Reportagem Palestra do Divaldinho Mattos Oito e meia da noite
Jornal de Espiritismo nº 43 · Novembro 2010Página 126 min
As ruas começam a ficar desertas. A cidade já despejou a sua população diurna, o trânsito abranda. Alguns comerciantes ainda estão, de porta fechada, a fazer arrumações. Nas churrasqueiras viram-se frangos, para os que não tiveram tempo de preparar jantar. É a hora em que as brigadas de limpeza começam a lida, nos escritórios, nas lojas, nos edifícios públicos.
Passa por mim um grupo de jovens de estilo “gangsta”, nas suas bicicletas BMX, cigarro na boca e garrafas a chocalhar nas mochilas, berrando obscenidades incoerentes. Os graffitti a esta hora parecem fazer mais sentido, demarcando os territórios em código. Vem aí a noite. A cidade está cansada, como aquela dona de casa que, já trôpega, ainda varre a varanda. E, para ser sincero, a minha habitual e permanente alegria estremece um pouco, sob as rajadas de vento frio deste Outono, que nos apanham de surpresa ao fim de dia de Verão de S.
Martinho. Se cerca de 50% dos europeus são manifestamente ateus, e os restantes incluem muitos agnósticos e muitos crentes superficiais, concluo que a grande maioria dos meus concidadãos está demasiado embrenhada nas lutas e paixões do dia-a-dia para ter disposição de procurar saber se existe mais que “isto”. E “isto” nem anda famoso. Nunca andou. Considero-me muito mais imperfeito do que a maioria destas pessoas. E talvez por isso Deus me tenha dado oportunidade de saberaté por experiência própriaque a vida não se resume a esta passagem pela Terra, ao prosaico casa-trabalho-casa ou às alternativas mais radicais de quem quer mais que “isto”, mas vê sempre esse ideal impreciso a fugir.
Como a cenoura na ponta do pau, à frente do burro. Aperto o passo. São quase nove da noite e a palestra do Divaldinho Mattos vai começar. No centro espírita estão pessoas como aquelas com que me cruzei na rua. Não há ninguém em transe, não há cânticos nem gente em convulsão a louvar o Senhor. Há pessoas normais, das mais diversas. Com as qualidades e defeitos das outras, unidas pelo desejo de se melhorarem para melhor servirem o próximo.
Na modesta sub-cave de um prédio, apertadinhos, vamos tomando lugar nos banquinhos de plástico. Mais uma vez lembro as reuniões dos Primeiros Cristãos, no Livro dos Actos dos Apóstolos. Poucos, humildes, incompreendidos, discretos, humanos, cheios de amor. O Divaldinho, simpático e modesto como sempre, tomou a palavra, e durante uma hora levou-nos em visita guiada ao mundo espiritual. Aos primeiros golpes da sua boa disposição, o vago sentimento de um ocidental* que me espreitara na rua, dissolve- -se em pétalas de luz.
O mundo de provas e de expiações pode esperar. A viagem decorre agora em dois mundos, e os ângulos soturnos deste têm explicação no outro. Os Espíritos disseram que este nosso mundo é cópia imperfeita do mundo espiritual. E Jesus disse que há muitas moradas na casa de seu Pai. O Divaldinho conta a história da reencarnação de Segismundo, segundo a obra “Missionários da Luz”, de Chico Xavier, pelo Espírito André Luiz. A morada espiritual é a colónia “Nosso Lar”, que o mundo agora pode idealizar a partir do filme homónimo.
Divaldinho conta a história singela, e comenta a profundidade moral dos relatos. Chama a atenção para que nos anos de 1940 estas obras anteciparam tecnologias como os computadores pessoais ou os discos de DVDo mundo material vai copiando o mundo espiritual. Mas adverte que não é a partir dos romances mediúnicos que alguém vai aprender Espiritismo. E cita Chico Xavier, seu amigo, que aconselhava a que se estudassem as 5 obras básicas dos Espíritos, codificadas por Allan Kardec.
Durante 10, 20, 30, 40 anos, toda a vida. Chico desencarnou deitado na sua cama, a estudar “O Livro dos Espíritos”. Aprender sempre... Chico dizia que a leitura das 5 obras básicas, se muda uma pessoa, pode mudar o mundo. O nosso mundo ainda tão desconhecedor das realidades maiores, dois mil anos após Jesus cá ter passado. Divaldo Matos de Oliveira, conhecido como Divaldinho Mattos, é um divulgador espírita brasileiro, idealizador e fundador de várias instituições em Votuporanga, no interior do Estado de São Paulo, no Brasil.
