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Jornal de Espiritismo nº 44 · Janeiro 2011Página 154 min

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Opinião O que acontece aos“mortos” foto loucomotiv O dia de finados, em Novembro, é especialmente consagrado a recordarmos entes queridos que a chamada morte arrebatou ao nosso convívio. O jornal PÚBLICO estampou em 31 de Outubro passado o habitual artigo dominical de Frei Bento Domingues, nesse dia intitulado “Para onde vão os mortos?”. O conceituado religioso dominicano declara honestamente não ter resposta para tal interrogação, embora, como diz, muito bem soubesse em criança o destino deles: “o inferno ou o céu; o purgatório era um preço terrível para chegar ao céu.

As crianças sem baptismo iam para o limbo, entretanto desactivado. Com isto, dava-se cabo de Deus. Não se importava com o mal no mundo e, depois, ainda era implacável com quem morria em pecado mortal. Levou-me algum tempo despedir-me desse horror. Por mais misterioso que seja o amor que Deus nos tem, não pode ser compatível com a crueldade. Podem juntar todas as passagens bíblicas que quiserem, mas não me poderão convencer.

” Em defesa do seu lúcido ponto de vista, o prestigioso teólogo aduz trechos muito pertinentes do Novo Testamento, concluindo com segurança e pleno acerto: “Confio que o amor que Deus nos tem é mais sábio e mais poderoso do que a morte, do que o pecado e do que as nossas vãs antropologias”. Claríssimo, inquestionável: nem o mais perspicaz autor teológico encontraria fundamentos para arguir com nexo a conclusão de Bento Domingues.

Sem receio de cair em erro, modestamente me associo a tal evidência, na boa companhia de Paulo (Romanos 8.37,38): “…nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente, nem o futuro, nem as potestades, nem a altura nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus”. Se o tempo amadureceu o bom senso que fez “desactivar” o “limbo”, já era mais do que tempo de estar desactivado o “inferno”, blasfemo conceito medievalesco, ajaezado de eternidade e outros horrores, qual deles o mais grotescamente inconciliável com a excelsitude do Amor divino.

Cada vez mais, o tempo demonstra a antipedagogia dessa caricata pose minaz, intimidatória, totalmente desprovida, aliás, da carga persuasiva, atractiva, motivadora, do indizível Amor paternal e maternal do nosso Criador maravilhoso. Pierre Solignac, médico assumidamente católico, analisa em “A Neurose Cristã” (edição Europa América, Lisboa, 1977) casos de patologia comportamental observados durante a actividade psiquiátrica que desempenhou, quer na sua clínica quer em instituições conventuais francesas.

Diagnosticou-os não só em praticantes religiosos como também em descrentes, que todavia tinham tido na infância uma educação “cristã”. Solignac concluiu haver, entre esses casos e o tipo de educação recebida, uma clara relação causa/efeito, deixando bem patente que a “pedagogia” eclesiástica de ameaça e intimidação se mostra tão pouco eficaz a educar, como fértil em incubar desequilíbrios emocionais. E afinal, o que acontece com os mortos?

Por vezes, ouve-se dizer que “nunca ninguém voltou para nos dizer o que lhes acontece”. Alegação frívola de pessoas que jamais se deram ao trabalho de verificar, de facto, se alguém voltou ou não. Fazendo-o, encontrariam de certo enorme acervo de relatos existentes desde sempre, desmantelando até à raiz aquela sentença impensada. Começo pelo testemunho recente e muito objectivo de Janis Amatuzio, uma patologista forense e clínica norte-americana, no seu livro NOSSOS PARA SEMPRE (edição Bertrand, Lisboa 2008, prefácio do Prof.

Pinto da Costa). Aí consta o relato sério de muitos casos tocantes vividos por parentes de defuntos que a Dra. Amatuzio autopsiara, os quais, voltando, surpreenderam os seus parentes com variados tipos de manifestação. Se o tempo amadureceu o bom senso que fez “desactivar” o “limbo”, já era mais do que tempo de estar desactivado o “inferno”, blasfemo conceito medievalesco, ajaezado de eternidade e outros horrores, qual deles o mais grotescamente inconciliável com a excelsitude do Amor divino.

Para além desse testemunho e de muitíssimos outros, pesa toda a autoridade doutrinária, documental e prática da Codificação Espírita, elaborada no século XIX, sob metodologia científica, pelo prestigioso académico francês que adoptou o pseudónimo de Allan Kardec. Além de esclarecer ampla e racionalmente o que se passa depois da morte, Kardec abriu caminho a inúmeros cientistas de muitos países (mesmo incrédulos sobre tal matéria) para estudarem a fenomenologia que ele magistralmente interpretara e sistematizara, os quais chegaram a conclusões idênticas: os mortos estão bem vivos e comunicam de diversíssimas formas com aqueles de quem a morte os afastou fisicamente.

Podem até materializar-se, apresentar-se visíveis, tangíveis, fotografáveis! Além de muitos outros cientistas, provou-o à saciedade Sir William Crookes (1832-1919), génio da Física, que iniciara as suas investigações sobre os fenómenos espíritas com a intenção expressa de os desmascarar. Rendido à evidência, proferiu sobre eles, na Sociedade de Investigação Psíquica, a famosa declaração: “já não digo que são possíveis, afirmo que são reais”.

As suas experiências, meticulosamente descritas em sucessivos artigos do “Quarterly Journal of Science” e depois reunidas em livro, abalaram e dividiram o mundo da ciência, até ai acomodado no intocável paradigma mecanicista. Frederico Engels não se eximiu ao conhecimento dessas extraordinárias experiências: mencionou-as no livro “Dialéctica da Natureza”. Com a sua argúcia intelectual indesmentível, o eminente filósofo alemão (assim como ninguém até hoje) não logrou desmenti-las: limitou-se a alegar o inconsistente rumor, nunca provado, de que uma suposta entrada secreta permitiria acesso ao recinto onde Crookes efectuava as experiências.

Ainda assim, darwinista convicto, o mesmo Engels creditava-se dum mérito notável: abordou as experiências de Crookes não por uma absurda perspectiva “sobrenatural”, mas sim de dialéctica DA NATUREZA, suponho que sem dar conta de estar assim em conformidade com uma noção fundamental da filosofia espírita.