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Jornal de Espiritismo nº 44 · Janeiro 2011Página 75 min
Opinião PUBLICIDADE A flauta de osso de grifo “O papel fundamental da arte é exprimir a vida em toda a sua potência, em sua graça e em sua beleza.” Leon Denis, em “O Espiritismo na Arte” Há alguns meses, foi revelada através da revista científica Nature e amplamente divulgada pelos órgãos de comunicação social, a descoberta, numa gruta no sul da Alemanha, de uma flauta com cinco orifícios que a equipa de arqueólogos, liderada por Nicholas J.
Conard, estimou possuir pelo menos 35 mil anos. A flauta encontrada, da época do paleolítico superior quando o Homo Sapiens iniciou a colonização da Europa, foi construída em osso de asa de grifo e é o instrumento musical mais completo encontrado numa caverna. Até então, os artefactos rupestres musicais eram escassos e o seu estado de conservação não permitia uma datação precisa que suportasse uma estimativa segura para o início da tradição musical no Homem.
Aparentemente, nessa época os nossos antepassados foram como que arrebatados por uma explosão de criatividade, já que na mesma gruta foram encontradas outras flautas construídas em marfim retirado de presas de mamute e numa caverna nas redondezas foram descobertas pequenas esculturas de animais, todas com uma datação aproximada. A ideia de que há 35 mil anos, os nossos antepassados, para além dos instrumentos que lhes permitiam caçar e sobreviver, possuíam preocupações de carácter artístico, lúdico e criativo é uma revelação que nos estimula para preciosas reflexões sobre a arte, a natureza humana e suas aspirações mais profundas.
Já éramos conhecedores de que a arte era uma realidade na vida dos Homens pré-históricos, comprovado pelas pinturas e gravuras que ao longo dos séculos foram sendo encontradas nos tectos e paredes das grutas que lhes serviam de guarida. Com esses desenhos procuravam representar a Natureza que os rodeava, exaltando os seus feitos para a posteridade, eternizando conquistas, expressando os seus medos e a sua forma de sentir um mundo agreste e desconhecido.
A pequena flauta de osso encontrada na Alemanha, precursora da moderna música, vem sustentar a preponderância que a arte e a sedução pelo belo exercem no Homem, mesmo nos remotos tempos em que ainda dávamos os primeiros passos na construção daquilo que hoje chamamos civilização. A beleza, indo muito para além do estético e subjectivo, submete-nos a um intenso fascínio porque ela é sentida pela alma e quanto mais sublimada essa alma for, mais sensível se mostrará às formas como a beleza se expressa.
Alguns filósofos, como Hegel, dividem a beleza entre natural e artística, distinguindo dessa forma o que é a realidade da Natureza e o que é forjado pela criatividade humana. Mas a beleza natural é também a expressão de um grandioso artista. A vida, a Natureza e o Universo são efeitos do génio criativo de Deus, as mais geniais obras de arte que uma inteligência poderia criar. Obras de arte transcendentes e de transformação.
Como não ficar arrepiado ao reflectir sobre a magnitude de um imenso Universo ordenado em milhões de galáxias e estrelas? Como conter as lágrimas diante do berro de uma criança acordando para a magia da vida? Como ficar indiferente ao entusiasmo de um pôr-do-sol de Verão esborratando as suas cores florescentes contra o azul limpo do céu? O despontar de um botão de rosa numa fria madrugada, o mistério de uma noite repleta de estrelas polvilhadas sobre a escuridão?
Não existem palavras ou imagens físicas que consigam descrever as sensações que o contacto com esta arte natural nos oferece. A arte é a forma de comunicação mais completa que existe, pois não usa apenas palavras ou ideias, ela transmite-nos emoções e sentimentos. Sentir a arte da Natureza faz-nos perceber parte do sentir de Deus. O Homem é também um artista. As suas criações artísticas de inspiração Divina exercem um fascínio arrebatador que empurram à sublimação.
A beleza ilumina os nossos dias, impele-nos à admiração, ao êxtase. Cativado pelo belo, fazendo da arte um processo de iluminação, o Homem ousa chegar a Deus pela expressão da sua criatividade, pela criação e exaltação da beleza, para que esta o eleve, o transforme, ajudando transformar o mundo através dela. Segundo relatos mediúnicos, na Espiritualidade a arte mantém-se como uma ferramenta prodigiosa, engrandecida pela libertação dos veículos materiais, que limitam parte da expressão do génio criativo dos artistas.
Por tudo isto e também porque uma criação artística genuína é aquela que é expressão pura da alma do artista, a arte é um caminho por excelência para a sublimação espiritual. O Espiritismo, alargando os horizontes do Homem com os seus conceitos de Deus como Inteligência suprema, a sua ideia de uma imortalidade não apenas contemplativa mas activa e transformadora, o papel do esforço e da própria vontade na conquista dos elevados graus de sublimação, as vidas sucessivas, a vivência no mundo espiritual, pode servir de inspiração fecunda à arte em todas as suas expressões.
São temas que a arte espírita deve abraçar e os espíritas não se devem esquivar, ajudando a consolidar e a difundir estes conceitos por todos os que se dispuserem a ouvi-los, percebê-los e senti-los, contribuindo dessa forma para a transformação do mundo em que vivemos. Allan Kardec, em várias passagens da sua obra adverte para a chegada da era da “Arte Espírita”. Eis um dos exemplos, na Revista Espírita de Dezembro de 1860: “Sim, nós o repetimos, o Espiritismo abre à arte um campo novo, imenso, e ainda inexplorado, e quando o artista trabalhar com convicção, como trabalharam os artistas cristãos, haurirá nessa fonte as mais sublimes inspirações.
Quando dizemos que a arte espírita será um dia uma arte nova, queremos dizer que as ideias e as crenças espíritas darão, às produções do génio, um cunho particular, como ocorreu com as ideias e as crenças cristãs, não que os assuntos cristãos jamais caiam em descrédito, longe disso, mas, quando um campo está respigado, o ceifeiro procura colher alhures, e colherá abundantemente no campo do Espiritismo.” Desde o tempo em que os Homens, com as suas flautas feitas de ossos de grifos, inundavam de música as grutas em que viviam, até aos requintados instrumentos modernos do século XXI, muitos anos decorreram, incontáveis vidas se passaram.
Continuamos atraídos pela arte mas crescemos em moral e inteligência, aperfeiçoamos a forma como expressamos aquilo que nos vai dentro da alma, conseguimos perceber melhor os fios de teia que regulam este mundo mas sobretudo possuímos uma mais refinada sensibilidade para percebermos a arte transcendente que o génio de Deus ou de homens inspirados colocam à disposição do Espírito para a sua sublimação. Saibamos usar essa sensibilidade, para perceber mas também para criar arte.
