Opinião A morte do suicídio (II) Na sequência do artigo da anterior ed
Jornal de Espiritismo nº 37 · Novembro 2009Página 125 min
Opinião A morte do suicídio (II) Na sequência do artigo da anterior edição, cumpre dizer que o objectivo de qualquer suicida é resolver um problema irresolúvel (na sua óptica), muitas vezes embrenhado numa mono-ideia, que não o deixa ver outras janelas, senão o fundo-falso da vida: o suicídio. Dentro de uma visão materialista da vida, de facto, o suicídio é aceitável, para quem julga não haver solução para a problemática que está a viver.
À falta de melhor opção, a pessoa mata-se, e “acaba tudo”, fugindo do problema aparentemente irresolúvel. Se assim fosse, até que poderia ser uma saída para a crise existencial. E se não for assim? E se a vida continuar para além da morte do corpo de carne? Vejamos a óptica espiritualista. Nesta visão holística, o ser humano não é apenas um amontoado de células, mas sim, um ser eterno, que está temporariamente num corpo carnal, neste planeta, numa determinada missão evolutiva, voltando à pátria espiritual assim que se desorganize irremediavelmente o seu corpo físico.
Se a visão espiritualista da vida estiver certa, então o axioma materialista perde consistência, e o suicídio terá sido em vão, continuando o ser humano no mundo espiritual, com os mesmos problemas que tinha na Terra (abordaremos esse assunto no artigo seguinte). Questionamo-nos: para que é que as pessoas se suicidam? A resposta parece óbvia: para “resolverem” problemas graves existenciais, como um negócio ruinoso, uma doença irreversível, um desgosto, uma atitude impensada, etc, etc...
A Doutrina Espírita (ou Espiritismo), que não é mais uma seita nem mais uma religião, mas sim um conjunto de ideias assentes em pesquisa científica, com uma componente filosófica e assente na moral de Jesus de Nazaré, veio matar a morte, demonstrando experimentalmente, em meados do século XIX, que afinal, aquilo que as religiões tradicionais defendiam através de uma fé cega – que somos seres imortais, que a vida continua noutra dimensão espiritual – tinha razão de ser.
Entramos no campo da fé raciocinada, da fé assente na pesquisa, na experiência, na discussão, na observação, na comparação de factos, de onde surgem ideias de espiritualidade, ideias salutares, lógicas, explicando ao Homem de onde vem, para onde vai, e o que está a realizar na Terra (leia-se a obra de Allan Kardec, começando pela notável obra “O Livro dos Espíritos”). Aprendemos com a Doutrina Espírita que estamos na Terra para evoluirmos em duas vertentes – intelectual e espiritual – num processo de expiação de actos do nosso passado mais ou menos longínquo (reencarnações passadas), e num processo de provas, inerentes ao estado actual do planeta Terra, onde o mal ainda se sobrepõe ao bem.
Aprendemos com a Doutrina Espírita, que os problemas que temos na Terra, não são irresolúveis, antes sim, oportunidades de crescimento, de aprendizagem, aprendendo os valores da tolerância, da compreensão, da resignação activa, da ajuda mútua desinteressada. Independentemente do tipo de problema com que a vida nos bafeje, tenhamos a consciência de que a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas (a que se convencionou chamar Deus), não permitiria que tivéssemos na nossa vida provas superiores às nossas forças, pois se assim fosse, não seria um Deus infinitamente bom.
Somente com o estudo e entendimento da lei de causa e efeito, da reencarnação, podemos encontrar a justiça divina, nas múltiplas dissemelhanças existentes entre a humanidade, e que provocam revoltas naqueles que desconhecem as realidades espirituais. Com o estudo do espiritismo, aprendemos que os problemas graves da vida têm sentido, têm uma causa, têm um objectivo e são ultrapassáveis. Assim pensando e assim agindo, podemos com alegria assistir à morte do suicídio...
Por José Lucas jcmlucas@gmail.com Mulherdeumlivrosó Éramos meia dúzia de rapazotes, compartilhando a paixão por Bruce Lee e pelos Led Zeppelin, e por motos japonesas. Os nossos maiores pecadilhos eram uma ginjinha furtiva na taberna da esquina e umas valentes jogatanas de cartas, a tostão, para dar interesse. O Jorge era o mais aperreado de todos, nessa época em que éramos todos bastante aperreados. Era uma guerra até para usarmos o cabelo comprido, à Robert Plant e à Bruce Lee.
«Olha a cabeleira do Zezé... Será que ele é? Será que ele é?» O comprimento do cabelo era letra de samba, naquela época... Felizmente que o Roberto Carlos deu a volta à coisa: «Deixe meu cabelo em paz! Deixe meu cabelo em paz!» O Jorge usava o cabelo curtinho e de risco ao lado. Pelos vistos havia qualquer coisa na Bíblia que proibia o cabelo comprido. A mãe do Jorge era uma religiosa ferrenha, que substituíra a capacidade de pensar por um exemplar da Bíblia que trazia sempre consigo, e que constituía praticamente todo o seu vocabulário, feito de capítulos e versículos, espadas de fogo e anjos vingadores...
Cabelo, indumentária, adornos, maquilhagens das irmãs do Jorge eram passadas pelo passador bíblico e resultavam em quatro raparigas tiradas a papel químico, tristes e encolhidas, sempre com medo da espada justiceira de sua mãe, representante de Deus na Terra, com procuração passada no notário evangélico. Pareciam quacres em versão infeliz, e só deixaram de parecer quando se emanciparam e ganharam cor, nas faces, na roupa e na alma.
Certa tarde de sábado, jogávamos uma partida de cartas na garagem do Toninho, docemente embalados pelo pequeno leitor de cassetes, gozando a nossa mocidade, quando, abrindo o portão sem autorização, o Anjo do Senhor irrompe, de faces vermelhas, espumando indignação e ira em nome de Jesus! Atónitos, assistimos ao arraial de pancadaria foto loucomotiv que desfigurou a cara do nosso amigo, que cometera o abominável pecado do jogo da lerpa a tostão!
Para o livrar das chamas do Inferno, a sua mãe aplicava-lhe um correctivo de fazer inveja ao Bruce Lee, acompanhado de uivos lancinantes de fazer inveja aos Led Zeppelin. Concluído o acto de profundo amor materno, agarrou-o por uma orelha, a pingar sangue e virou costas. Passou o portão, mas achou por bem voltar atrás e erguer O Livro na mão direita, enquanto a esquerda segurava a orelha do Jorge. E a contraluz do sol da tarde que nos cegava, a mulher de um só livro proferiu: - A Bíblia é a minha arma!
Ficámos ainda muito tempo mudos e assombrados, enquanto o velho gravador regurgitava «Whole Lotta Love». Noutro dia, pela enésima vez, a Senhora Mãe do Jorge bateu-me à porta. E pela enésima vez me tentou converter. Felizmente que não sou filho, ou lá seria salvo dos infernos à bofetada. - Desculpe, D. Ana, mas como já lhe disse várias vezes, já conheço a vossa religião, mas eu sou espírita. - Hã? - interrogou a D. Ana, sem saber se ouviu bem.
- Sou espíritarepetia minha filosofia é a filosofia espírita. - Ah, mas ISTOe levantou a Bíblia, como naquele triste dianão é filosofia. ISTO é A Verdade! E foi-se embora, mulher de um livro só.
