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Opinião Garimpeiros da verdade “O conhecido é finito, o desconhecido i

Jornal de Espiritismo nº 36 · Setembro 2009Página 157 min

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Opinião Garimpeiros da verdade “O conhecido é finito, o desconhecido infinito; intelectualmente, estamos numa ilha no meio dum oceano ilimitado de inexplicabilidade. O nosso dever em cada geração é recuperar um pouco mais de terra.” Thomas H. Huxley O Homem possui um relacionamento hostil com a dúvida, com a incerteza e com o reconhecimento íntimo da sua imensa ignorância. De forma sequiosa, desde os tempos mais insondáveis procurou conhecer e encontrar explicações para os fenómenos que podia observar, tentando desvendar as causas que os originavam.

Quem somos nós? Onde estamos? Que mundo é este? Como chegamos até aqui? Para onde caminhamos? O desejo de compreender, de se perceber a si mesmo e a admiração pela própria natureza, é aquilo que melhor distingue os seres humanos dos outros animais. No entanto, incapazes de determinar as causas, desde a Antiguidade os homens optaram por adaptar a realidade ao seu entendimento. Não conseguindo escalar o íngreme muro do conhecimento, explicaram a complexidade dos fenómenos através de histórias fantásticas, mitos e teorias até muito criativas, inventando deuses a quem responsabilizaram por tudo o que os transcendia.

Assim se repetiu ao longo da história. Os homens foram dando explicações inventadas para os mistérios do mundo, da vida às condições atmosféricas, à criação do Universo, ao surgimento do próprio Homem e ao funcionamento do seu corpo. Não se pode considerar este percurso como algo negativo, antes pelo contrário, foi um processo natural, salutar e progressivo em direcçãoaníveis de conhecimento cada vez mais verdadeiros, desde que, hoje, se perceba que essas explicações foram apenas uma forma de as pessoas da altura compreenderem e se integrarem no seu mundo.

Depois de milhares de anos de evolução da espécie humana, felizmente mantemos um prazer enorme em tornar conhecido o que ignoramos. Mas, tal como os povos da Antiguidade, ainda temos tendência para ajustar a realidade às nossas crenças e pensarmos o mundo como gostaríamos que ele fosse, em vez de o vermos e sentirmos como ele é. Ainda permitimos que os nossos desejos contaminem aquilo em que acreditamos, esquecendo que não é por desejarmos que o mundo seja de uma determinada forma que iremos alterar a sua realidade.

Ainda preferimos ludibriar aquilo que não compreendemos, em vez de reconhecermos humildemente a nossa ignorância. A história do Homem demonstra-nos claramente que todo o conhecimento, ideias e teorias aceites num dado tempo são provisórias e constituem unicamente as melhores explicações encontradas com o conhecimento da altura. A investigação, a experiência e outros dados futuros irão poder comprová-las, torná-las falsas ou incompletas.

A teoria da relatividade de Einstein veio colocar em evidência que a gravitação universal de Newton não explicava tudo… E a mecânica quântica de Heisenberg e Schrödinger tornou claro que a relatividade não era aplicável às partículas sub-atómicas. Depois de constatarmos que ideias defendidas por génios notáveis, como Newton e Einstein, foram de alguma forma corrigidas ou aperfeiçoadas, não será uma enorme pretensão pensar que temos a verdade absoluta?

Em que dados nos suportamos para o afirmamos? Não poderemos estar a ser fundamentalistas ao ponto de não conseguirmos admitir a possibilidade de estarmos incorrectos? Teremos todas as informações disponíveis? Reflictamos… Alguns argumentarão que ao pensarmos desta forma viveremos numa eterna e desagradável incerteza. Nada disso! Isto não significa que necessitemos abandonar as nossas convicções mais íntimas, os princípios éticos e morais em que baseamos a nossa vida ou a nossa fé, apenas que percebamos que um certo grau de incerteza é algo incontornável e pode mesmo ser saudável e necessário para o aprendizado que desejamos.

O alemão Werner Heisenberg, ao procurar desvendar os segredos das partículas atómicas, elaborou um teorema que estabelece que nenhum fenómeno ao nível atómico pode ser explicado com exactidão e sem margem de tolerância. Ele percebeu isso quando se viu incapaz de medir com precisão as propriedades do comportamento do electrão, que é uma das partículas elementares de toda a matéria que conhecemos. Quanto mais precisamente ele media a posição de um electrão, com menos precisão podia determinar o seu movimento (para determinar a posição, seria necessário usar uma certa quantidade de luz, uma forma de radiação electromagnética e isso afectaria o movimento original do electrão).

Ou seja, mais certeza de uma, mais incerteza de outra. Ele chamou a tal dificuldade de “O Princípio da Incerteza”, que se tornaria num dos pilares da mecânica quântica. Um certo grau de incerteza é um facto da vida e por mais voltas que possamos dar não iremos encontrar respostas eternas e imutáveis para as nossas perguntas. O Homem suspira por verdades absolutas e imutáveis, embrenha-se por níveis crescentes de conhecimento e complexidade mas surpreende-se invariavelmente porque essa complexidade aumenta progressivamente sempre que ele dá mais um passo para alcançar a verdade.

