Editorial foto loucomotiv Naquela tarde, Isabel levou a filha de tenra
Jornal de Espiritismo nº 40 · Maio 2010Página 25 min
idade à piscina. Na cidade do interior da região Centro chamada Fundão, ali não há nem centro espírita, nem palestras esporádicas, e até a biblioteca naquela altura cogitara possuir «O Livro dos Espíritos» ou outro livro de Allan Kardec. Mas, com mais alguns anos do que esta jovem mãe pouco dada naquela altura ao mundo virtual da internet, uma outra senhora, em amena cavaqueira, falou-lhe do seu hi5*.
Confesso-lhe que eu próprio, ao alinhar estas palavras, diferentemente do meu amigo Vasco, webdesigner, este sim sempre na crista da onda, nunca espreitei essa coisa de nome esquisito, mais um produto emergente da internet. Isabel não evitou a proposta da amiga e diz: «Achei o hi5 interessante, pois encontrei jovens da aldeia em que cresci», a quem tinha perdido o rasto. E continua: «O mais importante foi que, por causa disso, é que descobri a Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal».
Recorda: «Experimentei escrever «espiritismo» no Google e apareceu a associação. Fiquei maravilhada, finalmente encontrava o mundo que sempre intuí e desejava encontrar». Até então, Isabel «só conhecia o espiritismo graças aos livros da codificação espíritavai fazer um anoe tudo porque entrei numa livraria e «O Livro dos Espíritos» estava na prateleira em destaque (para os meus olhos). Folheei-o e tive de o trazer comigo, depois foram os restantes livros de Kardec».
Faltava-lhe saber que não estava assim tão só, «e isso eu descobri graças à Internet», afirma. Contou-me a sua história há um par de meses. Lembrei-me logo da década de 70, uma altura em que praticamente todas as pessoas que se encontrava numa associação espírita ou ali estavam em busca de uma cura para perturbações da saúde que os tratamentos médicos não resolviam ou então estavam ali para controlar uma mediunidade desequilibrada.
Estar no centro espírita em busca de novos horizontes em matéria de conhecimentos inovadores, procurar o movimento para colaborar sem fito de contrapartida tão directa, isso era coisa que não se via. Passados 40 anos, o cenário mudou um pouco nas associações espíritas e muito na sociedade em geral. Já ninguém está isolado e os valores que se desdobram como informação na doutrina espírita nunca estiveram tão «em cima do alqueire» como hoje.
Um escolho apenas pede para ser vencido, taco a taco, dia a dia: a diferença entre conhecer e aplicar, uma vez que conhecimento sem vivência equivale a uma música escrita só por si incapaz de se ouvir. Será talvez altura de observar os ritmos da Primavera e aproveitar a onda de renovação e criatividade para dar maior progresso ao passo evolutivo enquanto o relógio dos afectos nos ilumina e o calendário da sabedoria agita as suas páginas diante dos nossos olhos.
Por JG * O Hi5 é uma rede social virtual que, até 2008, é dos 20 sites mais visitados na Internet (fonte: http://pt.wikipedia.org). A meada A conversação entre as duas jovens senhoras se desenvolvia no autocarro. - Não és capaz de imaginar o meu amor por ele... - Não posso concordar contigo. - Decerto que não me entendes. - Mas, Dulce, chegas a querer o Dionísio, tanto quanto o teu marido? - Não tanto, mas não consigo passar sem os dois.
- Meu Deus! Isso é coisa de casal sem filhos! - É possível... - Não achas isso estranho, inadmissível? - Acho natural. - Noto-te demasiadamente apegada, não é justo... - Sei que não me compreendes... - Simplesmente não concordo. - Mas Dionísio... - Isso é uma psicose... Dulce e a amiga, no entanto, ignoravam que Lequinha, vizinha de ambas, se sentara perto e estava de ouvido atento, sem perder palavra. De paragem em paragem, cada um volveu ao lar suburbano, mas Lequinha, ao chegar a casa, começou a fantasiar...
É certo que notara que Dulce chegara acompanhada de um moço ao tomar o eléctrico, aliás, pessoa de cativante presença. Recordava- -lhe as palavras derradeiras: “Vai tranquila, amanhã telefonarei...”. Cabeça quente, vasculhando novidades no ar, aguardou o esposo, colega de serviço do marido de Dulce, e tão logo à mesa, a sós com ele para o jantar, surgiu novo diálogo: - Não imaginas o que vi hoje... - Diz, mulher... - Dulce, calcula!
Dulce, que sempre nos pareceu uma santa, está de aventuras... - O quê? - Vi com os meus olhos... Um rapagão seguia-a, mostrando gestos apaixonados e, por fim, no autocarro, ela própria se confessou à Cecília... Chegou a dizer que não consegue viver sem o marido e sem o outro... Uma calamidade! - Ah! Mas isso não fica assim, não! Júlio é meu colega e vai saber! A conversa transitou através de comentários escusos e, no dia mediato, pela manhã, na oficina, o amigo ouve do amigo o desabafo em tom sigiloso...
- Júlio, entende... Somos companheiros e não posso enganar-te... O que vou dizer representa um sacrifício para mim, mas falo para o teu bem... O teu nome é limpo demais para ser desrespeitado... Não posso ficar calado... A tua mulher... E o esposo escutou a denúncia, longamente cochichada, qual se lhe enterrassem afiada lâmina no peito. Agradeceu, pálido... Em seguida, pediu licença ao chefe para ir a casa, alegando um pretexto qualquer.
No fundo, porém, ansiava por um entendimento com a esposa, aconselhá-la, saber o que havia de certo. Deixou o serviço, no rumo do lar e, aí chegando, penetrou a sala, agoniado... Estacou, de improviso. A companheira falava, despreocupadamente, ao telefone, no quarto: “Ah! Sim!”, “Não há problema”, “Hoje mesmo”.“Às três horas...”. “O meu marido não pode saber”. Júlio retrocedeu, à maneira de cão espantado. Sob enorme excitação, retornou à rua.
Logo após, notificou na oficina que estava doente e pretendia medicar-se. Retornou a casa e tentou o almoço, em companhia da mulher que, em vão, procurou fazê-lo sorrir. Acabrunhado, voltou a perambular pelas vias públicas e, poucos minutos depois das três da tarde, entrou subtilmente no lar... Aflito, mentalmente descontrolado, entre- abriu devagarinho a porta do quarto e viu, agora positivamente aterrado, um rapaz em mangas de camisa, a inclinar-se sobre o seu próprio leito.
De imaginação envenenada, concebeu a pior interpretação. O pobre operário recuou em delírio e, à noite, foi encontrado morto num pequeno galpão dos fundos. Enforcara-se em desespero... Só então, ao choro de Dulce, o mexerico foi destrinçado. Dionísio era apenas o belo gatinho angorá que a desolada senhora criava com estimação imensa; o rapaz que a seguira até ao autocarro era o veterinário, a cujos cuidados profissionais confiara o animal doente; o telefonema baseava-se na encomenda que Dulce fizera de um colchão de molas, para uma afectuosa surpresa ao marido, e o rapaz que se achava no aposento íntimo do casal era, nem mais nem menos, o empregado da casa de móveis que viera ajustar o colchão referido ao leito de grandes proporções.
A tragédia, porém, estava consumada e Lequinha, diante do suicida exposto à visitação, comentou, baixinho, para a amiga de lado: - Que homem precipitado! Morrer por uma treta! A gente fala certas coisas, só por falar! Fonte: http://omensageiro.com.br/mensagens/mensagem-308.
