45 — índice de conteúdos

Crónica Comovaioseuambiente?

Jornal de Espiritismo nº 45 · Março 2011Página 129 min

Partilhar
Idioma

O Espírito atravessa numerosas existências corporais, a fim de conquistar amor e sabedoria. É fácil por isso perceber que, quando regressar a uma nova vida corporal, vai encontrar aTerra mais ou menos conservada. Se para quem desconhece que a vida não cessa é fundamental respeitar o ambiente, mais certo é que para o adepto da doutrina espírita essa tomada de consciência envolve dimensões mais amplas.

O oceano pode rir-se da gota de água, por ser pequena, mas são as muitas partículas de água que lhe possibilitam a dimensão gigantesca. A conduta diária de cada um faz a diferença, em primeiro lugar para si próprio, o que já é bom. Mas também pode influir nos outros, o que, sendo um exemplo positivo, é melhor ainda. Pensar que a defesa do ambiente em que vivemos é assunto de políticos, de empresas e de ambientalistas é um engano.

Os espíritos ensinam-nos que somos autores do nosso próprio destino. E ele faz-se no dia-a-dia. Cada pensamento e acção do quotidiano repercutem no futuro pessoal e colectivo, dentro do grande circuito da lei de causa e efeito. Acaba ou é sustentável? Diversos estudos dizem que a humanidade necessita de encontrar «modelos eficazes de desenvolvimento sustentável», uma vez que já se percebeu que os recursos naturais que a indústria utiliza são escassos.

Não é só o petróleo, cujas transformações trazem benefícios mas também poluem quanto baste, mas muitas outras matérias-primas que a natureza proporciona. Há 50 anos alguém diria que, em várias cidades do nosso país, uma larga percentagem dos seus habitantes prefeririam pagar água de garrafão a beber água canalizada? O sabor desta água pode ser desagradável e, ouve-se, deixa mal-estar no estômago. Será que daqui a 50 anos teremos de respirar oxigénio engarrafado?

São questões que oscilam entre o pueril e a realidade da evolução de uma sociedade assente numa máquina deglutidora de terra fértil e de árvores amigas do ambiente, que funciona com soluções de salto para a frente, ficando a dúvida se a dada altura não irá restar senão um abismo para saltar. Saberemos voar? O ser humano chegou ao que chegou porque até agora sempre teve ar, água, terra em abundância e qualidade. Não nos damos muito conta disso.

A sociedade diversificou-se, as fissuras entre a ruralidade e o urbano geraram uma quimera. Quando se compra um brinquedo para crianças, quem se lembra de optar por artefactos que não consomem pilhas? Muito poucos. As pilhas atiradas ao lixo são portadoras de metais pesados que entram na cadeia alimentar e vêm parar à nossa mesa e à dos nossos filhos. Quando entram no pilhómetro destinam-se a contentores teoricamente estanques.

Não são recicláveis ainda. É difícil mudar hábitos. Muito mais em grupos. Mas a reciclagem de materiais como papel, metal, vidro, plástico há-de acabar por se incluir nas condutas dos cidadãos, e ajudará… sem ser suficiente. Por um melhor porvir Tudo se resolveria se os recursos naturais fossem consumidos de forma a que nunca acabassem. Um carvalhal, por exemplo. Se um pequeno sector do bosque é abatido, tem de ser reflorestado, o que raramente acontece.

Regra geral arrasa-se tudo em busca do lucro imediato, sem futuro. Quando se desbasta uma floresta para construção, a lei deveria impor a conservação de árvores autóctones em proporção sustentável à cobertura de cimento. São máquinas naturais de defesa do solo (quando essas árvores são nativas) e de produção de oxigénio, no mínimo. Isto tem a ver com qualidade de vida para todos. Os processos redutores da poluição nestas fases são garantias de algo muito importante: a saúde dos cidadãos.

Os ingleses já andam há uns anos preocupados com os pardais. Não se ria. O assunto é sério. Em 10 anos as populações desta espécie, há não muito tempo abundante, reduziu-se até ao ano passado para 5 por cento. Hoje, dizem, «se vir um pardal no seu jardim, registe o facto». Tornou-se uma ave rara. Há animais que nos dizem com celeridade como vai o ambiente onde vivemos e onde criamos os nossos filhos. São os chamados bio-indicadores.

