Entrevista envolvidos na análise destes casos, para poder afirmar que
Jornal de Espiritismo nº 37 · Novembro 2009Página 113 min
não existe uma resposta alternativa à “luz da ciência oficial”. Aquilo que podemos afirmar é que, à luz dos conhecimentos que temos, o modelo espírita é o que melhor explica determinado fenómeno. Ao fim e ao cabo, é este o tipo de afirmações que qualquer cientista consciente faz. Assim contextualizado, posso referir um caso do tipo “poltergeist” que analisámos na ADEP e que, dados os factos observados, e os testemunhos envolvidos, me parece ter uma explicação claramente de natureza espírita.
De forma resumida, posso referir que se tratou de um caso em que, entre outras manifestações, ocorria o arremesso de pedras e de outros objectos, bem como fenómenos do tipo “teletransporte” de pequenos objectos. Estes ocorriam quer dentro quer fora do lar em causa, para grande surpresa e por vezes incómodo de todos as pessoas presentes. Para além dos moradores da casa houve testemunhas externas, incluindo agentes da autoridade e um sacerdote que presenciaram e em certa medida foram também “vítimas” dos fenómenos.
Existem cientistas espíritas e cientistas que pesquisam estes fenómenos? Francisco CuradoSempre existiram cientistas interessados neste tipo de fenómenos, mesmo antes de o espiritismo existir como doutrina. Os nomes mais famosos são por demais conhecidos. A nível dos fenómenos de efeitos físicos, do tipo “poltergeist” existem estudos relativamente recentes muito bem documentados em publicações do investigador brasileiro Hernâni Guimarães Andrade.
Em termos de “comunicação instrumental” o investigador e sacerdote francês, François Brune é uma referência incontornável. É sabido actualmente que existem investigadores católicos do Vaticano a estudar este tipo de assuntos, designadamente a comunicação instrumental. Mas existem muitos outros, a maioria anónimos ou desconhecidos do público em geral, que desenvolvem trabalho de investigação nesta área. Alguns destes temas e os resultados desta investigação são actualmente apresentados e debatidos em conferências internacionais, o que demonstra a dimensão da comunidade de pessoas não só interessadas no tema mas também a trabalhar seriamente neste tipo de pesquisa.
Que factos atestam a veracidade do espiritismo? Francisco CuradoO espiritismo é fundamentado primordialmente pelo trabalho de investigação de Allan Kardec. Pode portanto afirmar-se que esta doutrina parte de uma base experimental que recorre ao método científico, seguindo-se depois a compilação do seu corpo doutrinário. No entanto, em minha opinião, não se deve tentar isolar completamente a componente científica das pesquisas no domínio do espiritismo de uma componente que pode ser designada “intituitiva”.
Talvez seja uma crença comum no cidadão leigo em ciência, acreditar que na sua investigação o cientista parte sempre de premissas puramente racionais ou de factos científicos previamente estabelecidos. Esta crença é incorrecta; se assim fosse, provavelmente os avanços científicos notáveis que observamos não existiriam. Em ciência, parte-se frequentemente de “intuições” e progride-se muitas vezes por uma espécie de “iluminação” despoletada pelo trabalho de investigação desenvolvido, normalmente árduo.
Qualquer investigador científico experiente reconhece a importância da intuição no avanço das pesquisas. No entanto, todas as premissas usadas devem ser explícitas e todas as conclusões têm de ser validadas pela aplicação do método científico, assentando em metodologias rigorosas que devem permitir separar os factos observáveis das “convicções” do investigador. Apesar de toda a exigência do método científico, por vezes existem entre os cientistas diferentes interpretações dos resultados.
O facto de se aplicar o método científico não implica unanimidade, embora normalmente exista concordância sobre os factos observados e sobre as premissas utilizadas. Aquilo que podemos afirmar é que, à luz dos conhecimentos que temos, o modelo espírita é o que melhor explica determinado fenómeno. Ao fim e ao cabo, é este o tipo de afirmações que qualquer cientista consciente faz. Assim, também os factos frequentemente invocados para atestar a veracidade do espiritismo podem ser postos em causa por outros pensadores, o que não invalida a importância destes factos.
Em ciência, normalmente adopta-se como modelo da realidade aquele que melhor explica um determinado fenómeno. Isso não significa que ele seja o único modelo existente ou que não possa evoluir e ser revisto mais tarde, mas apenas que ele é o que melhor se adapta à realidade à luz dos conhecimentos existentes. Na verdade, a maioria dos fenómenos que o espiritismo tem explicado nunca foram convenientemente explicados por outras doutrinas ou por outros modelos científicos.
Tendo em conta a natureza experimental das origens do espiritismo e a racionalidade do seu método, parece- -me perfeitamente consistente com os princípios do método científico considerar que o modelo espírita apresenta uma explicação adequada dos fenómenos do tipo das comunicações mediúnicas e dos fenómenos de efeitos físicos que aparentemente envolvem a actuação de agentes em outras dimensões espacio-temporais. * Francisco Curado Teixeira é investigador e actualmente trabalha profissionalmente na área das geociências.
