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Educação As crianças podem filosofar?

Jornal de Espiritismo nº 43 · Novembro 2010Página 154 min

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foto loucomotiv “Que se ensine a todos a conhecer os fundamentos, as causas e as finalidades de todas as coisas.” J.A. Comenius “Oh mãe, porque é que as legendas são amarelas?” perguntou o meu filho de 8 anos enquanto assistíamos a um filme em família… Ao fim de uma dúzia de perguntas sem resposta, adormeceu. Como mãe, educadora, nem sempre me sinto predisposta para responder. Nem sempre sinto vontade de questionar.

E apesar da afeição que nutro pelos meus filhos, nem todos os dias sou capaz de lhes dar a atenção adequada. Habituamo-nos a olhar para as questões sistemáticas das crianças como a idade dos porquês. Respondemos também de forma preconceituosa, dando como certo ou errado, verdadeiro ou falso, o nosso juízo valorativo perante tudo e todos. Raramente filosofamos em família. Raramente temos tempo para nos sentarmos com os filhos simplesmente a conversar sobre o Mundo, a Vida, Deus… Raramente somos só ouvintes das nossas crianças, ou promovemos momentos de pura reflexão em conjunto.

Se levarmos o dilema para a Escola, o distanciamento entre educando e educador é maior e, as questões ficam, inevitavelmente, por responder. Existem “matérias” para dar, programas a serem cumpridos, e não há espaço para escutar dúvidas, levantar questões que saiam do âmbito das disciplinas. Matthew Lipman, professor de Filosofia da Universidade de Columbia, nos E.U.A., criou em 1969 um programa para crianças dos 3 aos 14 anos, a que chamou Filosofia para crianças.

Auxiliado por Ann Margaret Sharp criaram “novelas” ou pequenas histórias que levam as crianças, adolescentes e jovens a reflectir sobre conceitos como a Verdade, a Justiça, a Liberdade raramente analisados pelas disciplinas na escola. Movidas pelo interesse, as crianças aprendem a pensar, a dialogar, a colaborar com os outros, a melhorar o auto-conhecimento, a enriquecer o vocabulário, a melhorar as capacidades de leitura e, essencialmente, o pensamento crítico.

Pela criação de desafios, o educando aprende a conhecer-se, a conhecer os outros e o mundo que o rodeia. O programa proposto por Matthew Lipman tem em conta a curiosidade e a espontaneidade da criança. Promove a discussãoea reflexão sobre uma interdisciplinaridade de conteúdos, ultrapassando as dificuldades de continuidade ainda tão presentes no ensino escolar. Em simultâneo apreendem princípios lógicos, éticos, sociais, filosóficos.

Não se destina a criar mais uma disciplina, nem apenas a ser usado nas escolas. É um convite aos pais, às crianças a encetarem uma viagem que começa dentro de cada um e termina no universo… E o que tem este programa a ver com espiritismo? A aplicação da Filosofia para Crianças não se consigna às quatro paredes de uma escola. Os educadores que compreenderem a sua última finalidade farão uso do programa no dia-a-dia, em família, no trabalho, colaborando na construção de uma sociedade mais idealista.

Os educandos renovarão a sua visão da vida, onde tudo tem justificação de ser e existir, onde tudo pode ser reflectido e sentido, onde a busca da verdade se torna possível não só individualmente, mas em conjunto, respeitando as singularidades de cada um, convivendo num mundo em harmonia. É preciso reconhecer que fazer filosofia é pertencer a uma comunidade cujos membros ensinam uns aos outros a fazer ambas as coisas.

Raramente somos só ouvintes das nossas crianças, ou promovemos momentos de pura reflexão em conjunto. Não é possível educar para a honestidade, a solidariedade, o respeito, especialmente quando se instrui de forma coerciva, pela imposição de regras, de normas, de verdades, que não são reflectidas, discutidas e compreendidas. Rita Foelker, espírita brasileira, professora de filosofia, criou um programa que chamou de Filosofia Espírita para Crianças que une o espiritismo ao método proposto por M.

Lipman. Na sua proposta considera que os valores fundamentais para uma vida digna e feliz, voltada à evolução do Ser espiritual, levando em conta a sua participação na vida social e planetária, são, segundo a Filosofia Espírita para Crianças: O Auto- -conhecimento, a Autenticidade, a Auto- -responsabilidade, a Féeo Amor. A autora escreve ainda: «Não se aceitam ideias como verdadeiras por imposição, mas sabendo porque as aceitamos.

Esta é a essência da atitude filosófica: compreender o sentido e as consequências da realidade». «As crianças são filósofas espontâneas. Não precisamos de lhes impingir um olhar admirado e curioso perante a vida, porque querem, com entusiasmo, saber o que são as coisas e porque elas são assim e não de outro jeito». Podemos assim afirmar que as crianças não só podem filosofar, como devem ser criados ambientes propícios para que o favoreçam.

Dizem os filósofos que filosofar é pensar, e se para Descartes pensar era razão de existir, então filosofar é sinónimo de existência. Desde que nasce que a criança toma contacto com o Mundo que nos circunda, questionando-se a toda a hora sobre o que não compreende, e sem obter respostas ela não progride. Aliás, a partir do momento que deixa de questionar surge o conformismo que é oposto à evolução. Por tudo isto, e muito mais que ainda há por descobrir, vamos filosofar em conjunto, com as crianças.

É caso para dizer: Mãos à obra! Texto: Regina Figueiredo reginasaiao@gmail.