o(pato)lógicos, psiquiátricos e de saúde mental à luz do
Jornal de Espiritismo nº 4 · 2004Página 34 min
o(pato)lógicos, psiquiátricos e de saúde mental à luz do Espiritismo. Façajáa(s) sua(s) pergunta(s)
A epilepsia eacólera dos deuses
Em 20 de Maio passado escreveu-nos uma pessoa que, por questões éticas, óbvias, citaremos somente as suas iniciais.
Diz ela na mensagem electrónica: Caro Dr. Iso Teixeira, como psiquiatra e espírita o que o senhor sugere: tenho epilepsia e tomo carbamazepina (medicamento), mantendo uma boa qualidade de vida. Todavia, uma amiga sugeriu-me ir a um centro espírita aqui perto, onde disseram para parar imediatamente com esses medicamentos, que só Jfazem mal, pois o meu problema é de foro mediúnico e tenho de trabalhar de imediato nas "reuniões de desobsessão". Eu não entendi, mas parece-me que é uma reunião que serve para os espíritos se comunicarem através de mim. A.P.
Os medicamentos indicados para a epilepsia são os barbitúricos, hidantoinatos, benzodiazepínicos, derivados do iminostilbene, dentre outros. A carbamazepina é um derivado do iminostilbene, com grupo carbamil na posição 5, que lhe confere Érande potência antiepiléptica. E um medicamento cuja estrutura química é semelhante aos antidepressivos tricíclicos, daí ser utilizado também como antidepressivo. Portanto, a medicação está bem indicada e, por isso, a sua "qualidade de vida está a ser defendida.
Caríssima A. P., quanto ao conselho da sua amiga de "parar imediatamente os medicamentos", não me parece correcto. De facto, os medicamentos anticonvulsivantes, assim como quase todos os medicamentos provocam efeitos colaterais, indesejáveis, mas os benefícios auferidos com o seu uso são grandes e, por isso mesmo, os médicos competentes prescrevem-nos. Em nenhum caso de transtorno mental ou cerebral, com risco de acidente, como no caso de perda de consciência de um epilépticocomo seria o seu caso -, não se deve interromper o tratamento, bruscamente, pois a sra.
poderia sofrer o chamado estado-de-mal epiléptico, em que há crises convulsivas sucessivas, podendo levar o cérebro à exaustão e, inclusive, levar à desencarnação.
Discordo de quem crê que a epilepsia seja obsessão. Portanto, por que "reuniões de desobsessão" para tratar pessoas com epilepsia? Já escrevi alguns artigos sobre o assunto no Jornal Espírita (JE) da Federação de S. Paulo (FEESP), aqui do Brasil... A propósito, a tendência humana ao espírito de sistema leva muitos ao desejo de explicar a maioria das doenças mentais como obsessões, às vezes, sem nem as conhecerem; essa é uma atitude semelhante à dos psicanalistas que desejam tudo explicar através do inconsciente... Não devemos colocar as nossas construções teóricas em toda a Humanidade, esquecendo-nos da individualidade de cada caso e do livre-arbítrio do homem.
Quanto a "uma reunião para os espíritos se comunicarem através" da si, caríssima A.P,, também discordo, pois não aconselhamos a participação de pessoas doentes (especialmente as ãue sofrem de epilepsia) em reuniões mediúnicas. Também a esse respeito já escrevemos.
Passes e preces são recursos genéricos para qualquer patologia mental ou obsessãose bem realizados, mal não farão! Contudo, não se deve abolir o uso de medicamentos somente
pelo facto de um médium (por melhor que ele seja) acreditar que o caso é de obsessão...
As epilepsias são decorrentes de alterações orgânicas, do cérebro, e caracterizam-se grincipalmente por uma alteração da ioelectrogénese cerebral, com hiperssincronia eléctrica neuronal (das células cerebrais)... No passado, na mais remota Antiguidade, quando não se conhecia a doença, os epilépticos eram tidos como possuídos pelo demónio e isso fica bem claro no relato bíblico do menino endemoninhado (Marcos, cap. 9,vv.
13-28) e a esse respeito KARDEC comentou: (...) Provavelmente, naquela época, como ainda hoje acontece, atribuía-se à influência dos demónios todas as enfermidades cuja causa não se conhecia, principalmente a mudez, a epilepsia e a catalepsia - (o grifo é nosso) - (ALLAN KARDEC. A Génese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Cap. XV, item 33 (3 ? frase), Edit. FEB, 25 ed., Rio de Janeiro, 1982, p. 329). Também na Antiguidade e até na Idade Média considerava-se que os epilépticos ou eram endemoninhados ou sofreriam de um "mal sagrado" (morbus sacer), consequência da "cólera dos deuses", como em HERCULES, por exemplo...
comum lermos e ouvirmos pessoas dizerem que as obsessões são causas, frequentes, de epilepsia; talvez, por isto, a sua amiga deva ter ouvido tal informe... Certa vez, quando fui entrevistado numa emissora espírita, algumas
essoas chegaram a dar explicações 'científicas", alegando que as "moléculas"(?) do perispírito actuam na "rede fluídica" do outro. Tais pessoas supõem conhecer Física, arriscam-se até a emitir conceitos de Física
uântica, mas, talvez, não saibam fazer o
iagnóstico diferencial entre epilepsia e hísteroepilepsia. Esta, sim, talvez pudesse ser causada por obsessores... Contudo, as epilepsias verdadeiras, repetimos, são doenças físicas. Após a descoberta do electroencefalograma (EEG), por HANS BERGER, em 1924, ficou provada a organicidade do distúrbio e, hoje, temos exames mais sofisticados, como o EÉEG com mapeamento cerebral computadorizado.
No entanto, espíritas sem conhecimento de causa, às vezes bem intencionados, como a amiga da sra. A.P., são capazes de dar conselhos estapafúrdios como aqueles referidos e, o que é pior, há espíritas renomados que defendem a mesma tese... Obviamente, um epiléptico pode sofrer uma obsessão, como qualquer doente orgânico, mas neste caso a obsessão não é causa. Por que Deus permite uma obsessão numa pessoa já afectada por uma doença, por que o "anjo de guarda" não a proteÉe? A esse respeito disse KARDEC: "Pois que há espíritos maus que obsidiam e espíritos bons que protegem, perguntam muitos se os primeiros são mais poderosos que os segundos. Não é que o bom espírito sej
