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Crónica As alucinações auditivas de Sampaio Bruno Sampaio Bruno foi um

Jornal de Espiritismo nº 36 · Setembro 2009Página 142 min

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pensador português, nascido em 1857, republicano, libertário – e tanto, que ao nome de família acrescentou o de Bruno, inspirado no de Giordano, o filósofo italiano vítima da intolerância da Inquisição em face da liberdade de pensamento. Dizem os estudiosos do homem e da obra que “a permanência no exílio aguçou no nosso autor o sentimento de solidão e ensejou, nele, forte crise maníaco-depressiva que o levou a buscar uma saída mística”.

Acrescentam que tal afectação mística foi mais notada quando em Salamanca teve uma espécie de êxtase místico, “o sobressalto profundo da minha consciência”, no dizer de Sampaio Bruno, que o conduziu a buscar a unidade primordial de onde tudo provém e que surgiu consignada, em 1902, em “A Ideia de Deus”. O que aconteceu resume-se assim: numa viagem de Paris para Portugal, de carruagem, algures uma voz disse a Sampaio que se ia encontrar com o amigo João Chagas.

Ora este tinha ficado em Paris e, conhecedor das circunstâncias, ao raciocínio de Sampaio resultava-lhe positivamente impossível encontrar-se com aquele. Deu-se então ares de audácia para o desconhecido e lançou o repto ao mistério, diz, de o desmentir quanto a essa impossibilidade. O certo, porém, é que numa localidade chamada Fuente de Santo Esteban, onde pararam para tomar uma chávena de chocolate, a mesma voz lhe disse “com branda inflexão ao de leve maliciosa, levemente risonha” que ia, pois, ver o Chagas.

De imediato e de modo “agora positivo, objectivo, exterior” ouviu a dele bem conhecida voz de João Chagas. A descrição do que sentiu não importa ao caso – e podemos bem imaginar pondo-nos em seu lugar. Importa já reter as consequências axiomáticas na sua filosofia que este e outros prováveis acontecimentos semelhantes trouxeram e que foram, entre outras: Que todas as coisas no mundo estão predeterminadas. A fatalidade é a Lei do Mundo; Que a predeterminação do Universo é conhecida por seres espirituais superiores a nós e existindo fora de nós, mas que, quando queiram, no-la podem comunicar, fazendo-nos conhecer com antecedência o futuro.

Sabemos agora que as coisas não são bem assim, mas este tipo de erros (de constituir como verdades universais as nossas impressões particulares) têm sido prática comum na história do pensamento. O raciocínio vai até onde o entendimento chega. Ao seu tempo na Terra, Agostinho de Hipona também não foi além de um determinismo quase absoluto. Não obstante, de erro em erro a razão avança. No fim das especulações está sempre Deus, que é a única verdade imutável, e quando existe honestidade intelectual chegamos, como Heidegger em fim de linha, à meditação sobre “Pedi e recebereis, procurai e achareis, batei e abrir-se-vos-á”.

Estás, pois, perdoado, Sampaio Bruno. Por A.