39 — índice de conteúdos

Publicidade Publicidade

Jornal de Espiritismo nº 39 · Março 2010Página 133 min

Partilhar
Idioma

Opinião PUBLICIDADE PUBLICIDADE Asociedade demissionária Um amigo enviou-me um texto interessante de uma conhecida escritora, publicado numa crónica semanal em jornal de referência. Alertava a cronista para as formas subtis de violência nas escolas que não são quantificáveis. foto loucomotiv Na sua análise, os pequenos gestos e atitudes que demonstravam gratidão e respeito foram abolidos das relações sociais. Já não se usam no convívio humano expressões como “bom dia”, “por favor”, “obrigado”.

A palavra é usada nas escolas, com toda a naturalidade, de forma rude, grosseira, ofensiva e preconceituosa. No extremo, os alunos menosprezam os seus professores com desrespeitosa sobranceria (assim como desvalorizam a cultura e o saber). Não diz a autora do texto se, em pelo menos alguns casos, os professores não demonstram igual falta de cortesia. Pressupõe-se que a atitude dos professores é mais facilmente exposta, fiscalizada, reprovada e sancionada que a dos alunos.

O que os torna, em parte, vítimas da profissão. Conclui que isso é consequência de pais ausentes que se demitiram da sua função de educadores e que, contrariando todas as evidências factuais, defendem os seus filhos como se fossem santos e vítimas da injustiça do sistema educativo. Uma vez que a responsabilidade da educação foi transferida para terceiros, já que o tempo em família é escasso, de fraca qualidadequando não é de total indiferença, laxismo e silêncio -, a relação com o mundo não é mediada pelos progenitores.

A educação dos valores foi entregue à televisão, aos videojogos, às tecnologias de comunicação e informação e aos amigos. Se tudo isto é verdade, também não passa de um lugar-comum, de um conjunto de ideias feitas que qualquer um de nós pode subscrever. A focalização no problema da violência nas escolas é um tema que, como muitos outros, anda a reboque, de forma recorrente, de acordo com a oportunidade e o calendário, dos interesses políticos e partidários.

A razão dessa violência é muito mais vasta e profunda. Trata-se da exteriorização de um profundo desconforto e desconcerto perante a vida, uma insatisfação, uma ansiedade, uma tristeza, uma revolta latente que revela uma sociedade depressiva. De onde provém? De todo o lado, não só das famílias e dos pequenos agregados humanos. Um amigo diz que é o “estar desconforme”. Expressa, pela negativa, o desconforto de se adaptar a uma forma que não serve, o negar a formatação.

Trata-se de uma doença social que não está caracterizada nos manuais de medicina. Não está circunscrita a uma região, a um país, a um continente. A pandemia é global e transversal a todas as raças, grupos sociais, religiões, etc. Os sintomas de violência, tensão e alguma demência, são facilmente identificáveis por qualquer observador atento. Esses sintomas exteriores podem ser reprimidos durante algum tempo por medidas legislativas excepcionalmente mais duras, repressivas, menos tolerantes e permissivas: repressão policial, vídeo vigilância, controlo dos meios de informação e comunicação, devassa da vida privada, etc.

Contudo, tudo isto será insuficiente para evitar o colapso eminente deste modelo civilizacional que apenas se adia de forma paliativa por medidas avulsas. O facto é que ninguém dos decisores à escala mundial tem a cura para este “mal da alma”. O que se deseja, no fundo, é mudar para melhor, evoluir. Conclui que isso é consequência de pais ausentes que se demitiram da sua função de educadores e que, contrariando todas as evidências factuais, defendem os seus filhos como se fossem santos e vítimas da injustiça do sistema educativo Apesar do reiterado apelo à cidadania que, curiosamente, se inclui nos currículos escolares, a sociedade mostra-se substancialmente insatisfeita, desiludida, descrente, céptica: está demissionária da sua participação cívica na gestão dos assuntos públicos.

Assume-se a crise como uma irreversível fatalidade. Parece que o barco segue ao sabor da corrente, sem capitão, com uma tripulação amotinada a bordo. É pertinente que nos perguntemos: o que é feito do espírito do cristianismo? Onde se encontram os verdadeiros cristãos? Onde estão os valores do perdão e do amor, da fraternidade e da solidariedade que deveriam adubar toda a sociedade, fertilizar as relações humanas? Há que pensar-se no currículo do Espírito eterno, temporariamente encarnado com a tarefa de progredir.

Provavelmente o “sermão da montanha”, na sua poderosa utopia de futuro, encerre a resposta para a tão desejada paz nos dias presentes e futuros. Efectivamente, sem amor uns pelos outros, sem essa educação dos sentimentos, não é possível edificar, de forma duradoira, o reino dos céus no templo íntimo dos seres humanos. Nada disso se alcança por decreto. E toda a felicidade, afinal, resume-se em fazer pelos outros o que gostaríamos que os outros fizessem por nós.