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Jornal de Espiritismo nº 43 · Novembro 2010Página 135 min

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Opinião PUBLICIDADE PUBLICIDADE Maria de Magdala: a pecadora-caridosa Para os homens de todo o Mundo, uma das principais singularidades do cristianismo é a da ressurreição de Jesus três dias após o desencarne na cruz do Gólgota. Muitos foram os profetas que procuraram trazer uma mensagem religiosa aos que os rodeavam. Única, porém, foi a ponte estabelecida entre o suspiro final do corpo e a imortalidade do espírito. Mas quem seria aquela a quem o Mestre, preterindo seus Apóstolos e sua mãe, escolheria para testemunhar a primeira apariçãoem corpo perispiritualapós o desencarne?

Que passado cercaria Maria de Magdala e que futuro a aguardaria? Maria a Madalena seria então Maria de Magdala, cujo cognome proveio da sua aldeia natal (ou de permanência), Mágdala (hoje el-Medjdel), vila situada perto da margem ocidental do lago da Galileia, perto de Tiberíades. Esta não deve ser confundida com Maria de Betânia, irmã de Lázaro. Maria de Magdala foi aquela a quem Jesus expulsou sete espíritos obsessores, tendo acompanhado o Messias até ao expirar final.

Portadora de uma beleza física fora do comum, partilhava a companhia de patrícios romanos, entregando-se a prazeres pelos quais se tinha deixado seduzir quando ainda jovem e formosa. O Talmud apresenta-a como casada inicialmente com o judeu Pappus Ben Judah, a quem teria abandonado para se unir a um oficial de Herodes chamado Panther. E Humberto de Campos relata-nos que Maria de Magdala “havia caminhado sobre as rosas rubras do desejo, embriagando-se com o vinho de condenáveis alegrias”.

Amélia Rodrigues complementa ainda referindo ser a sua condição especificamente a de meretriz. Esclareça-se, por fim, que em nada se deverá relacionar com o episódio da pecadora que é salva do apedrejamento na praça pública. Maria era ainda muito jovem, mas profundo tinha sido o sofrimento e as dificuldades ultrapassadas na infância e adolescência. Com os ganhos de vida censurável, havia tomado posse de um palacete luxuoso.

Mas a actividade que lhe havia proporcionado tamanhos tesouros, tinha-lhe trazido o desprezo dos entes queridos e a solidão de todos os outros. De dia, as mulheres invejavam-na e odiavam-na e os homens perseguiam-na, tentando-a. De noite, esta infelicidade era substituída pela tortura das obsessões. O que mais ansiava era… Paz! Maria de Magdala terá travado conhecimento com Jesus numa das habituais pregações que o Senhor realizava, não longe da vila que habitava.

Cansada da vivência voluptuosa, o seu coração ambicionava já por amor verdadeiro. Instigada pelas servas que descreviam o olhar fascinante d’O Libertador, procura-O em Cafarnaum, na casa de Simão Pedro: “- Vai, Maria! – Diz-lhe JesusSacrifica-te e ama sempre. Longo é o caminho, difícil a jornada, estreita a porta; mas, a fé remove os obstáculos... Nada temas: é preciso crer somente!” Alguns dias depois, soube que Simão o Fariseu, homem importante na cidade, ia receber o Cristo no seu palacete.

O ambiente opulento de luxo tinha tornado a festa enfadonha. Porém, já perto do final, entra correndo pela sala uma mulher despenteada e em lágrimas, banhada em suor e de aspecto enlouquecido, que se deita aos pés do Cristo. Simão o Fariseu reconhece-a, estupefacto! Também tinha visitado o seu lar de perdição. Mas Maria ignora-o, querendo apenas demonstrar a sua gratidão a Jesus pela transformação ofertada. Lágrimas emocionadas banhavam os pés do Messias, que enxugou com os próprios cabelos antes de derramar eles o unguento balsamizante.

