neira de ser e o desejo de sacudir o espectador com a mensagem grandio
Jornal de Espiritismo nº 4 · 2004Página 194 min
neira de ser e o desejo de sacudir o espectador com a mensagem grandiosa (contundente para o comodismo e indiferença seculares da Humanidade) do responsável pela sua profunda transformação: Jesus Cristo.
Há 12 anos, feliz com o sucesso da sua carreira de actor festejado, cumulado de prémios, fama, fortuna, honrarias, Gibson sentiu que algo faltava na sua vida principesca: um sentido para tudo isso. Uma providencial crise íntima trouxe-lhe a sensação de falência espiritual (sua própria expressão) e reencaminhou-o para a religião da sua infância (1): então a figura de Jesus empolgou-o, fazendo-o estudar e ouvir milhares, literalmente milharesenfatizou de estudiosos e exegetas bíblicos.
O grande objectivo do cineasta seria provocar fortíssimo abalo nos concidadãos. Gibson quis descrever-nos o tratamento brutal a que voluntariamente se sujeitou o Rabi, sem preocupação nenhuma pela própria defesa nem por utilizar o poder, que tinha, de confundir a turba de acusadores desvairados e de se furtar à crueldade dos mesmos, quis que tudo isso despertasse a atenção e sensibilidade dos seus semelhantes, ancestralmente absortos, ainda hoje, no frenesi de egoísmos ocos e efémeros.
Gibson quis ainda evidenciar. deflagrando o seu impacte, aquele AMOR assombroso, espontâneo, que, sem o mais leve queixume, em pleno suplícioe que suplício! - apenas proferia frases de consolo e estímulo (para as mulheres condoídas, depois para o bom ladrão), frases lapidares de inacreditável paciência e de perdão, para os próprios verdugos. A defecção de Judas aparece no filme em apreço, com a caracterização convencional.
Terá escapado ao realizador o ensejo de também com ela sublinhar, a traços bem gortes, a colossal mensagem de amor que se propôs transmitir.
não increpou Judas, não o exprobou, não o condenou, não o excomungoucomo f'amais excomungou quem quer que fosse; Ele, que antes frisara não querer o Pai a morte do pecador, mas sim que se converta e viva ; no horto, Jesus, perfeitamente cônscio da traição que sofria, interpelou o discípulo transviado com a afabilidade de sempre, tratando-o por amigo; e após a morte na cruz, desceu aos infernos, ao mundo espiritual inferior, pois o seu didáctico sacrifício de amor não excluiu Judas nem ninguém, encarnado ou desencarnado, contemporâneo, antepassado ou vindouro.
Aqui, perdoe-me o leitor uma nota pessoalíssima: penso sempre em Judas como um injustiçado pelo tosco sentido popular de justiça que, em algumas celebrações tradicionais do nosso folclore pascal, queima entre apupos a figura de Judas; ora, quem de hoje ou de ontem poderia atirar-lhe a primeira pedra?... E dizem respeitáveis informações mediúnicas que Judas, ao longo de séculos, nos planos espiritual e terreno, se resgatou penosamente da sua proverbial fragilidade .
Reconhece-se a crua e agressiva brutalidade que extravasa do filme de Gibson, mas convenhamos que ela sucedeu de facto há dois mil anos. Convenhamos também que alta percentagem de produção cinematográfica, não só americana, quase obrigatoriamente nos recreia ou mesmo deleita com a violência de punhos, com a violência de toda a variedade e sofisticação de armas. Mas violência contra os vilões da fita. Eis a enorme diferença: na Paixão, de Gibson, é o herói da fita mas também herói da vida real e da Humanidade, que suporta a violência mais impiedosa, em silêncio humilde que nos grita a Sua estupenda grandeza, para nos despertar da semi-anestesia do comodismo e da indiferença.
Conhecida mentora espiritual muito iluminada, que pelo menos em duas existências sofreu o martírio, comentou um dia, através duma mediunidade acima de suspeitas: quando se ama não se tem coragem, é-se coragem. Temos, pois, a receita para a coragem,
- The Passion of The ChristA Mel Gibson FilmOf
e não necessariamente para a coragem de morrer por um alto ideal, porém para a de quase morrer durante anos e décadas de provas e desafios de toda a espécie, por um ideal como o cristão, a exemplo dum Inácio de Antioquia, depois da frustração de não morrer à sanha das feras a que com outros fora lançado. Para espectadores espíritas, julgo merecer toda a consideração a mensagem de Gibson; muita consideração e alguns reparos merecendo também certos comentários ensejados pelo filme.
Por exemplo, quando se comenta que Jesus redimiu a Humanidade, expiando os seus pecados, com o devido respeito por crenças alheias lembremos que a todos e cada um de nós é que compete expiar e reparar os seus próprios erros e desmandos, resgatando-os “até ao último ceitil” ; que só assim, por esforço, renovaçãoemérito próprios, avançamos na evolução da espécie e de cada seu componente individual (2). Lembremos também o princípio espírita (hoje universal) da evoluçãoeo processo que mesmo a nível biológico (3) lhe é intrínseco, a reencarnação: esta, muito mais do que mera crença, vai ganhando hoje foros de tese científica e constitui desde sempre uma lei da própria natureza, portanto uma lei de Deus.
Igualmente anotamos uma inexactidão muito comum: confundir-se no filme a figura de Maria de Magdala com a da mulher adúltera, quando se trata de duas personagens evangélicas bem distintasdetalhe como outros que, na obra de Gibson, não afectam a grandiosidade e oportunidade da sua mensagem. Porque é a mesma mensagem que, na sua força e autenticidade, veio impregnar indelevelmente a História e tantas personagens suas, ilustres ou obscuras, perdurando com a mesma robustez e frescura após dois milênios.
Texto: João Xavier de Almeida
(1) Entrevista de MG a Selecções do Reader's Digest Abril/2004 (2) L.dos Espíritos e Evu.Segundo o Espiritismo (3) Prof lan Stevenson,” Where Reincarnation and Biology Intersect”
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