Pedagogia Como falar de Deus às crianças?
Jornal de Espiritismo nº 39 · Março 2010Página 153 min
foto loucomotiv “É tão complicado para um adulto compreender o que é Deus, imagine-se para uma criança…” Este pressuposto, tem sido o argumento mais usado para adiar falar de Deus às crianças. Ele baseia-se na ideia de que a criança é um ser ignorante, que nasce sem qualquer conhecimento sobre a vida, sobre o universo, sobre o Criador. Esta visão materialista, completamente contrária à filosofia espírita, ainda se impõe no seio da família espiritualista, que ignora a bagagem de experiências e conhecimentos que todos trazem à nascença em cada nova encarnação na terra.
A criança, fisicamente inocente e dependente do adulto, é sobretudo um espírito reencarnado, que em vidas anteriores passou por vivências onde já reflectiu sobre Deus. Não é por acaso que ela nasce com a aptidão excepcional de fazer perguntas. A sua curiosidade espontânea e natural, leva- -a a procurar respostas que lhe servirão de orientação à medida que amadurece. Como poderemos ocultar-lhe a existência do Pai Criador, se Este é que rege o universo e nos deu a Vida?
Porque fazê-la sentir-se órfã se esse Pai está presente em tudo o que existe? Será que por o adulto não compreender Deus tem o direito de privar a criança de saber que Ele existe? No passado, dentro do movimento religioso institucionalizado, a criança conhecia Deus por imposição: Deus existe, Ele criou-nos, devemos-lhe adoração. Adorá-lo seria prestar-lhe homenagem exterior, através de rituais que nunca eram explicados, nem justificados.
A crença em Deus, tinha como base a devoção, quase sempre “cega”, levada ao extremo, punindo e castigando os descrentes em nome d’Ele. Mas os espíritos que habitam a Terra têm evoluído moralmente, e as crianças de hoje são muito diferentes das crianças de há 100 anos atrás. Há pouco mais de um século, o pequeno ser, indefeso, não detinha quaisquer direitos. Agora as crianças podem expressar-se livremente, tanto no lar como na escola.
Se observarmos com atenção, vemo-las cada vez mais interessadas em conhecer o que as rodeia, em questionar tudo e todos, numa ansiedade constante de buscar respostas para o que não compreende. O paradoxo é que quanto mais curiosa é a criança, menos importância dá o adulto às suas dúvidas, atribuindo-as apenas a uma fase temporária da infância. “Porque é que as nuvens são brancas?”; “quem criou os animais?”; “porque existem árvores?
”; “porque só as mulheres têm filhos?”; “porque há crianças que passam fome?”; “porque há homens de cor diferente?” E se as respostas não surgem, por falta de disponibilidade dos pais e educadores, ou mesmo porque não sabem como responder, à medida que cresce, a criança deixa de questionar, desinteressa-se e conforma-se em não saber. Esta resignação transforma a criança num jovem sem ideais, sem esperança, sem bases sólidas morais que o façam sentir-se seguro num futuro promissor.
Falar de Deus à criança é situa-la na enorme família universal, fazendo-a sentir-se parte de um Todo colectivo, na qual tem as suas responsabilidades e deveres para com a natureza e seus semelhantes. A ideia de que somos todos espíritos irmãos, criados pelo mesmo Pai é facilmente assimilada na infância, pois ela traz há nascença esse sentimento intuitivo. Como poderemos ocultar-lhe a existência do Pai Criador, se Este é que rege o universo e nos deu a Vida?
Porque fazê-la sentir-se orfão se esse Pai está presente em tudo o que existe? Perguntou Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, (p.5). Que dedução se pode tirar do sentimento instintivo, que todos os homens trazem em si, da existência de Deus? A que responderam os espíritos: “A de que Deus existe; pois, donde lhes viria esse sentimento, se não tivesse uma base? É ainda uma consequência do princípionão há efeito sem causa.
” Como falar de Deus às crianças? Com naturalidade, como se fala de um Pai amoroso, a quem devemos amar intimamente, e agradecer a oportunidade bendita da Vida. Fiquemos com um pequeno poema da professora Dora Incontri, retirado do seu livro “Vivências na Escola”: Quem é Ele? Além das estrelas Num lugar sem fim, Lá deve estar Deus, Olhando para mim. Não sei como é Ele, Só como se chama. Não sei como achá-lo, Só sei que me ama.
Não deve ter corpo, Mas tudo Ele vê. A todos escuta, A mim e a você. Eu sei que está além Desse céu que brilha. E eu sei que está aqui: Me chama de filha! Não posso enxergá-lo, Mas sinto uma paz! O que há de melhor É Ele quem faz. Não posso escutá-lo, Mas sei o que diz: Diz que me criou Para eu ser feliz! Regina Figueiredo reginasaiao@gmail.com www.apedagogiaespirita.