E desde então foi acompanhando o grupo do Mestre. Interrogações vêem sendo feitas sobre o tipo de relação mantida entre ambos. Fraternal, apostolar ou conjugal? Em função da sua natural ascendência espiritual sobre os demais, Jesus estabelecia com todos uma relação fraternal, isso é inegável. Aliás, a extrema humildade com que ensinava a fraternidade universal, permitia isso mesmo. E sendo certo que existem passagens que demonstram que Maria também obteria esclarecimentos adicionais acerca dos mistérios da vida, transparece a ideia de que visavam apenas o esclarecimento de dúvidas, próprias de quem escuta com atenção os ensinamentos e, depois de reflectir sobre eles, busca orientação para indagações pessoais.

Mas a forma como os diálogos são transcritos, não explanam a intenção de preparar Maria para o cumprimento de tarefa missionária. Quanto à possibilidade de Jesus manter uma relação conjugal com Maria, a base de tal ideia partiu da convicção de alguns estudiosos que interpretam, no Evangelho apócrifo atribuído a Filipe, uma passagem como referindo que “O Salvador amava-a mais do que a todos os discípulos e beijava-a frequentemente na boca”.

Mas na verdade nem é certo que essa passagem se refira ao “Salvador” (o vocábulo não está perfeitamente perceptível no texto original) e muito menos que a palavra seja “boca”. Segundo tradutores reconhecidos, o vocábulo contido no texto atribuído a Filipe, tanto pode ser “boca” como “faces” ou “testa”, o que encerra logo à partida o debate. Após o episódio da ressurreição, todos regressam de Jerusalém para a Galileia e, após algum tempo, os Apóstolos dão início às migrações de divulgação da Boa Nova.

Nenhum deles acolhe o pedido de Maria em deixá-la acompanhá-los, temendo pela reputação de pecadora que não a largava. Humilde e sozinha, resiste a propostas condenáveis que a solicitavam para uma nova queda de sentimentos. Nem nas sinagogas poderia cultivar os ensinos do Mestre, dado que estas tinham caído na intransigência judaica. Compreendeu que palmilhava o caminho estreito da solidão, apenas lhe valendo a confiança em Jesus.

Certo dia, um grupo de leprosos veio a Dalmanuta perguntando por Jesus Nazareno, mas todas as portas se lhes fechavam. Maria reuniu-os debaixo das árvores da praia e lhes transmitiu as claridades do Evangelho. Expulsos pelas autoridades locais, Maria acompanha-os até Jerusalém, onde são conduzidos para o vale dos leprosos. Explica-lhes que Jesus havia exemplificado o bem até à morte, devendo eles suportarem-se na fé e no bom ânimo para ultrapassar as dificuldades.

Os agonizantes arrastavam-se até junto dela e lhe beijavam a túnica singela, enquanto Maria os tomava nos braços fraternos e carinhosos. Em breve a sua pele denunciava as manchas próprias da doença. Sentindo-se perto do termo da sua tarefa, desejou regressar a Éfeso para rever antigos amigos, entre os quais Maria de Nazaré e João O Evangelista. Percorreu estradas ásperas e misérrimas choupanas, tendo que recorrer à caridade, o que lhe valeu penosas humilhações e amplos sacrifícios.

As feridas pustulentas substituíam a sua antiga beleza, mas alegrava-se ela por não se lamentar, na certeza de reencontrar Jesus brevemente. Ainda que desfalecendo à entrada da cidade, foi auxiliada por outros cristãos que a recolheram, conseguindo dessa forma reencontrar suas amizades. Na angústia das dores finais e já sem conseguir ver com os olhos físicos, recordou na sua mente os tempos gloriosos nas margens do Tiberíades, auscultando as palavras de Jesus.

Desencarnou sentindo-se sob as árvores de Cafarnaum e sendo esperada por seu Mestre, a quem nunca abandonou, que a acolhe brandamente nos braços e murmura: - Maria, já passaste a porta estreita!... Amaste muito! Vem! Eu te espero aqui! Bibliografia principal: “Sabedoria do Evangelho” de Torres Pastorinho; Evangelhos Apócrifos; “Boa Nova” de Humberto de Campos (espírito)/Chico Xavier; “Primícias do Reino” de Amélia Rodrigues (espírito)/ Divaldo Franco.