Cada passo em direcção à verdade permite-nos perceber, de uma forma gradualmente mais clara, a abissal distância que ainda nos separa dela. Para contornar a inquietação que esta constatação nos provoca, no mundo ainda grassa um princípio que é o oposto do princípio de Heisenberg: é o princípio da certeza absoluta, daqueles que julgam que sabem tudo, que não têm dúvidas e que se afirmam como donos da verdade. Pode parecer inócuo e inocente, mas não nos deixemos enganar: é algo que pode ser monstruoso.

Foi o princípio da certeza, a crença de que dispúnhamos da verdade absoluta, que esteve na origem das Cruzadas, da Inquisição, das fogueiras da Idade Média, da escravatura, do Nazismo, do holocausto e do terrorismo. O princípio da certeza absoluta está ao serviço da arrogância, da ignorância e do autoritarismo, semeando pelo mundo a intolerância eoódio, abafando ideias contraditórias e destruindo em nome de múltiplas pseudoverdades.

Cada passo em direcção à verdade permite-nos perceber, de uma forma gradualmente mais clara, a abissal distância que ainda nos separa dela. A verdade está em todo lado à espera de ser garimpada. Procurar e ter sede de verdade é legítimo e saudável, mas é necessário transformar a obsessão pela certeza, através da incorporação e assimilação de alguns conceitos que os mais eminentes Espíritos que passaram por este planeta não se cansaram de propagar.

A postura tolerante e humilde desses Espíritos admiráveis é um farol ético e moral que serve de orientação à humanidade. Nas suas palavras encontramos imprescindíveis e sublimes pedaços de verdade. Desse modo, para podermos defender as nossas ideias e convicções de todos os que pensam e agem de maneiras diferentes, não precisamos torcer a realidade para melhor se adaptar aos nossos argumentos. A verdade não é simples retórica.

A verdade não é um jogo linguístico. Não são necessárias lutas, confrontações e quezílias, isso nunca será capaz de modificar a verdade. É premente incorporar o respeito pela diversidade de comportamento, ideologia e conhecimento, algo inevitável numa população de milhões de seres humanos. Integrar e unir as diferenças que existem é imprescindível, para que a compreensãoea tolerância mútua prevaleçam em detrimento dos ódios, preconceitos e das segregações e para que a verdade seja construída por todos sem excepção.

Precisamos confiar na verdade porque só assim poderemos cultivar a serenidade quando a mentira surgir ou nos procurar. A verdade… bem, a verdade emergirá serenamente a seu tempo… não existe força alguma capaz de lhe oferecer resistência. Todos os que fazem ciência, ou seja, todos os que procuram conhecer e saber, têm uma enorme responsabilidade nesta caminhada saudável e tolerante em direcção à verdade. Falamos da ciência no seu aspecto mais aberto, puro e desinteressado, não na ciência arrogante, preconceituosa e determinista.

A ciência despretensiosa, aceita a mutabilidade como uma condição fundamental do conhecimento humano, enquanto parte em busca de explicações lógicas e racionais que lhe permitam entender melhor o mundo. A verdadeira ciência procura a verdade de mente aberta, sem fundamentalismos, teorias preconcebidas, preconceitos e dogmas imutáveis. A verdadeira ciência questiona constantemente o que se julga acertado (mesmo que tenha sido defendido por génios admiráveis) e isso permite-lhe ser mais tolerante, encontrar erros e insuficiências com maior frequência e dar passos sucessivos de aproximação à verdade.

Esse é um dos conceitos mais fantásticos e belos da ciência: não existem ideias intocáveis que estejam impedidas de ser discutidas e questionadas de uma forma lógica e racional. Da mesma forma, a doutrina espírita, tal como Allan Kardec a definiu, sendo uma filosofia e uma ciência de consequências morais, não tem a pretensão de se assumir como A Verdade. O Espiritismo, como uma ciência de observação, pretende demonstrar através da razão, de factos inquestionáveis e fortes evidências, a inexistência da morte, a realidade do mundo espiritual, a sua natureza e suas relações com o mundo material, mostrando- -os, não como algo sobrenatural ou místico, mas como uma das leis da Natureza.

O que se pretende não é simplesmente acreditar mas ter desejo de garimpar a verdade, descobrir, desvendar, experimentar e saber. Sempre com a mente aberta e respeitando a máxima de Kardec, expressa no seu livro “A Génese”: “Se novas descobertas demonstrarem que a Doutrina Espírita está em erro acerca de um ponto, ela se modificará nesse ponto.” Isto é de um bom senso e humildade tão profundos que muitas vezes não conseguimos ainda compreender.

Também por isto, procuremos olhar a doutrina espírita, não pela lente atrofiada da arrogância como verdade absoluta, mas como uma aproximação à verdade. Como o caminho que neste momento mais se adequa à nossa capacidade de entendimento, às nossas necessidades evolutivas e que responde de uma forma lógica e surpreendentemente admirável à sede de respostas que evidenciamos. “É necessário que cada coisa venha a seu tempo.

A verdade é como a luz: é preciso que nos habituemos a ela pouco a pouco, pois de outra maneira nos ofuscaria.” - “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec, questão 628.