Dirige o Grupo Espírita Maria de Nazaré desde 1982 e os seus departamentos: Centro Espírita Paulo de Tarso; Centro Espírita Fé Amor e Caridade; Centro Espírita Iracema Laço Veronezzi; Núcleo Assistencial Espírita Auta de Souza; Comunidade Espírita Joanna de Angelis; Lar Beneficente Celina e a Casa Editora Espírita Pierre-Paul Didier. No Lar Beneficente Celina, colaboram mais de 200 voluntários espíritas. Cuidados médicos, escolarização, alimentação, são proporcionados à população carenciada de Votuporanga, Estado de São Paulo, Brasil.
Como esta obra, há muitas outras obras espíritas. Ouve-se pouco falar delas, porque os espíritas não têm por hábito alardear o bem que fazem. Citamo-lo nesta oportunidade para lembrar que estas iniciativas erigem na Terra comunidades onde o amor ao próximo é a Lei, tal como em “Nosso Lar”, que foi tema da palestra. Por Roberto António Carlos Baccelli em Portugal Pela primeira vez Carlos Baccelli visitou Portugal, tendo uma vasta programação de palestras e seminários, em várias instituições espíritas que gentilmente o receberam, como é apanágio dos espíritas.
Em sua digressão por nosso país, as suas palestras e seminários versaram sobre a obra mediúnica de Francisco Cândido Xavier, e a personalidade do mesmo, grande médium. Era uma lacuna que se sentia no Movimento Espírita em Portugal. Não se falava praticamente em Francisco Cândido Xavier. Para muitos espíritas portugueses ele era apenas um médium que tinha recebido o Espírito de Emmanuel, e André Luís. Nada mais. Ora Chico Xavier, como mais propriamente é chamado, não era simplesmente um médium que deixou em sua obra psicográfica um trabalho de vulto, tão grande e valioso é esse trabalho mediúnico, que podemos dizer sem receio, que é a continuidade da Coodificação.
Sem o trabalho de André Luís seria impossível para nós entendermos o que é o mundo espiritual, o que nos aguarda na outra dimensão, para onde um dia retornaremos, pois que de lá viemos. Naturalmente que sendo Carlos Baccelli discípulo de Chico Xavier por mais de 40 anos, ele é a personalidade que mais pode dar testemunho deste Homem, com letra grande, que esteve entre nós e que viveu o Evangelho em plenitude. Deixou não só obra psicogáfica, deixou acima de tudo o exemplo dignificante de como o Evangelho deve e pode ser vivido.
Por isso, era importante que ao se comemorar o centenário de sua morte, ele fosse conhecido pelos Portugueses, como ele é na verdade, não só como médium, mas alguém que atravessou o século XX, penetrou no século XXI, com a mesma postura crística. Ele trazia Cristo no coração, poderemos dizer que já não era ele quem vivia mas o Cristo, tal era a sua vida, numa entrega total e absoluta, ao Amor Maior, que é Jesus. Então Carlos Baccelli veio e falou desse coração cheio de luz, especificou tanto quanto lhe foi possível o que representam as informações da obra de André Luís, para que não continuemos a supor… mas a saber como é a vida noutras dimensões.
Nas suas palestras convidou-nos a estudar, não só a ler superficialmente, como quem lê um romance, mas a estudar e perceber o conteúdo das lições vividas e aprendidas pelo Espírito comunicante. Em todas as casas foi recebido com expectativa, o que é natural, mas muito bem recebido e respeitado. Entretanto todos desejam que ele volte, e casas há que não foram contempladas com sua visita, mas já houve telefonemas a pedir que não fossem esquecidas na próxima programação, o que nos alegra, pois que todos devem ser bem- -vindo, para fazermos jus ao que se diz dos portugueses que são um povo acolhedor, e simpático no receber, e mais ainda, não esquecermos o que Jesus referiu quando se dirigiu a Helil, sobre sua próxima reencarnação: “E tu Helil, renascerás entre um povo humilde e trabalhador…”.
Bom será que não percamos essas qualidades que o Divino Mestre apontou. Coisas muito bonitas como exemplo de caridade cristã, pudemos apreciar em Baccelli, quando atendeu com afecto, quem precisava, duma palavra, dum esclarecimento. Carlos Baccelli veio, conquistou amigos, e cumpriu seu programa integralmente, tanto em Portugal quanto em Londres. Agora que veio e abriu uma fresta por onde jorrou um pouco mais de luz, esperamo-lo outras vezes, para que esta fresta se alargue e com mais luz possamos ser beneficiados.
Texto: Julieta Marques. Fotos: Toni.
