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Pedagogia Bens materiais essenciais ou supérfluos: como educar?

Jornal de Espiritismo nº 38 · Janeiro 2010Página 154 min

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Com que fim pôs Deus atractivos no gozo dos bens materiais? “Para instigar o homem ao cumprimento da sua missão e para experimentá-lo por meio da tentação.” a) Qual o objectivo dessa tentação? “Desenvolver-lhe a razão, que deve preservá-lo dos excessos.” P.712, Livro dos espíritos A época do Natal é associada à ideia de oferecer presentes aos amigos e familiares.

Os pais aproveitam esta altura para satisfazer os desejos dos seus filhos, materializados em brinquedos, jogos ou outros objectos que visam o prazer imediato. O natal transformou-se numa festa comercial onde o culto ao Pai Natal tem vindo a substituir, aos poucos, a verdadeira razão desta comemoração: o nascimento de Jesus, o Cristo. A escola, que deveria ser um agente cultural, não só de divulgação do conhecimento cientifico, mas também de educação moral, mais depressa explica o aparecimento do senhor de barbas brancas e de fato vermelho criado pela Coca cola, do que o Mestre e educador que nos trouxe a Boa Nova, marcando profundamente toda a humanidade desde há 2000 anos.

Se a escola se isenta de relembrar este acontecimento e a família, por seu lado, tem se tornado cada vez menos dialogante, menos praticante da caridade cristã, urge perguntar como vão as crianças e os jovens entender o que é o Natal? Qual a razão de oferecer presentes? Porque este dia e não outro? Que associação existe entre o pai natal e o menino Jesus? Pior que não existirem respostas é as próprias crianças não serem levadas a reflectir, pelos adultos, sobre tudo o que acontece em torno desta época festiva.

O rosto delas espelha a alegria de obter aquele brinquedo tão desejado, que dura nas suas mãos as horas necessárias para descobrir o que ele provoca e quase de imediato cai no esquecimento. É uma alegria efémera nada comparável com a felicidade de compreender que um dia um menino veio ao mundo mostrar o caminho para que todos pudessem viver em paz e harmonia. Estimular logo na infância o culto do presente, tantas vezes como resultado de um prémio de bom comportamento, dá origem á necessidade de viver em função do que se pode ganhar ou obter.

O bem material não é o resultado de um esforço pessoal para alcançar determinada meta, mas o efeito de agradar ou corresponder ao que outro deseja. No natal a situação agrava-se, pois as prendas marcam o dia, sem que nada se tivesse feito para recebe-los, e não raro o excesso de presentes leva as crianças a uma euforia sem igual, onde a corrida é quem mais tem, quem mais recebe. Os pais, ao contrário do que seria de esperar, congratulam-se com este momento, uma vez que a ausência motivada pela vida activa que têm, nesse dia é sanada com todas aquelas “surpresas” materiais.

Sabemos que muitas famílias se endividam financeiramente para oferecer aquela mota eléctrica, aquela casa da Barbie, aquela bicicleta último modelo que ás crianças nada custou a obter. Simplesmente bastou que existisse o natal. É certo, no entanto, que muitas famílias também aproveitam para comprar bens necessários, como roupas por exemplo, mas também é verdade que as crianças não sentem nisso um presente, porque têm tudo isso durante o ano.

Estimular logo na infância o culto do presente, tantas vezes como resultado de um prémio de bom comportamento, dá origem à necessidade de viver em função do que se pode ganhar ou obter. Quando os educadores falam aos pais na importância de educar os seus filhos fazendo-lhes ver o que é um bem material essencial e o que é supérfluo, deparamo- -nos com a barreira da cultura social, da moda, da preocupação pelo o que os outros dizem ou fazem: “eu não vou dar ao meu filho uma mochila, que até lhe faz falta, porque senão ele vê os colegas a receberem uma playstation e fica triste”.

Isto não significa que não se possa gozar dos bens materiais estando eles à nossa disposição para nos auxiliar e facilitar a vida. Eles não podem é ser os causadores da alegria e/ou da tristeza, tornando a sua aquisição num factor imprescindível para que se possa ser feliz. Cabe aos adultos, pelo exemplo explicarem à criança o que distingue um bem necessário ou essencial de um bem supérfluo, de forma a que ela interiorize que os primeiros são instrumentos de aprendizagem e os outros de tentação a resistir.

Sabemos o quanto é difícil “lutar” contra a cultura de massas, numa sociedade que se rege por ideais que visam fins comerciais, o lucro e o sucesso, mas se logo na infância os filhos tomarem consciência de que nem sempre o que se “vende” é o melhor para eles, e que “ter” ou “não ter” certos bens não põe em causa o amor que os pais lhe dedicam, certamente no futuro saberão valorizar e preservar o pouco que têm. O importante não é ter muito, mas sim o necessário.

Por isso Deus pôs á disposição do Homem os meios para que fizesse as escolhas mais adequadas, com vista a facilitar- -lhe a sobrevivência, resistindo assim ao uso abusivo do que lhe não serve para adiantar moralmente a existência. Regina Figueiredo reginasaiao@gmail.com www.apedagogiaespirita.