Anfíbios (rãs, salamandras, etc.) e alguns insectos também são. Há dias passou a notícia de que 150 mil portugueses em idade fértil não conseguiam ter filhos. Não é normal, mas há causas físicas e espirituais, claro. A poluição paga-se caro em forma de doenças que arrasam pela calada até que por fim sejam descobertas as causas. Tornou-se célebre a ideia de uma eventual Primavera silenciosa no futuro. Uma altura em que quando as amendoeiras e os pessegueiros florissem, as suas flores entristecer-se-iam por não sentirem a asa do voo das andorinhas chegadas de África ou o cantar vibrante das aves em nidificação.

Não é uma questão de estética para o ser humano: é uma necessidade de sobrevivência. A natureza não precisa de nós, mas nós precisamos dela para sobreviver nesta passagem de grande aprendizado na dimensão material. Por isso, para além do presente, desta mesma vida, não brinquemos, revejamos os nossos hábitos do quotidiano, para não virmos um dia a reencarnar num planeta quiçá ainda azul, mas já esventrado. Ser espírita é ser responsável, esclarecido, participante.

Não adianta virar a cara para o outro lado. É, assim, oportuno, por si próprio, verificar como vai o seu ambiente. Texto: Jorge Gomes A lei, a graçaea verdade A abrir o seu evangelho, João fala-nos do Verbo de Deus incarnado. Verbum (latim) significa palavra. Em vez de nos emaranharmos numa ideia antropomórfica de Deus, dotando-O dum aparelho fonador à nossa imagem e semelhança, tomemos logicamente “verbo” como manifestação, expressão; como uma forma de energia gerada de Deus, o Absoluto, Infinito, Aquele Que É, o Criador incriado em Quem os seres possuem a essência e existência.

Nada poderia existir ou ser fora d’ Ele, ou autónomo d’ Ele. Mais adiante, sobre o Verbo incarnado rezam os versículos 16 e 17: da sua plenitude é que todos recebemos graça sobre graça. Porque se a Lei foi dada por meio de Moisés, a graçaea verdade vieram por meio de Jesus Cristo. O decálogo recebido por Moisés contém “a Lei de Deus”, destinada ao Povo Hebreu. Todavia o carácter universal do seu conteúdo (sempre actual e ainda hoje subjacente ao Direito de todas as nações) destinava-a generalizadamente a toda a humanidade coeva, assim como à vindoura, de todos os tempos.

Esse conteúdo já encerrava toda a profundidade e transcendência de “Lei de Deus”. Mas a Humanidade de então (como a dos séculos imediatos) só lhe alcançava a superficialidade mais fácil de compreender; isto é: a imperatividade moral e civil dos dez mandamentos. Sentia-os como leis férreas que importava acatar e fazer acatar, sob pena das cruas sanções que Moisés promulgou a seguir, numa óptica de talião: vida por vida, olho por olho, dente por dente.

Sob o influxo da Providência benigna e sábia do Criador, ia-se processando a maturação evolutiva do Homem (como a de todo o Universo), sendo por fim alcançado o ponto qualitativo de oportunidade sociocultural para ser recebido o grandioso testemunho de Verdade trazido por Jesus. Moralidade perfeita ressumava sempre da sua vida e do seu ministério. Porém o Bom Pastor nunca agia como guardião da moral convencional do seu Povo, nem assumia poses de moralista, e até denunciava a moral ostensiva mas vã da classe sacerdotal.

Foi ao ponto de afrontar com vigor e autoridade a lei mosaica, naquilo em que ela não evidenciava um carácter cósmico, imutável, divino, mas meramente humano e conjuntural. Sem confundir o Povo, o nosso Mestre teve o cuidado de ali mesmo explicar que não derrogava a Lei mas a cumpria; que apenas revelava um alcance mais subtil e profundo do seu sentido e aplicação, até aí não entendidos; e que da mesma Lei não passaria um ápice nem um til sem que tudo se cumprisse (Mat 5.

18) Sim, o Rabi galileu, no memorável sermão do monte (uma das suas primeiras intervenções públicas) erigiu o monumento ímpar das oito bem-aventuranças. Dissecou a óptica de crueza da lei de talião e, arrebatador, exaltou o amor, o perdão, a compaixão, a humildade. Demoliu para sempre o pedestal ferino da suposta ira divina dum deus dos exércitos; e anunciou à Humanidade o Deus Pai de infinito amor, da misericórdia sem limites, desejoso não da morte do pecador mas sim da sua conversão e vida, vida abundante.

