegado, Joaquim, premido pela emo- ção, empalidecera de regozijo. Enlevado, notou que, lá dentro, havia felicidade e luz, mas inequívocos sinais de trabalho tam- bém... Ruídos de actividade salutar e sons de campainhas inquietas alcançaram-lhe os ouvidos surpresos. Antes de se entregar a maiores perquirições íntimas, simpático mensageiro veio recebê- -lo no limiar. - É aqui o Paraíso? – inquiriu. - Sim – informou o interpelado, gentilmente -, estamos numa cidade celestial.
- Quer dizer, então, em boa geografia, que já não respiramos a atmosfera da carne... – tornou o recém-chegado, hesitante. - Não tanto – esclareceu o enviado fraterno. De tímpanos aguçados, Pires registou a chamada dos clarins de serviço e conside- rou, tímido: - Meu amigo, é que eu não sou mais do número dos “vivos”... O outro completou-lhe a frase reticenciosa, asseverando: - Não padece qualquer dúvida... - Mas – prosseguiu o “morto” adventício -, trabalham, ainda aqui?
- Muitíssimo. - Há, nesta cidade, horários, distribuições de tarefas, responsabilidades individuais, disposições de lei, lutas e conflitos? O mensageiro esboçou expressivo gesto de complacência e observou: - Acredita que a morte da carne, mero fenómeno da Natureza, purifique o Espírito milagrosamente? Temos enorme serviço a fazer. E o repouso para nós é lição, reparo ou estímulo. A nossa felicidade não se cris- talizaria em altares imóveis.
- Oh! – clamou Joaquim, aflito – a justiça ensinava-me no mundo que há um Paraíso para os bons e um Inferno para os maus. - E você – interrogou o companheiro, inten- cionalmente – se julga perfeitamente bom? - Não – respondeu Pires com humildade não fingida -, sou um pecador, bem o reco- nheço; contudo... francamente, não admitia houvesse tanto serviço após o sepulcro. - Suporá inoportuno e intempestivo o nosso propósito de luta e solidariedade, melhoria e reconstrução?
Quem não é infinitamente bom deve amparar quem não é infinitamente mau. É imprescindível atender aos imperativos da vida. Só Deus é o Absoluto. - Sim, compreendo... – resmungou Joaquim, descoroçoado – todavia, sonhava com a paz perfeita. - E continuou: - Existe aqui chefia e subalternidade? - Perfeitamente. - Servidores melhores e piores? - Sim, em mais elevado padrão de justiça e aproveitamento. - Há estudos e provas, especializações e obrigações?
- Muito além dos ensaios que efectuamos na Terra... - Há probabilidades de erro e dúvida, dis- cussão e negação? - Em todas as rotas de acção, porque o livre- arbítrio da alma evolvida é naturalmente chamado a cooperar na estruturação dos destinos, com a supervisão da Vontade de Deus. - Consequentemente – prosseguiu Joaquim -, há reparações e punições, desequilíbrios e dificuldades. - Exactamente. Não ignora que onde o erro é possível deve existir recurso para a corrigenda.
O recém-desencarnado meditou, meditou e aduziu: - Procuro repouso inalterável... Quem sabe resplandece em esfera mais elevada o céu que busco? - Assim não é – disse-lhe o interlocutor. Quanto mais alto subir, mais trabalho en- contrará, embora em condições diferentes. Pires sentou-se, apalermado, sob indizível abatimento. O emissário fixou um gesto de bom humor e acentuou com clareza: - Parece-me que o Paraíso, sonhado por si, é o éden da espécie “Limax arborum”.
Essas criaturas, que no fundo são igualmente filhas de Deus, organizam o próprio lar, através de folhas e flores. Aquietam-se e dormem descansadas sob a claridade do firmamento. Nada perguntam. Não riem, nem choram. Desconhecem os enigmas. Não sabem o que vem a ser aflição ou dor de cabeça. Alimentam-se daquilo que encontram nas árvores preciosas da vida. Ignoram se há guerra ou paz, dificulda- des ou pesadelo entre os homens.
