Editorial foto loucomotiv O golpe de vento O menino de oito anos ficou
Jornal de Espiritismo nº 42 · Setembro 2010Página 24 min
a olhar, preocupado, o irmão, adulto, dizer num desabafo à hora do jantar: «Eu não sou feliz». Nunca passou fome, tem o que vestir, é bom aluno, tem namorada, os pais não são tiranos… Perguntou-lhe a criança, sem perceber: «Tu não és feliz?». Lá de cima da idade além dos 20, deixou cair as palavras, num argumento estereotipado: «Quando chegares à minha idade perceberás o que estou a dizer».
O assunto não podia fechar ali, pelo que diz o petiz ainda estupefacto: «Mano, olha que eu sou feliz!». «E o que é ser feliz?», pergunta o mais velho. O pequenino, que não joga muito bem com as palavras, remata após alguns segundos: «É estar assim com a cara», e repuxa os cantos da boca como se estivesse a sorrir. Bastou para que o mano mais velho ficasse mais feliz. A inocência da infância atira ao quotidiano algumas chaves capazes de abrir as portas para outras luzes, outros horizontes.
Confesso que não sei se há uma hormona da felicidade que seja mais fácil de despoletar nalguns organismos do que noutros, mas parece certo pensar que tal hormona pode ser mais ou menos activada segundo os hábitos mentais de cada um. Depressa se liga este assunto a outro, como o das queixas de solidão que algumas pessoas partilham pela internet. Quando se explica que toda a dor, física ou emocional, é o efeito de algum processo através do qual a natureza nos está a dizer «Cuidado, não estás a ir da melhor maneira; resolve esse item que te aponto», recuam e lá ficam a circular em torno de si próprios.
A vida ensina que a solidão surge sobretudo em alguém que fica à espera que os outros vão ao seu encontro e, se calhar, o que faz falta não é avisar a malta, mas sim dirigir-se aos outros, ordenar ideias, trabalhar, participar, construir, ser útil. Os outros nunca serão uma moldura para o ego de quem quer que seja mas num quadro de solidariedade são óptimos companheiros de jornada evolutiva. É assim neste plano de materialidade como no plano espiritual.
Se a fonte da felicidade não reside na abundância que vemos nos países chamados civilizados, a falta dela pode advir pela falta de saúde e de alimento. Ninguém vai ser mais feliz porque está no outro lado da vida. É sempre bom cairmos em nos próprios para nos reerguermos. Todo o tempo é uma página nova que a bondade maior nos dá para que algo de bom e de útil seja feito. Cumpre-nos sorrir e arregaçar as mangas para enfrentar com coragem os problemas e as bênçãos que vêm sempre pelo caminho.
Fora isso, é justo procurar aprender com o menino: abrir-se à vida, participar, perdoar e aprender sempre, o exemplo que dá a todos que têm possibilidade de olhar para ele. Por Jorge Gomes Ali, na solidão do quarto de estudo, Joanino Garcia descerrara a grande janela, à procura de ar fresco. Repousara minutos breves. Agora, porém, acreditava ter chegado ao fim. Julgara ter lido numa obra de clínica médica a própria sentença de morte.
Facilmente sugestionável, há muito vinha dando imenso trabalho ao médico. E, não obstante espírita convicto, deixava-se levar por impressões. Em menos de dois anos, sentira-se vitimado por sintomas diversos. A princípio, dominado por bronquite rebelde, compulsara um livro sobre tuberculose e supusera-se viveiro dos bacilos de Koch. Tempo e dinheiro foram gastos em exames e chapas. Entretanto, mal acabara de se convencer do contrário, quando, numa noite, ao sentir- -se trémulo, sob o efeito de determinada droga, começou a estudar a doença de Parkinson e foi nova luta para que lhe desanuviasse o crânio.
Joanino mostrara-se contente, por alguns dias; entretanto, uma intoxicação alterou- -lhe a pele e ei-lo crente de que fora atacado pela púrpura hemorrágica, obrigando o médico e a família a difícil trabalho de exoneração mental. Naquele instante, contudo, via-se derrotado. Experimentando muita dor, buscara o consultório na antevéspera e o clínico amigo descobrira uma artrite reumatóide, recomendando cuidados especiais.
No grande sofá, depois de leve refeição, ao sentir pontadas relampagueantes no ombro esquerdo, tomou o livro de anotações médicas e abriu no capítulo alusivo à moléstia que lhe fora diagnosticada. Antes de iniciar a leitura, levantou-se com dificuldade, para um gole de água, tentando aliviar as agulhadas nervosas, e não viu que o vento virara as folhas do volume. Voltando, sobressaltado leu nas primeiras linhas da página: “A moléstia assume a forma de dor pungente e agonizante.
Geralmente a crise perdura por segundos e termina com a morte. Sofrimento agudo e invencível. A dor começa no ombro esquerdo a reflectir-se na superfície flexora do braço esquerdo até às pontas dos dedos médios”. Joanino rendeu-se. Quis gritar, pedir socorro, mas “a dor agonizante”, ali referida, crescia assustadora. Pensou na mulher e nos quatro filhinhos. Suava. Afligia-se como que sufocado. Não podendo resistir, por mais tempo, aos próprios pensamentos concentrados na ideia da desencarnação, rendeu-se à morte.
Despertando, porém, fora do corpo de carne, afogado em preocupações, ao pé dos familiares em chorosa gritaria, viu o benfeitor espiritual que velava habitualmente por ele. O amigo abraçou-o emocionado, e falou: - É lamentável que tenhas vindo antes do tempo... - Porquê? – redarguiu Garcia, arrasado – Li os sintomas derradeiros de minha enfermidade. - Houve engano – explicou o instrutor –, os apontamentos do livro reportavam-se à angina de peito e não à artrite reumatóide como a sua leitura fez supor.
A corrente de ar virou a página do livro. Possuias, na verdade, um processo anginoso, mas com 14 anos de sobrevida... Entretanto, com o peso da sua tensão mental... Só aí Joanino veio a saber que morrera, de modo prematuro, em razão da sensibilidade excessiva, ante a leitura alterada por ligeiro golpe de vento. Fontehttp://www.omensageiro.com. br/mensagens/mensagem-269.