Durante a vida terrena, Jesus demonstrou a Verdade por palavras e actos: a Verdade imutável, eterna, que se confunde com o próprio conceito de Deus, com a justiça e justeza do Seu reino; a Verdade que por si mesma liberta de todas as formas de erro (o mal, a doença, a discórdia, a morte), extinguindo-as, e suprindo todas as necessidades. Obviamente, o Mestre não se reportava a verdades temporais, relativas, parcelares (1+1=2, ou a rotundidade da Terra: de que é que libertam?)

, nem à “verdade” da moral contingente (mores) da efémera existência terrena; mas sim à Verdade plena, manifesta em perfeição e beleza essenciais, condicentes com a harmonia cósmica. A Verdade transcendente à aparência e relatividade do sensorial, do imediato (já antes vislumbrada por profetas, e por Anaxágoras: “o que vemos é a materialização do que não vemos”) foi o testemunho grandioso que o almejado Messias veio prestar.

Sintonizado psiquicamente com a frequência energética da Verdade, Jesus, querendo, era livre de qualquer limitação das leis da matéria. Assim operava o que denominamos milagres, e ensinou aos discípulos que também poderiam fazer tais prodígios e até maiores. Instruiu-os e ordenou-lhes um dia: “ide, curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos…” (Mateus 10.8). Com o testemunho da Verdade, o divino amigo trouxe também a Graça a ela inerente.

A Verdade, o Bem, a Perfeição, aspectos essenciais do Pai Criador, por sua própria natureza dão-se de graça e amorosamente às criaturas, nisso se comprazendo, velando pela gradual e irreversível maturação delas. Até que desperte a consciência da filiação divina de cada uma: a consciência da Verdade que liberta de todas as limitações e extingue qualquer forma de erro ou mal, do mesmo modo que a luz extingue as trevas.

A Graça nada cobra, seja de que modo for: não nos lança em rosto qualquer demérito nosso ou deferência sua; compraz-se por sua própria natureza em doar-se aos filhos eternamente amados, respeitando-lhes o livre arbítrio. Uma vez alcançado este, podem os seres adiar e retardar mas não recusar, de modo nenhum, a ditosa aceitação da Graça para sempre, divinamente programados que estão para virem a alcançá-la plenamente.

Quanto às penas de talião (olho por olho, dente por dente…, detalhadas no Antigo Testamento _ Êxodo, Levítico, Deuteronómio), é evidente que o Bom Pastor se lhes referia no tocante ao nosso relacionamento pessoal, exortando ao amor e à indulgência; de modo nenhum as aboliu ou quereria sequer suspender-lhes o cunho permanente de leis naturais: perfeitas, integradas. Pelo contrário, até as corroborou quando, por exemplo, instruía: “na medida em que julgardes, sereis julgados”, “a cada um será dado segundo as suas obras”, “quem com ferro fere, com ferro será ferido”, etc.

, dissuadindo-nos da violência. Lúcido e prudente, o Rabi exortou-nos a repudiar na vida de relação todo o rancor e espírito vingativo; mas insistiu em que, para as infracções, a lei divina era e é inderrogável, sem remissão nem favores da harmonia cósmica infringida, a qual demanda reparação “até ao último ceitil” (Mat 5.26). Sempre fundamentada no ensino de Jesus, a Doutrina Espírita refere a lei de causa e efeito, fazendo compreender que “expiar até ao último ceitil” significa a reposição total e exacta da harmonia cósmica, através das acções reeducativa da dor, e/ou edificante do Amor: se eu deliberadamente causar cegueira, por exemplo, também a sofrerei nesta existência ou numa ulterior.

Mas não necessariamente: caso, arrependido do meu erro, me empenhe de alma e coração em iniciativas de socorro e apoio a cegos, ou de prevenção contra a cegueira, ou em actividades similares, o amor exercido nessas atitudes pode “apagar uma multidão de pecados”; isto é: a energia “positiva” que assim desenvolvi, extingue a de sinal contrário que eu antes provocara. De qualquer modo, o conceito eclesiástico de inferno eterno é insustentável, sacrílego, aberrante.

Ignora absurdamente não só a Boa Nova do infinito Amor Divino como também, pela cruel e descomunal desproporção da pena, a sapiente Justiça daquele Pai dulcíssimo que o Verbo incarnado (Caminho, Verdade e Vida) veio anunciar à Humanidade.