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Jornal de Espiritismo nº 38 · Janeiro 2010Página 134 min
Opinião PUBLICIDADE PUBLICIDADE Moradas daquied’Além Quem já não teve várias moradas? Eu cá, pela rama conto talvez três. Todas temporárias, invariavelmente. São lugares de passagem, servem de apoio e contexto evolutivo em momentos certos, mas mesmo que sejam duradouras não são perenes. Não é difícil antever que a actual não é a última. Perceber que outras haverá num outro plano de vida, isso já não será tão imediato… A aproximação racionalizável para essa ideia passa pela experiência que se tem em falar com aqueles que já partiram deste plano de vida através de médiuns, no intuito de os ajudar.
Juntam-se outros canais de informação tais como as obras que desdobram as experiências próximas da morte, da autoria geralmente de médicos, enfermeiros ou psicólogos. Nesse vasto conjunto de relatos, onde a honestidade dos mesmos é compreensível, surgem itens que ilustram essa mudança, de forma padronizada: o sair do corpo físico e observá-lo, ou a deslocação fora do corpo a outros locais; sensações intensas de natureza espiritual ou emocional; o encontro com entidades extrafísicas, que em muitos casos transbordam paz, afecto e sabedoria.
Antes de nascermos na Terra, ensina a doutrina espírita, estávamos num outro ambiente: o plano espiritual. Mas não éramos propriamente outros seres, éramos sim nós próprios, embora enquadrados noutros cenários, vindos de outras experiências de vida. Teríamos um passado recente mais presente na memória do corpo espiritual. Impunha-se a necessidade de voltar a passar na Terra com um corpo físico. A finalidade, independentemente das circunstâncias, resumia-se a rectificar tendências, guiando-as rumo a conquistas crescentes no domínio da inteligência e do afecto.
À maneira do agricultor que poda a vinha para que a uva seja abundante e sirva melhor a população. Há moradas individuais e moradas colectivas. A escala de evolução pessoal reflecte-se nos grupos e estes nas várias “moradas” de que nos falam os espíritos superiores. São eles os “mundos” primitivos, os de expiações e provas, seguindo-se os regeneradores e os venturosos. A prepotência e a crueldade dominam nos primeiros e diluem-se nos derradeiros, gradativamente, sendo substituídos, superadas as fases primárias de evolução espiritual, pela bondade e pela sabedoria.
Fora isso, mais importante do que o sítio em que estejamos é sabermos o que nos cumpre fazer em cada momento. Quem não gostaria que esta passagem pela Terra fosse um roteiro de alegria e mel? As consequências não seriam muito produtivas e, nós próprios, sem precisarmos da ajuda de outrem, pelas imperfeições de personalidade que ainda não sublimámos, iríamos estragar o caminho cor-de-rosa tão desejado. Ignorar as dificuldades equivale a não perceber que elas existem.
E só os testes da vida são capazes de nos confrontar com o que falta fazer a cada um em si próprio de modo a reconhecer onde aplicar atenção, sabedoria e operacionalidade. Sem essas contrariedades que a vida apresenta, como mestra sábia, nunca nos conheceremos realmente. Sempre que colidimos com as leis naturais ou com as regras que consubstanciam a natureza humana recebemos o alerta a dizer que essas não são boas opções.
Surge então a dor. Além das leis que regulam os fenómenos materiais – a lei da gravidade por exemplo – existem as leis que regem a natureza humana. Estas respondem na medida do conhecimento e da responsabilidade de cada um. Fora isso, mais importante do que o sÌtio em que estejamos È sabermos o que nos cumpre fazer em cada momento. Quem passa a vida a querer receber, quanto mais recebe, mais indigente se revela. Quem aprende a descobrir o prazer de dar com desprendimento percebe o que disse Emmanuel pela mediunidade de Francisco Cândido Xavier: muitas vezes só quando desencarnamos é que percebemos que apenas ficamos com aquilo que demos.
A insistência nessa vertente faz com que se torne uma pessoa rica… de bondade. A dada altura terá, em abundância, para si e para os outros. Para exercitarmos paciência, afecto, humildade e demais qualidades não precisamos de ser santos ou sábios. Basta assimilar os princípios renovadores com que lidamos na doutrina espírita e interessarmo-nos por os aplicar sobretudo junto daqueles com que nos relacionamos e com os quais não nos afinizamos.
Não quer isto dizer que se deve ser masoquista. Há muitos espaços de acção para acções positivas, ninguém precisa de se encavalitar nos outros. No início de um novo ciclo, erguer por momentos o olhar além da muralha dos problemas imediatos abre espaços novos, inspiração inédita, como a folha em branco onde a concretização dos ideias mais nobres pode ser desenhada com a tinta indelével dos exemplos do dia-a-dia. Estamos na vida não para encostarmos na berma do caminho evolutivo, mas para plantar os sonhos do bem comum, avançar sem atropelar os outros, cuidando todos os dias da plantação discreta da caridade, dentro de si próprio.
