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Ciência Vá… regressa!

Jornal de Espiritismo nº 36 · Setembro 2009Página 74 min

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As investigações desde então sucedem-se e o assunto, que perde aqui e ali o brilho do mediatismo, continua a ser tema de livros em todo o mundo, alguns editados até recentemente. Assunto importante, pescamos do baú de trabalhos diversos um dos casos que recolhemos. Como acontece na maior parte das vezes, a entrevistada não quer ser identificada publicamente. Mas nem por isso impede que gravemos o som da sua voz enquanto fala de uma forma intensa, já que relata de memória uma experiência marcante.

Marta* não sabia que estava grávida. De férias, perto de Viana do Castelo, interrompeu-as. Quando deu entrada no Hospital de Santo António, no Porto, detectaram uma hemorragia interna. «Estava em estado de choque. Não reagia a nada, lembro-me só de ouvir as pessoas». Não falava, não via, mas sentia toda a movimentação à volta. Um médico pousou o processo, «senti-o nas minhas pernas, e fez comentários inconvenientes, a pensar que eu não podia ouvir, como «Olha, lá vai mais uma para a cidade dos pés juntos».

«No bloco operatório», disse, «não pude levar anestesia porque já estava a entrar em coma e havia paragens cardíacas». «Lembro-me de eles me abrirem e de querer desaparecer dali». Recorda-se de «passar para cima» e ver a equipa a operá-la: «Eu via-me do canto da sala cá para baixo e via o meu corpo, eles a andarem naquela azáfama toda». Ali, «eu não tinha dores, era aquela sensação de me sentir bem, era uma coisa estranha para mim».

«Comecei a ver a minha vida a partir daquela altura da operação, mas a uma velocidade grande, dos últimos acontecimentos para os mais antigos». Lembra-se depois de entrar num túnel com uma luz branca no fundo: «Era como se o túnel tivesse luzes de lado e passavam a uma velocidade louca». Entretanto ouviu um som — tim-tim, tim-tim... — como o das estações de comboio, mas contínuo. «Senti numa fase seguinte uma frescura imensa no corpo, era como se estivesse numa queda de água».

Levou choques eléctricos, para reanimação. No entanto, «não tive medo nenhum, sentia uma paz enorme». Percebeu «uma voz forte, firme, de homem, que dizia: “Vá, regressa! Tens que regressar”. O timbre da voz dava «tranquilidade, segurança». A cirurgia demorou à volta de 45 minutos, informaram Marta, «mas na altura não tive noção de tempo. Fiquei com a sensação de que atravessar a morte é óptimo, aliás eu não queria sair de lá, porque não me doía nada...

». E os seus filhos? «Só estava bem, estava em paz, uma tão boa que não se consegue explicar. Nem me lembrei sequer dos meus filhos». Recorda: «Eles aspiraram-me e, entretanto, apercebi-me de uma figura com uma bata diferente, abotoada atrás, com o estetoscópio caído aqui, de barbas, muito entroncado, largo, e vi que os médicos de bata azul passavam pelo meio dele, que estava do meu lado esquerdo». Depois, «meia adormecida, comecei a ficar zonza e, durante as 48 horas — segundo disseram — em que corria perigo de vida, aquela figura nunca saiu do meu lado esquerdo».

Referia ao marido essa presença invisível, que lhe dizia «Dorme, estás a sonhar». «Saí de observações intensivas. Quando me deitaram em ginecologia, esse médico esteve mais um bocadinho e depois desapareceu». «Eu via-me do canto da sala cá para baixo e via o meu corpo, eles a andarem naquela azáfama toda». Ficou da EPM de “Marta” esta filosofia pessoal: «A morte não é aquilo que as pessoas pensam. É uma coisa boa, não sei se será exactamente aquilo que se passou, mas pelo menos não é aquele terror que as pessoas imaginam...

Sofreremos mais ou menos segundo a nossa actuação aqui na Terra, não sendo tão egoístas, ajudando os outros, cada um à sua maneira». Mas serão, dado os vários depoimentos semelhantes, estas experiências excepcionais um incentivo para o aumento de suicídios? A pesquisa diz que não: os sujeitos criam sim aversão ao suicídioD. H. Rosen, 1975, descobriu que, nas tentativas de suicídio, a reincidência é escassa; os estudos de B.

Greyson (1981) concluem que emerge da EPM uma motivação anti-suicida. Configura-se, como ensina a doutrina espírita, que a vida é uma passagem, na qual estamos a aprender a pensar e a melhorar os sentimentos. A evolução cumpre-se, pouco a pouco, tanto no plano material em que estamos como no plano espiritual, de onde viemos e para onde iremos. Por Jorge Gomes *nome fictício a pedido da senhora que deu o depoimento. As experiências próximas da morte – EPM – são um ramo fenomenológico muito interessante que surgiu à luz do dia na década de 80 a partir do livro amplamente divulgado do médico norte-americano Raymond Moody Jr.

intitulado «Life after life».