Vivem alheias aos dramas biológicos, aos conflitos espirituais e, se um cataclismo fulminasse o Universo em que nos achamos, não regista- riam grandes diferenças... - Oh! – gritou Joaquim, repentinamente entusiasmado – quem são esses seres privilegiados? - São as lesmas – esclareceu o emissário, sorrindo -, e se descer, suficientemente, encontrará o paraíso delas... Joaquim modificou a expressão facial e, embora consternado, quando ouviu falar em lesmas, resolveu entrar.
Adaptado de: http://www.omensageiro. com.br/mensagens/mensagem-725.htm Eh, pá! Confesso que não me lembraria se os companheiros não evocassem a data: num sábado de Julho de 1999 apresentou- -se o projecto a cerca de 20 pessoas convi- dadas, nas Caldas da Rainha. O nome já vinha proposto: Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal. Tendo grande parte destes elementos ex- periência de trabalho no movimento espí- rita português, a argumentação de Adonay Barreto, o designer gráfico de Manaus, Bra- sil, que tanto colaborou com a organização do encontro nacional de jovens espíritas de Viana do Castelo, desencalho o projecto, já pensado, mas sem ter nascido.
Tudo numa simples viagem do Porto para Viana, no mesmo carro, depois do sol-posto. Gizou-se dias depois a estratégia do pro- jecto da associação de divulgadores. Uma associação que não se metesse em política, que juntasse profissionais de áreas com uti- lidade para uma divulgação do espiritismo com qualidade, que percebessem os con- teúdos doutrinários, e que poderiam servir o movimento em geral nessa perspectiva, quando solicitado.
Professores tratariam da área da didáctica na comunicação dos conceitos. Um dos projectos seria já uma forma de através de site e de e-mail criar um curso básico de espiritismo assente em dez apostilas entre- tanto, com vasta colaboração, passados a computador, que arrancou na data prevista, e funciona hoje em moodle. Outro caso: revisores de Português ajuda- riam a que a imprensa escrita não apresen- tasse erros desnecessários e outros traba- lhadores de imprensa, sempre nos seus tempos pós-profissionais, poderiam trazer o contributo útil a uma divulgação eficaz.
Aliás, na altura já se trocavam e-mails à fartazana. Por que não criar uma espécie de agência noticiosa, uma central de informa- ção, em que as pessoas nos enviassem as notícias do que ia acontecer e depois as redigíssemos periodicamente num e-mail enviado a todos quantos o solicitassem? Fez-se. E faz-se. O pessoal da arte poderia desenvolver um cartoonismo de inspiração espírita, entre outros. Grande Reinaldo! Um jornal seria interessante, mas não havia dinheiro para isso… na altura.
Houve anos mais tarde, verdade nua e crua, graças ao nosso Isaías. Recuando dez anos, na apresentação do projecto falava-se de coisas como um site com informação bem pensada, uma equipa de pesquisa de fenómenos, e outras acções que arrancaram, uma vez que foram plane- adas por escrito, com responsáveis, prazos e meios de execução. Foram muitas entretanto as intervenções na rádio, na TV, nos jornais, em defesa do espiritismo, uma doutrina séria tantas vezes caluniada como ainda acontece recen- temente.
É um trabalho de paciência e perseverança. Sem outro propósito que não seja trabalhar, a ADEP está longe de lutas que não sejam as de servir melhor, respeitando todos. Tranquilamente, fica um registo sintético, sublinhando-se que este decénio bem pode ser comemorado com o lançamento do livro das Jornadas de Cultura Espírita de 2008, “Espiritismo: comunicar”, onde se pu- blicam os resumos dos temas apresentados. Dez anos passaram, dez anos virão.
A bên- ção de servir o ideal, fraternalmente, sem farpas e engulhos, é um prazer nesta oficina de trabalhadores que se estende de Norte a Sul do país. Quanto a si, caro(a) leitor(a), é a grata razão das horas livres ocupadas nestas páginas, fazendo votos de que lhe possamos ser a cada edição mais úteis, neste ideal lumino- so que nos une. Bem-haja!
